{"id":10179,"date":"2022-05-09T09:00:00","date_gmt":"2022-05-09T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10179"},"modified":"2022-05-09T06:09:24","modified_gmt":"2022-05-09T09:09:24","slug":"o-impacto-das-alteracoes-climaticas-na-inflacao-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-impacto-das-alteracoes-climaticas-na-inflacao-global\/","title":{"rendered":"O impacto das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na infla\u00e7\u00e3o global"},"content":{"rendered":"\n<p>O \u00faltimo <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/es\/News\/Articles\/2022\/03\/15\/blog-how-war-in-ukraine-is-reverberating-across-worlds-regions-031522\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">relat\u00f3rio do FMI destaca os efeitos recessivos gerados pela invas\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia<\/a> sobre a economia mundial, assim como uma s\u00e9rie de choques de oferta que v\u00eam a marcar uma nova era inflacion\u00e1ria global. Se a infla\u00e7\u00e3o que desencadeou a pandemia foi considerada transit\u00f3ria, a press\u00e3o inflacion\u00e1ria que se detecta agora evidencia um car\u00e1ter estrutural. A economia global entra em <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/inflacao-latino-americana-um-globo-domesticavel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma nova etapa, de maior infla\u00e7\u00e3o<\/a>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para certos especialistas, isto representa um <em>d\u00e9j\u00e0 vu<\/em> da crise petrol\u00edfera dos anos 70 que transformou a economia e as finan\u00e7as internacionais. A crise marcou o decl\u00ednio do keynesianismo do p\u00f3s-guerra e o monetarismo surgiu como a vis\u00e3o dominante. Ao mesmo tempo, crescia tamb\u00e9m um interesse pelas quest\u00f5es ecol\u00f3gicas, o meio ambiente e se come\u00e7ou a pensar no desenvolvimento sustent\u00e1vel. Pouco tempo depois, a comunidade cient\u00edfica come\u00e7ava a alertar para o problema do aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Repensar o dilema inflacion\u00e1rio diante do desafio das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos pa\u00edses de rendimento baixo e m\u00e9dio, os choques externos adquirem uma relev\u00e2ncia destacada, assim como uma frequ\u00eancia mais pronunciada. Neste marco, os pa\u00edses exportadores de <em>commodities<\/em> (petr\u00f3leo, minera\u00e7\u00e3o, agricultura) se beneficiam de um aumento de pre\u00e7os, embora se vejam expostos a uma infla\u00e7\u00e3o mais elevada. Trata-se de pa\u00edses com economias pouco diversificadas e com forte desigualdade social, pelo que a infla\u00e7\u00e3o acaba afetando a maioria, dados os seus padr\u00f5es de consumo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, os fen\u00f4menos clim\u00e1ticos tornam-se extremos e surgem com cada vez mais for\u00e7a, o que coloca grandes desafios no \u00e2mbito econ\u00f4mico. Neste marco, as autoridades monet\u00e1rias deveriam monitorar os riscos, j\u00e1 que uma transi\u00e7\u00e3o sem objetivos pode implicar no problema dos ativos irrecuper\u00e1veis. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o deveriam descuidar-se dos efeitos que tal transi\u00e7\u00e3o gera sobre o fen\u00f4meno inflacion\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os desequil\u00edbrios macroecon\u00f4micos associados aos eventos extremos exigem grandes investimentos em adapta\u00e7\u00e3o, o que induz o ressurgimento da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com investimentos em mitiga\u00e7\u00e3o, observamos que o processo de transi\u00e7\u00e3o desencadeou um aumento significativo no pre\u00e7o dos minerais como o cobre, n\u00edquel, grafite, l\u00edtio ou cobalto. Um carro el\u00e9trico consome seis vezes mais minerais do que um de combust\u00e3o interna, e os minerais representam 20% do custo do equipamento de energia e\u00f3lica. Tudo isto levou a aumentos significativos no pre\u00e7o destes minerais nos \u00faltimos dois anos. O pre\u00e7o do l\u00edtio aumentou 1000%, o do n\u00edquel 300% e o do cobre 200%<\/p>\n\n\n\n<p>Estes novos equipamentos energ\u00e9ticos n\u00e3o chegam a gerar mais de 3% do total da energia produzida, enquanto os autom\u00f3veis el\u00e9tricos n\u00e3o representam mais de 1% da frota mundial. Embora a transi\u00e7\u00e3o possa revelar-se uma b\u00ean\u00e7\u00e3o devido a receitas mais elevadas, pode facilmente transformar-se numa maldi\u00e7\u00e3o com fortes consequ\u00eancias inflacion\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o limpa implica, al\u00e9m disso, custos mais elevados que n\u00e3o devem ser vistos como um luxo dos pa\u00edses desenvolvidos. De fato, a implementa\u00e7\u00e3o pela UE do imposto sobre o carbono na fronteira exige que tenhamos em considera\u00e7\u00e3o o ambiente no momento de planificar o desenvolvimento, uma vez que implica investimentos que tamb\u00e9m ir\u00e3o gerar mais infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de avan\u00e7ar com as energias limpas e deixar para tr\u00e1s a depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis, surgem diversas op\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas: pre\u00e7os do carbono, regulamenta\u00e7\u00e3o, subs\u00eddios. Qualquer que seja a alternativa, todas implicam um maior custo que afeta as empresas e consumidores.