{"id":10034,"date":"2022-05-01T06:00:00","date_gmt":"2022-05-01T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10034"},"modified":"2022-05-01T11:35:51","modified_gmt":"2022-05-01T14:35:51","slug":"que-frente-democratica-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/que-frente-democratica-para-o-brasil\/","title":{"rendered":"Que frente democr\u00e1tica para o Brasil?"},"content":{"rendered":"\n<p>O tema das frentes pol\u00edticas voltou a estar no centro da discuss\u00e3o no Brasil e tem sido abordado de variadas maneiras desde que a democracia passou a ser amea\u00e7ada pelo presidente Jair Bolsonaro. Por\u00e9m, o problema remonta ao in\u00edcio do atual per\u00edodo democr\u00e1tico, em particular ao processo constituinte dos anos 80.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos enfoques recentes aborda o problema a perspetiva das lideran\u00e7as. <a href=\"https:\/\/m.facebook.com\/story.php?story_fbid=2699522853612507&amp;id=1548790565352414\">O cientista pol\u00edtico S\u00e9rgio Abranches<\/a>, por exemplo, considera que h\u00e1 \u201clideran\u00e7as que se consideram democr\u00e1ticas\u201d mas, no fundo, s\u00e3o intolerantes frente a \u201cgrupos de campos ideol\u00f3gicos distintos\u201d. Segundo este autor, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-desafio-das-eleicoes-de-2022-no-brasil-partido-ou-federacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as frentes pol\u00edticas<\/a> deveriam ser formadas com base numa \u201cagenda m\u00ednima\u201d, deixando-se de lado diferen\u00e7as espec\u00edficas e ideol\u00f3gicas em prol da \u201ccontradi\u00e7\u00e3o principal&#8221;, que seria a disjuntiva &#8220;neofascismo versus democracia republicana&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra abordagem, proposta pelo <a href=\"https:\/\/www.fundacaoastrojildo.org.br\/a-frente-democratica-aqui-e-agora\/\">ensa\u00edsta Luiz Sergio Henriques<\/a>, invoca a amea\u00e7a protofascista como um processo de deteriora\u00e7\u00e3o interno da democracia brasileira. O rem\u00e9dio apresentado por este autor \u00e9 o centro pol\u00edtico<em> <\/em>como um espa\u00e7o \u201cpara fazer mover o conjunto das for\u00e7as pol\u00edticas e a pr\u00f3pria sociedade\u201d. A pedra no caminho desta alternativa seria, no dizer de Henriques, a \u201cincerteza sobre o principal partido da esquerda, sua linha b\u00e1sica e a orienta\u00e7\u00e3o dos seus simpatizantes, que n\u00e3o foram treinados na pol\u00edtica de frentes\u201d. Por\u00e9m, na sua perspectiva parece bastar ao PT acenar simbolicamente ao centro, escolhendo um vice-presidente conservador, \u201cpara acalmar os mercados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os problemas e desafios que ambos autores colocam s\u00e3o reais e necessitam de solu\u00e7\u00e3o, embora me pare\u00e7a que o centro pol\u00edtico esteja longe de poder oferecer qualquer alternativa no atual contexto brasileiro, perdido que est\u00e1 em sua ortodoxia program\u00e1tica e sua catatonia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A dificuldade de criar frentes democr\u00e1ticas program\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O problema remonta ao in\u00edcio do atual per\u00edodo democr\u00e1tico, mais especificamente ao modo como o centro pol\u00edtico foi capaz de se reerguer e, de certa forma, se reinventar nos governos seguintes. Os primeiros sinais preocupantes apareceram j\u00e1 no processo constituinte (1986-1988) quando, ao lado da intensa mobiliza\u00e7\u00e3o social pela nova carta constitucional, surge das urnas uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ceifada dos melhores quadros pol\u00edticos e intelectuais que tinham estimulado aquela mobiliza\u00e7\u00e3o. As crises que se seguiram, inclusive o <em>impeachment<\/em> de Fernando Collor (1992) \u2013 cujos crimes ficaram impunes \u2013, s\u00f3 agravaram o fen\u00f4meno, fazendo com que as palavras ditas em 1989 por Ulisses Guimar\u00e3es \u2013 o velho l\u00edder do MDB na resist\u00eancia contra a ditadura \u2013 se tornassem prof\u00e9ticas: &#8220;se voc\u00ea acha que o atual Congresso \u00e9 ruim, ent\u00e3o espere pelo pr\u00f3ximo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, o centro gravitacional da nova pol\u00edtica brasileira foi saindo do eixo do MDB em dire\u00e7\u00e3o aos partidos que se mostravam dispostos a fazer reformas estruturaisno