{"id":10240,"date":"2022-05-13T09:00:00","date_gmt":"2022-05-13T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10240"},"modified":"2022-08-19T16:10:45","modified_gmt":"2022-08-19T19:10:45","slug":"meio-seculo-de-relacoes-entre-argentina-e-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/meio-seculo-de-relacoes-entre-argentina-e-china\/","title":{"rendered":"Meio s\u00e9culo de rela\u00e7\u00f5es entre Argentina e China"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 19 de fevereiro de 2022, a Argentina e a China comemoraram 50 anos de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas que transitaram por diferentes etapas que acompanharam a acelerada ascens\u00e3o da pot\u00eancia asi\u00e1tica a n\u00edvel global. Atualmente, as assimetrias requerem ajustar estrat\u00e9gias para maximizar os benef\u00edcios derivados de uma crescente interdepend\u00eancia da Argentina naquela &#8211; que muito provavelmente &#8211; ser\u00e1 a principal economia mundial em meados do s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no final da d\u00e9cada de 70, a Argentina tentava tirar proveito da potencial demanda agroalimentar de uma economia no alvorecer de profundas reformas. Os anos 80 foram marcados pela primazia dos fatores externos e internos, onde a restaura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica argentina impulsionou as rela\u00e7\u00f5es com a China. Sob vis\u00f5es similares do mundo como&nbsp; &#8220;economias em desenvolvimento e n\u00e3o-alinhadas&#8221;, ambas as partes fizeram progressos na assinatura de acordos, pr\u00f3prios de uma agenda cooperativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, os anos 90 forneceram um marco particularmente adequado para a implementa\u00e7\u00e3o de uma agenda bilateral mais intensa, favorecida pela globaliza\u00e7\u00e3o com suas sequelas sobre a liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (Consenso de Washington), as expectativas chinesas de ades\u00e3o \u00e0 OMC, a atra\u00e7\u00e3o gerada pelo projeto do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante esta etapa, o din\u00e2mico crescimento da China ampliou as op\u00e7\u00f5es para expandir os fluxos comerciais sob um padr\u00e3o de complementaridade, canalizar empr\u00e9stimos por parte de institui\u00e7\u00f5es financeiras chinesas destinados a programas sociais, e atrair capitais chineses de investimento (Investimento Estrangeiro, IE), particularmente interessados nos setores mineiro, agro-alimentar e energ\u00e9tico. As empresas estatais chinesas (SOE), impulsionadas pela estrat\u00e9gia governamental sobre internacionaliza\u00e7\u00e3o (go out), exploraram oportunidades no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Amparados por uma ativa diplomacia comercial presidencial, os respectivos setores empresariais (p\u00fablicos e privados) assumiram maior protagonismo e temas como migra\u00e7\u00f5es, a dupla tributa\u00e7\u00e3o, a prote\u00e7\u00e3o dos investimentos (BTI&#8217;s), a coopera\u00e7\u00e3o aduaneira, e a abertura de um centro de promo\u00e7\u00e3o comercial argentino em Xangai, impulsionaram uma densa agenda bilateral.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI indicam caminhos econ\u00f4micos divergentes, que, no entanto, n\u00e3o impediram a continuidade e expans\u00e3o dos v\u00ednculos bilaterais. A China manteve altas taxas de crescimento e implementou na Am\u00e9rica Latina e Caribe <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/hermanamientos-china-america-latina-que-son-y-hacia-donde-van\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma ativa estrat\u00e9gia de penetra\u00e7\u00e3o comercial e cultural<\/a>, mediante investimentos e financeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a Argentina mergulhou numa fase econ\u00f4mica cr\u00edtica que foi &#8211; parcialmente &#8211; superada a partir de 2004. Nesta etapa, a China desempenharia um papel central na tra\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es argentinas de agroalimentos, favorecendo assim a obten\u00e7\u00e3o de rendas por parte de uma economia nacional em dificuldades gra\u00e7as ao boom nos pre\u00e7os internacionais de mat\u00e9rias primas.<\/p>\n\n\n\n<p>A visita \u00e0 Argentina em 2004 pelo ent\u00e3o Presidente Hu Jintao confirmou o interesse investidor da China a n\u00edvel local em setores estrat\u00e9gicos como caminhos-de-ferro, telecomunica\u00e7\u00f5es, estradas, portos, minera\u00e7\u00e3o e hidrocarbonetos. Os acordos ent\u00e3o assinados confirmam a import\u00e2ncia para a Argentina de uma rela\u00e7\u00e3o bilateral com a China, assumida em <a href=\"https:\/\/www.casarosada.gob.ar\/informacion\/archivo\/24383-blank-65960816\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">palavras pronunciadas por N\u00e9stor Kirchner<\/a> como um &#8220;contrapeso&#8221; geopol\u00edtico frente \u00e0 proposta estadunidense de cria\u00e7\u00e3o de uma \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (ALCA) e como um &#8220;fator de industrializa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A sintonia pol\u00edtico-ideol\u00f3gica entre governos &#8220;de esquerda&#8221; da regi\u00e3o &#8211; Brasil, Argentina, Equador, Bol\u00edvia e Venezuela &#8211; permitiu \u00e0 China uma inser\u00e7\u00e3o menos interferida por um Estados Unidos que tentava &#8220;conter&#8221; a crescente influ\u00eancia chinesa. Por outro lado, a cria\u00e7\u00e3o da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) em 2010 retroalimentou as pretens\u00f5es argentinas (latino-americanas) de aprofundar os v\u00ednculos com a China.