{"id":10193,"date":"2022-05-10T09:00:00","date_gmt":"2022-05-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10193"},"modified":"2022-05-10T04:15:36","modified_gmt":"2022-05-10T07:15:36","slug":"america-latina-e-a-guerra-na-ucrania-a-segunda-armadilha-de-tucidides","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-e-a-guerra-na-ucrania-a-segunda-armadilha-de-tucidides\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina e a guerra na Ucr\u00e2nia: a segunda armadilha de Tuc\u00eddides"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/www.axtudo.com\/a-armadilha-de-tucidides-como-uma-teoria-com-2-500-anos-e-tao-atual-para-a-china\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A \u201carmadilha Tuc\u00eddides\u201d<\/a> \u00e9 um termo popularizado pelo cientista pol\u00edtico estadunidense Graham T. Allison para descrever \u201cos perigos concomitantes quando uma pot\u00eancia em ascens\u00e3o rivaliza com uma pot\u00eancia estabelecida\u201d, incluindo as condi\u00e7\u00f5es potenciais de um conflito b\u00e9lico entre elas. A narra\u00e7\u00e3o das Guerras do Peloponeso feita pelo grande historiador da Gr\u00e9cia Antiga \u00e9 utilizada, nesse caso, para descrever a ascens\u00e3o da China como uma nova Atenas do s\u00e9culo XXI desafiando a Esparta representada pelos Estados Unidos. Esta imagem da hist\u00f3ria comparada, captada pela academia e pelo debate intelectual, foi tomada \u00e0 vista por estrategistas e l\u00edderes pol\u00edticos. O pr\u00f3prio Xi Jinping argumentou em Seattle, durante uma viagem aos EUA em 2015, que \u201cn\u00e3o h\u00e1 tal coisa no mundo como a chamada armadilha de Tuc\u00eddides (&#8230;)\u201d, embora tenha continuado advertindo que \u201cse os principais pa\u00edses cometem erros de c\u00e1lculo estrat\u00e9gico repetidamente, poderiam criar tais armadilhas para si mesmos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Hist\u00f3ria da guerra do Peloponeso, de Tuc\u00eddides, segue ilustrando da antiguidade o presente das rela\u00e7\u00f5es internacionais e \u00e9 de especial atualidade quando uma das superpot\u00eancias desafia abertamente a paz e a seguran\u00e7a internacional, como a R\u00fassia est\u00e1 fazendo na Ucr\u00e2nia alegando motiva\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e etno-territoriais que levam consigo implica\u00e7\u00f5es nefastas. Mas Tuc\u00eddides n\u00e3o \u00e9 \u00fatil s\u00f3 para explicar a rela\u00e7\u00e3o entre as grandes pot\u00eancias, mas tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o entre elas e o resto dos estados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 famoso, nesse aspecto, O Di\u00e1logo dos M\u00e9lios, uma passagem do Livro V desta obra, na qual os atenienses oferecem aos m\u00e9lios um ultimato: render-se e prestar tributo \u00e0 Atenas ou ser destru\u00eddo. Os m\u00e9lios resistem e terminam arrasados. A frase que define a rela\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cos fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem\u201d \u2013 marcar\u00e1 um apotegma da chamada \u201cescola realista\u201d das rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Argentina, esta refer\u00eancia foi retomada e utilizada nos anos 90 para explicar a reorienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa e o alinhamento com os EUA durante o governo de Carlos Menem a partir do chamado \u201crealismo perif\u00e9rico\u201d. A Argentina acompanhou Washington na primeira guerra do Golfo (1990), foi beneficiada por cr\u00e9ditos e financiamentos que elevariam sua d\u00edvida externa, e foi incorporada como \u201caliado extra-OTAN\u201d. Tamb\u00e9m sofreu os dois mais graves atentados terroristas provenientes do fundamentalismo isl\u00e2micos na Am\u00e9rica Latina: o bombardeio da embaixada de Israel (1992) e da sede da sociedade m\u00fatua israelita, a AMIA (1994). A li\u00e7\u00e3o aprendida foi que se envolver com a pot\u00eancia hegem\u00f4nica traria maiores benef\u00edcios do que seguir sofrendo o isolamento de uma posi\u00e7\u00e3o distante, reticente ou confrontativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o Di\u00e1logo dos M\u00e9lios de Tuc\u00eddides \u00e9 utilizado para exemplificar o drama da Ucr\u00e2nia, enfrentando a invas\u00e3o russa, num contexto global marcado pelas tens\u00f5es entre Moscou e o Ocidente, definidas como uma nova Guerra Fria, com uma China que observa com expectativa essas tens\u00f5es.