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do valor das licen\u00e7as de emiss\u00e3o da UE, enquanto que uma tonelada de carbono estava em torno de 21\u20ac em fevereiro de 2021, no ano seguinte chegava perto de 100\u20ac . Mas para al\u00e9m das varia\u00e7\u00f5es, o caminho \u00e9 explicado pelas decis\u00f5es adotadas tanto nos \u00faltimos anos como pela invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de um imposto sobre o carbono (a elimina\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis f\u00f3sseis) implica n\u00e3o s\u00f3 uma maior press\u00e3o inflacion\u00e1ria mas tamb\u00e9m uma maior tens\u00e3o social, dada a transfer\u00eancia (total ou parcial) do incremento aos consumidores. Mesmo que a sua introdu\u00e7\u00e3o induza uma menor contamina\u00e7\u00e3o, o imposto \u00e9 regressivo j\u00e1 que s\u00e3o os setores sociais mais empobrecidos os que destinam uma maior propor\u00e7\u00e3o de seus rendimentos na compra de combust\u00edveis ou no transporte p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, parece que os mercados futuros adotaram a transi\u00e7\u00e3o como irrevers\u00edvel. O financiamento \u00e0s empresas petrol\u00edferas tornou-se mais caro, seja pelo temor aos ativos irrecuper\u00e1veis ou pelo surgimento de normativas mais rigorosas. Tudo isto induziu uma menor taxa de investimento, que na atual conjuntura fortalece o pre\u00e7o dos combust\u00edveis e gera maior press\u00e3o inflacion\u00e1ria. Isto deveria acelerar a transi\u00e7\u00e3o. No entanto, n\u00e3o se pode ignorar que tal processo requer tempo, uma vez que os investimentos s\u00e3o dispendiosos. De uma forma ou de outra, a transi\u00e7\u00e3o gera efeitos inflacion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto sugere que a resposta da pol\u00edtica monet\u00e1ria tradicional de endurecer as condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito n\u00e3o \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o. Tal resposta \u00e9 mais apropriada em pa\u00edses onde o setor financeiro \u00e9 escassamente relevante. Mas se nestes pa\u00edses a demanda agregada \u00e9 insens\u00edvel frente a altera\u00e7\u00f5es na taxa de juro, a rea\u00e7\u00e3o frente \u00e0 taxa de c\u00e2mbio \u00e9 outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aumento dos pre\u00e7os dos <em>commodities<\/em> leva a uma aprecia\u00e7\u00e3o da moeda nacional, um fen\u00f4meno que pode ser amplificado pela entrada de capitais financeiros face a um aumento da taxa de juro local (carry trade). Embora isto beneficie o consumo e, eventualmente, os setores mais pobres, a bonan\u00e7a tem efeitos destrutivos sobre o aparato produtivo, especialmente nas economias abertas aos fluxos de capital. Isto explica as respostas heterodoxas implementadas por v\u00e1rios governos da regi\u00e3o nos anos 2000, bem como a mudan\u00e7a de opini\u00e3o do Fundo sobre os controles de capital recentemente ratificado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da conjuntura, marcada pela invas\u00e3o russa, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica caracteriza o atual fen\u00f4meno inflacion\u00e1rio como de longa dura\u00e7\u00e3o e a regi\u00e3o deveria avan\u00e7ar com a transi\u00e7\u00e3o. Isto obriga a classe pol\u00edtica a pensar em alternativas e a avan\u00e7ar com propostas inovadoras. Por exemplo, poderia ser introduzido um imposto sobre a renda extraordin\u00e1ria para tributar os lucros das empresas mineiras, uma vez que continuar\u00e3o em alta durante a transi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se poderia avan\u00e7ar com alguma variante do esquema de controle de capital instrumentalizado no passado pelo Chile, mas agora penalizando os fundos que entram para financiar ind\u00fastrias poluidoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao avaliar o problema, devemos deixar os dogmas para tr\u00e1s e atuar de forma pragm\u00e1tica. Temos de avan\u00e7ar para um novo esquema de produ\u00e7\u00e3o e consumo em que a transi\u00e7\u00e3o resulte em um processo sequencial. E os governos deveriam intervir para mitigar as consequ\u00eancias macroecon\u00f4micas (estabilidade de pre\u00e7os, competitividade do tipo de c\u00e2mbio, pol\u00edtica social e transi\u00e7\u00e3o justa) bem como para impedir a gera\u00e7\u00e3o de bolhas financeiras (investimento em ativos que possam se tornar irrecuper\u00e1veis).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a infla\u00e7\u00e3o que desencadeou a pandemia da COVID-19 foi considerada transit\u00f3ria, a press\u00e3o inflacion\u00e1ria que agora est\u00e1 sendo detectada \u00e9 prova de um car\u00e1ter estrutural. A economia mundial est\u00e1 entrando em uma nova fase, uma de infla\u00e7\u00e3o mais alta.<\/p>\n","protected":false},"author":213,"featured_media":10175,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16897,16749,16750,16749,16750],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-10179","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","9":"category-inflacion-pt-br","10":"category-economia-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/213"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10179"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10179\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10175"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10179"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=10179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}