pa\u00eds, PSDB e PT. O ponto de virada foi o governo de Itamar Franco (1992-1994), que conseguiu reconstruir uma frente democr\u00e1tica e estancar a grave crise econ\u00f4mica agravada no governo Collor. A frente pol\u00edtica de Franco, que abarcaba da direita liberal \u00e0 esquerda moderada (ex-comunistas), embora centrada na urg\u00eancia de estancar a hiperinfla\u00e7\u00e3o e manter a higidez republicana do sistema, n\u00e3o conseguiu atrair o grosso da esquerda, cujo maior partido, o PT, expulsou de suas fileiras os que apoiaram a nova coaliz\u00e3o de governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ensaio de fortalecimento da jovem democracia refluiria nos anos seguintes, apesar do sucesso do Plano Real (1994), que conseguiu controlar a hiperinfla\u00e7\u00e3o. Mesmo no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que fora Ministro da Fazenda no governo Franco, as reformas se ativeram \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o, sem enfrentar o desafio do desenvolvimento nacional na periferia do capitalismo e, principalmente, sem confrontar as pr\u00e1ticas neopatrimoniais e anti-republicanas dos aliados conservadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois mandatos de Lula (2003-2010) e de Dilma Roussef (2011-2016) \u2013 este \u00faltimo tamb\u00e9m interrompido por <em>impeachment<\/em>\u2013, com suas reformas assistencialistas e o populismo cambial herdado do governo Cardoso, s\u00f3 agravaram o problema, como ficou provado nos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o conhecidos como Mensal\u00e3o e Petrol\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de formarem frentes program\u00e1ticas que enfrentassem os problemas econ\u00f4mico-sociais mais urgentes, tanto o PSDB quanto o PT optaram porgovernos apoiados, principalmente, em for\u00e7as pol\u00edticas fisiol\u00f3gicas, o que acabou por dificultar, e mesmo bloquear, o caminho das reformas que poderiam ter destravado o desenvolvimento e evitado a crise atual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o basta derrotar Bolsonaro nas urnas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise que hoje consome a democracia brasileira, n\u00e3o se limita nem se esgota no bolsonarismo, que se afigura mais como um marcador das dificuldades de uma democracia de &#8220;p\u00e9s de barro\u201d<em>.<\/em> Baseada na depend\u00eancia interpessoal, que se desdobra na \u201cvenda de votos\u201d, e na fragilidade financeira, que impede a mobilidade social, a democracia brasileira decai, enredada em problemas estruturais expressos na precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e no desmonte das cadeias produtivas, com a desmobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e o fechamento de empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma democracia se sustenta sobre tais bases. Basta ver o cen\u00e1rio pol\u00edtico que hoje amea\u00e7a as democracias ocidentais v\u00edtimas da desindustrializa\u00e7\u00e3o, cen\u00e1rio agravado pela escalada inflacion\u00e1ria da pandemia e da guerra na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, onde o tecido social \u00e9 estruturalmente fr\u00e1gil, o resultado n\u00e3o poderia ser melhor, como vemos com Bolsonaro e suas reiteradas amea\u00e7as de golpe de Estado. Todavia, \u00e9 ing\u00eanuo supor que este delicado quadro ser\u00e1 revertido simplesmente derrotando o atual mandat\u00e1rio em 2022 e recolocando no poder as lideran\u00e7as respons\u00e1veis pelo fracassado &#8220;ego\u00edsmo de partido&#8221; que trouxe o Brasil at\u00e9 aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Fortalecer a fr\u00e1gil democracia brasileira requer voltar a um tipo de frente democr\u00e1tica como o do governo Franco, baseado em um programa consensuado para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas \u2013 ao inv\u00e9s da mera defesa abstrata de princ\u00edpios democr\u00e1ticos \u2013, \u00fanica forma de superar a polariza\u00e7\u00e3o populista, p\u00f4r termo \u00e0 crise econ\u00f4mico-social e restaurar a confian\u00e7a popular no pacto constitucional de 1988.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quest\u00e3o das frentes pol\u00edticas voltou ao centro das discuss\u00f5es no Brasil desde que a democracia come\u00e7ou a ser amea\u00e7ada pelo Presidente Jair Bolsonaro. 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