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a \u00faltima d\u00e9cada e at\u00e9 a atualidade, as rela\u00e7\u00f5es bilaterais foram consolidadas. Em 2014, os presidentes Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner e Xi Jinping assinaram a Declara\u00e7\u00e3o Conjunta para o estabelecimento da Associa\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica Integral entre os dois pa\u00edses. Outros acordos de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, comercial, financeira, nuclear e cultural, que inclui a concess\u00e3o por parte da China de um empr\u00e9stimo de US$4.714 milh\u00f5es de d\u00f3lares para financiar as barragens de Kirchner e Cepernic (prov\u00edncia de Santa Cruz) e o empr\u00e9stimo para a renova\u00e7\u00e3o total dos carris do caminho-de-ferro Belgrano Cargas, validaram a entrada argentina &#8211; de fato &#8211; no projeto <em>Belt and Road<\/em> (BRI).<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, os investimentos chineses flu\u00edram para setores como infraestrutura, telecomunica\u00e7\u00f5es, extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, energias convencionais e n\u00e3o-convencionais. O financiamento de bancos estatais chineses sustentaram e sustentam projetos de desenvolvimento em munic\u00edpios sob os ausp\u00edcios de iniciativas de &#8220;gemina\u00e7\u00e3o de cidades e prov\u00edncias&#8221; que aproximam geografias distantes e misturam identidades diferentes. Posteriormente, e tamb\u00e9m como resultado dos acordos governamentais de 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se o fato for relevante, o simb\u00f3lico ocupa um lugar de destaque. Em cinco d\u00e9cadas, a constru\u00e7\u00e3o de imagens sobre a China a n\u00edvel local evoluiu positivamente. A imigra\u00e7\u00e3o consolidou o estabelecimento de uma &#8220;comunidade chinesa ultramarina&#8221; com uma ativa presen\u00e7a social cuja diferenciada identidade cultural gera interesse.<\/p>\n\n\n\n<p>A promo\u00e7\u00e3o cultural mediante a cria\u00e7\u00e3o dos Institutos Conf\u00facio (na Universidade de Buenos Aires e na Universidade de La Plata) alimenta a curiosidade de conhecer mehor a cultura chinesa; a abertura de escolas bilingues (chin\u00eas-espanhol), a difus\u00e3o de estudos sobre a literatura argentina na China, o tango como express\u00e3o popular, e a abertura de centros de estudo sobre a China em universidades argentinas e thinks tanks econ\u00f4micos argentinos, serviram para reafirmar a esperada continuidade de uma estrat\u00e9gica rela\u00e7\u00e3o bilateral com um ator extra-regional de crescente influ\u00eancia global.<\/p>\n\n\n\n<p>A recente visita do Presidente Alberto Fern\u00e1ndez \u00e0 China em fevereiro de 2022 reafirmou o interesse da Argentina em ter a China como um aliado estrat\u00e9gico, parceiro pol\u00edtico, mercado para a exporta\u00e7\u00e3o de produtos agro-industriais e energia, fonte de investimento (IE), fornecedor de cr\u00e9dito e centro de inova\u00e7\u00e3o para a capta\u00e7\u00e3o e transfer\u00eancia de novas tecnologias; por exemplo, no setor nuclear, mediante a constru\u00e7\u00e3o de uma nova central financiada por bancos chineses que transformaria a Argentina em um leading case ao contar com um reator experimental Hualong One.<\/p>\n\n\n\n<p>Complementam este quadro, a entrada formal da Argentina no projeto chin\u00eas sobre a conectividade global do Belt and Road em seus distintos componentes (terrestre, infra-estrutura ferrovi\u00e1ria, mar\u00edtimo-portu\u00e1rio, digital-telecomunica\u00e7\u00f5es 5G) atrav\u00e9s de um financiamento previsto de US$23.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares, a procura de alian\u00e7as em ci\u00eancia e tecnologia centradas no setor espacial e a amplia\u00e7\u00e3o do Acordo de Swaps para os US$ 21.700 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o conjunta no G-20 oferece tamb\u00e9m outro plano de intera\u00e7\u00e3o bilateral e multilateral em que ambas as partes partilham interesses sobre estabilidade global, desenvolvimento econ\u00f4mico e redu\u00e7\u00e3o das assimetrias Norte-Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas proje\u00e7\u00f5es destas rela\u00e7\u00f5es, as lacunas e assimetrias de poder entre a China na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento como a Argentina, mergulhadas em crises peri\u00f3dicas num mundo conturbado, exigir\u00e3o a gest\u00e3o de uma agenda comum com maiores doses de per\u00edcia diplom\u00e1tica, a fim de maximizar os benef\u00edcios derivados de uma crescente interdepend\u00eancia da China.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, durante as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, a China pode desempenhar um papel central para a Argentina, impulsionando interc\u00e2mbios comerciais, atraindo investimento e contribuindo para o desenvolvimento local mediante aportes financeiros dirigidos a projetos de infraestrutura cr\u00edtica.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>*Texto publicado originalmente no site da <a href=\"http:\/\/chinayamericalatina.com\/50-anios-de-relaciones-diplomaticas-entre-argentina-y-china-una-mirada-retrospectiva\/\">REDCAEM<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses passaram por diferentes etapas que acompanharam a acelerada ascens\u00e3o da pot\u00eancia asi\u00e1tica em escala global.  <\/p>\n","protected":false},"author":289,"featured_media":10236,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-10240","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/289"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10240"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10240\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10240"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=10240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}