<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/por-un-orden-internacional-de-pueblos-libres-ayudemos-a-ucrania-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> A Am\u00e9rica Latina, que tem sofrido durante o s\u00e9culo XX com a condi\u00e7\u00e3o de ser cen\u00e1rio de disputa<\/a>, aberta ou encoberta, entre as grandes pot\u00eancias, sabe o que isso significa. Mas a Am\u00e9rica Latina, cabe tamb\u00e9m esclarecer, n\u00e3o atende um \u00fanico telefone: mostra-se mais como um conglomerado d\u00edspar de atores com suas pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es do que como um ator com posi\u00e7\u00f5es comuns no cen\u00e1rio global.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vota\u00e7\u00e3o da Assembleia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para exigir que a R\u00fassia cessasse as hostilidades na Ucr\u00e2nia, realizada em 24 de mar\u00e7o \u2013 ao completar o primeiro m\u00eas da invas\u00e3o \u2013 o resultado contra Moscou foi contundente: 140 dos 196 pa\u00edses votaram a favor.&nbsp; Os do G7 lideraram essa posi\u00e7\u00e3o, que foi seguida por toda Europa e 29 dos 34 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. 38 se abstiveram, apenas 5 o rejeitaram e 13 se abstiveram da vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vota\u00e7\u00e3o da Assembleia Geral de 4 de abril, que tratou e aprovou a retirada da R\u00fassia do Conselho de Direitos Humanos da ONU, os votos contr\u00e1rios \u00e0 R\u00fassia ca\u00edram de 140 para 97, as absten\u00e7\u00f5es cresceram de 38 para 51 e os votos negativos de 5 para 24. Conforme Rosendo Fraga aponta, a reviravolta foi encabe\u00e7ada pelas pot\u00eancias regionais do mundo em desenvolvimento: Brasil e M\u00e9xico na Am\u00e9rica Latina, Nig\u00e9ria e Egito na \u00c1frica, e Ar\u00e1bia Saudita e Indon\u00e9sia na \u00c1sia. Estes pa\u00edses abandonaram sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia em favor da absten\u00e7\u00e3o, arrastando votos de suas respectivas \u00e1reas de influ\u00eancia. A China, que havia se abstido nas vota\u00e7\u00f5es anteriores, passou a rejeitar a mo\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es, enquanto a \u00cdndia, a \u00c1frica do Sul e o Paquist\u00e3o continuaram evitando condenar a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) votou em 21 de abril a suspens\u00e3o da R\u00fassia como pa\u00eds observador permanente do organismo. A resolu\u00e7\u00e3o contou com 25 votos a favor, 8 absten\u00e7\u00f5es, uma aus\u00eancia e nenhum voto contra. Ou seja, uma rejei\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria de Moscou acompanhando a postura de Estados Unidos e Canad\u00e1. Mas entre as 8 absten\u00e7\u00f5es, estavam as tr\u00eas maiores economias da Am\u00e9rica Latina: Brasil, M\u00e9xico e Argentina. Ao contr\u00e1rio do que aconteceu em outras regi\u00f5es do mundo, onde as pot\u00eancias regionais arrastaram os votos de seu entorno, isso n\u00e3o ocorreu nesta regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na encruzilhada atual, cada pa\u00eds latino-americano luta novamente com um dilema de dif\u00edcil resolu\u00e7\u00e3o, talvez uma segunda \u201carmadilha de Tuc\u00eddides\u201d: como evitar o envolvimento imposto pelos \u201cgrandes jogadores\u201d, sabendo ao mesmo tempo que n\u00e3o pode permanecer \u00e0 margem de um conflito que tem m\u00faltiplos impactos diretos e indiretos e consequ\u00eancias locais, nacionais e regionais sobre a vida dos povos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*A vers\u00e3o original deste artigo foi publicada no Diario Clar\u00edn de Buenos Aires.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &#8220;armadilha de Tuc\u00eddides&#8221; \u00e9 um termo popularizado pelo cientista pol\u00edtico Graham T. Allison para descrever &#8220;os perigos concomitantes quando um poder em ascens\u00e3o rivaliza com um poder estabelecido&#8221;, incluindo uma guerra potencial entre eles.<\/p>\n","protected":false},"author":72,"featured_media":10191,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16801,16801,16980,16949,16949,16980,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-10193","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-integracion-regional-pt-br","9":"category-guerra-de-ucrania-es-pt-br","10":"category-politica-internacional-pt-br","13":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/72"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10193\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10193"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=10193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}