{"id":10253,"date":"2022-05-14T09:00:00","date_gmt":"2022-05-14T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10253"},"modified":"2022-05-13T12:56:36","modified_gmt":"2022-05-13T15:56:36","slug":"todo-o-governo-ao-empresariado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/todo-o-governo-ao-empresariado\/","title":{"rendered":"Todo o Governo ao empresariado?"},"content":{"rendered":"\n<p>Seja por legado da filosofia grega cl\u00e1ssica ou por influ\u00eancia do pensamento cat\u00f3lico agostiniano que separava a esfera privada comercial (orientada pelo lucro) das decis\u00f5es coletivas para o bem comum, muitos de n\u00f3s nos acostumamos a dissociar o poder pol\u00edtico e as defini\u00e7\u00f5es p\u00fablicas das influ\u00eancias do mercado. Essa separa\u00e7\u00e3o poderia ter sentido na \u00e9poca dos grandes imp\u00e9rios, da constru\u00e7\u00e3o do Estado nacional e dos processos de independ\u00eancia contestadores do colonialismo pr\u00f3prios do s\u00e9culo XX, quando as autoridades contavam com recursos, capacidades e legitimidade para surgir como a fonte quase exclusiva do bem-estar nacional. Mas hoje em dia, quando corpora\u00e7\u00f5es como Apple, Microsoft ou Amazon t\u00eam, cada uma, um valor de mercado superior ao PIB brasileiro, russo, canadense ou espanhol \u2013 todos, pa\u00edses do seleto e rico G20 \u2013, \u00e9 dif\u00edcil defender essa divis\u00e3o, assim como isentar <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/es\/20191009-multilatinas-que-son-relevancia-region\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a vanguarda empresarial de um papel<\/a> mais determinante do que a produ\u00e7\u00e3o de bens.<\/p>\n\n\n\n<p>A crescente atribui\u00e7\u00e3o de capacidades e responsabilidades <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/oro-blanco-la-emergencia-geopolitica-del-litio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00e0s grandes empresas pelo destino das sociedades<\/a> onde atuam e suas deriva\u00e7\u00f5es ambientais, clim\u00e1ticas, \u00e9ticas e sociais \u00e9 parte de um processo de reconhecimento paulatino do poder e compet\u00eancia das corpora\u00e7\u00f5es. Estas potencialidades n\u00e3o refletem apenas uma situa\u00e7\u00e3o de paridade ou mesmo superioridade com institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas convencionais para gerar e distribuir impactos onde operam. Tamb\u00e9m retratam a percep\u00e7\u00e3o de incapacidade ou desinteresse do poder p\u00fablico tradicional (Governo, institui\u00e7\u00f5es do Estado, partidos ou Parlamento) para administrar problemas para os quais os agentes do mercado (similar aos outros, como a sociedade civil organizada) se projetam como muito mais capacitados para dar respostas satisfat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto explica a crescente expectativa dos cidad\u00e3os por um comportamento empresarial social e ambientalmente respons\u00e1vel. Um estudo da consultoria Market Analysis, junto com a rede mundial de pesquisadores independentes WIN, que entrevistou mais de 33.230 pessoas em 39 pa\u00edses, revela que sete em cada dez adultos do mundo consideram extremamente ou muito importante estar conscientes e informados sobre as a\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a socioambiental que as grandes empresas executam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos principais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como Brasil, M\u00e9xico e Argentina, esta propor\u00e7\u00e3o chega a 80% ou mais. Embora em menor grau, chilenos e colombianos tamb\u00e9m superam a m\u00e9dia global em hierarquizar o conhecimento sobre a atua\u00e7\u00e3o corporativa em mat\u00e9ria de sustentabilidade. Mas a import\u00e2ncia da conscientiza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m de especula\u00e7\u00f5es em abstrato: pouco mais de 6 em cada 10 adultos em todo o mundo admitem que o comportamento socioambiental corporativo molda suas prefer\u00eancias de compra ou ades\u00e3o \u00e0 marca.