A exploração offshore não é a solução para a Argentina

A autorização outorgada pelo Ministério do Meio Ambiente da Argentina à empresa Equinor em sociedade com YPF e Shell para a exploração de hidrocarbonetos em alto mar implica inúmeros riscos para o país. E embora essa iniciativa tenha sido rejeitada por amplos setores da cidadania, ela tem recebido apoio de ambos os lados da “fenda”, como se conhece a divisão da sociedade argentina entre kirchneristas e anti-kirchneristas.

Aqueles que são a favor da iniciativa destacam que a atividade ocorre a mais de 300 quilômetros da costa de Buenos Aires, desqualificando quem temem pelo turismo. A declaração está errada. Basta consultar a comunidade científica e o efeito nocivo que geram as tarefas de prospecção sobre a biodiversidade que habita o mar argentino.  Como exemplo, as ondas sonoras afetam as populações de baleia franca austral, o que poderia ter um efeito econômico devastador na cidade turística de Puerto Madryn. 

Mas a visão, de ambos os lados da fenda, permanece de curto prazo. Mesmo que alguns reconheçam as reivindicações ambientais, a necessidade de gerar empregos, recursos fiscais e divisas é mais forte. Se o projeto gera um impacto negativo sobre o meio ambiente, isso deve ser evitado: a urgência (econômica) deixa os luxos (ambientais) para depois.

Além dos pontos de vista, essas propostas não condizem com os objetivos buscados. Se desconhece o problema dos ativos encalhados, associado ao ritmo da transição energética global e à consequente perda de valor dos ativos da indústria e da infraestrutura associada. Se a resolução de tal dilema fosse local, haveria inconvenientes, embora pudessem ser resolvidos. O problema é global, onde as decisões de alguns para mitigar o risco físico poderiam incrementar o risco financeiro em outros. É isso que aqueles que se apegam ao desenvolvimento offshore no Mar argentino deveriam ver.

Por outro lado, não está sendo levada em conta a probabilidade de uma queda abrupta da demanda, fruto de uma maior consciência ambiental, da mudança tecnológica ou da irrupção de novas normativas ambientais. O primeiro está associado à resposta dos governos diante a irrupção de fenômenos climáticos extremos: inundações, incêndios, tornados, secas. A profusão de tais fenômenos acelera a transição, pois aqueles que anteriormente duvidavam da urgência da mudança estão agora pressionando seus governos para que iniciem a transição.

Tecnologicamente, os avanços observados na última década induziram uma queda no custo de geração de eletricidade “limpa” de mais de 85% para energia solar e 56% para eólica. Mais decisiva é a redução de custos dos parques eólicos offshore, que poderiam se tornar competitivos em nossa região ao longo da década, o que implicaria uma verdadeira transformação da indústria energética.

A General Electric, uma das principais fornecedoras do mercado, construiu, juntamente com a Siemens – Gamesa e Vestas Wind Systems, um protótipo gigante na França, chamado Haliade-X, que gera quase três vezes mais energia do que os moinhos atuais. Em comparação com os primeiros equipamentos offshore instalados na Dinamarca há 30 anos, o protótipo da GE gera 30 vezes mais eletricidade.

Finalmente, cabe destacar as diferentes mudanças que estão ocorrendo a nível institucional. A promulgação de novas leis, regras e regulamentos ambientais coloca limites às usinas térmicas. Cada dia novas cidades do mundo impõem restrições à circulação de veículos a diesel (gasóleo). Até 2024, nenhum carro dessas características poderá circular em Paris ou Madri.  Além disso, em muitos países também avança a proibição da venda de automóveis de combustão interna.

Todas essas mudanças podem implicar que o fim do petróleo se vincule a um pico de demanda, e não de oferta como muitos propõem. Segundo um relatório recente, o pico poderia chegar em quatro ou cinco anos e os projetos analisados começariam sua etapa operacional no momento que a demanda começasse a diminuir.

Independentemente de como se dá o declínio, o importante para a região é o caráter exógeno e o consequente problema dos ativos encalhados. Nesse contexto, reverter o risco de transição implica reconhecer o caráter dinâmico do problema, com um complexo petrolífero que acaba demandando mais divisas do que promete gerar.

Menos bem sucedida é a proposta de associar a exploração offshore ao desenvolvimento tecnológico. Se a ambição é reduzir a fronteira tecnológica, a aposta deveria ir atrás de energias renováveis. Carlota Perez, renomada acadêmica, destaca a natureza estratégica de investir em tecnologias verdes, pois isso possibilita a adesão a uma nova “onda tecnológica”. A precoce detecção e adoção permite apropriar-se de rendas extraordinárias, reduzir a lacuna tecnológica, bem como gerar empregos de qualidade.

Para que isso aconteça, o Estado deve adotar um papel ativo em regulação, financiamento, promoção da pesquisa e desenvolvimento, e deve ter uma visão estratégica que vislumbre os setores potenciais, mas também aproveite as capacidades industriais e tecnológicas atualmente presentes. Infelizmente, a Argentina desperdiça recursos e perde oportunidades.

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