<\/p>\n\n\n\n<p>Votar com o livro de bolso elegendo os ofertantes de produtos e servi\u00e7os (empresas) com melhores credenciais \u00e9ticas e sustent\u00e1veis \u00e9 conhecido como \u201cconsumo pol\u00edtico\u201d e poderia ser uma for\u00e7a transformadora capaz de estender a a\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 al\u00e9m das esferas formais das urnas, da milit\u00e2ncia partid\u00e1ria ou do protesto de rua. Isso ocorreria porque o poder e a capacidade de influ\u00eancia social e ambiental das corpora\u00e7\u00f5es exige influenci\u00e1-las onde \u2013 de fato \u2013 \u00e9 poss\u00edvel moldar seu comportamento: sua sa\u00fade financeira, sua participa\u00e7\u00e3o de mercado, sua reputa\u00e7\u00e3o entre os consumidores e outros <em>stakeholders<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O favorecimento de empresas com governan\u00e7a cidad\u00e3 que respeitam o meio ambiente em vez de envenen\u00e1-lo, ou que ampliam os direitos de seus funcion\u00e1rios e compartilham benef\u00edcios econ\u00f4micos entre fornecedores, sobre os que ignoram as boas pr\u00e1ticas socioambientais, contribui para construir uma sociedade mais humana, aberta e inclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que, ent\u00e3o, esta nova forma de ativismo e constru\u00e7\u00e3o de uma agenda progressista n\u00e3o se materializa ao impulsionar uma nova ordem social que estenda a boa governan\u00e7a de forma mais massiva? O estudo Market Analysis\/WIN tamb\u00e9m revela as suspeitas que rodeiam os agentes com poder, pol\u00edticos e empresariais, na regi\u00e3o, estimulando a paralisia onde poderia haver oportunidades de mobiliza\u00e7\u00e3o progressista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos 39 pa\u00edses pesquisados, apenas uma em cada cinco pessoas acredita que a maioria das empresas opera seriamente com responsabilidade social e sustentabilidade. Outros 40% acreditam \u2013 ao contr\u00e1rio \u2013 que, em sua maioria, as empresas buscam demonstrar uma governan\u00e7a; em resumo, puro <em>marketing<\/em>. Na Am\u00e9rica Latina, excluindo o Brasil que, al\u00e9m de ter uma estrutura empresarial mais complexa, tem uma tradi\u00e7\u00e3o de debates fortes e vis\u00edveis dedicadas \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o e reconhecimento da chamada cidadania corporativa e dos princ\u00edpios ESG (de governan\u00e7a socioambiental), apenas 10% confiam nos compromissos sustent\u00e1veis do mundo empresarial (metade da m\u00e9dia global).<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio atual que combina fortes expectativas de compromisso corporativo com o bem comum por parte dos cidad\u00e3os, somado \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para premiar ou castigar empresas em fun\u00e7\u00e3o de seu desempenho socioambiental e baixa credibilidade no comportamento altru\u00edsta e pr\u00f3-social das empresas, representa um verdadeiro desafio. Por um lado, esta combina\u00e7\u00e3o redefine e consolida quem s\u00e3o os novos jogadores de peso frente aos desafios que nossos pa\u00edses enfrentam, materializando uma mudan\u00e7a nas expectativas de que os problemas importantes ser\u00e3o dirigidos para as empresas no lugar de concentrar toda a f\u00e9 nas institui\u00e7\u00f5es tradicionais da pol\u00edtica e do Estado. Por outro lado, esta situa\u00e7\u00e3o gera um fluxo de press\u00e3o e demanda, cuja canaliza\u00e7\u00e3o se frustra diante a incredulidade sobre as verdadeiras inten\u00e7\u00f5es corporativas. A possibilidade de que a atua\u00e7\u00e3o empresarial seja vista como oportunista ao inv\u00e9s de genu\u00edna, bem como as frustra\u00e7\u00f5es com o sistema pol\u00edtico formal \u2013, podem abrir a porta para express\u00f5es radicalizadas ou anti-sist\u00eamicas. A descren\u00e7a na possibilidade de concretizar avan\u00e7os progressistas tamb\u00e9m pelas vias do mercado diante de Estados falidos ou Governos paralisados como os que caracterizam nossa regi\u00e3o, junto com os comportamentos corporativos que alimentam ou justificam esta percep\u00e7\u00e3o, poderiam frustrar a proposta de um modelo duradouro de desenvolvimento respons\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por diferentes aspectos culturais, muitos de n\u00f3s nos acostumamos a desassociar o poder pol\u00edtico das influ\u00eancias do mercado. 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