{"id":10352,"date":"2022-05-20T09:00:00","date_gmt":"2022-05-20T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10352"},"modified":"2022-05-19T17:27:37","modified_gmt":"2022-05-19T20:27:37","slug":"a-crise-na-ucrania-nao-e-culpa-do-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-crise-na-ucrania-nao-e-culpa-do-ocidente\/","title":{"rendered":"A crise na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 culpa do Ocidente"},"content":{"rendered":"\n<p>Alguns analistas culpam o Ocidente, em particular a expans\u00e3o da OTAN, por provocar a rea\u00e7\u00e3o russa e a guerra na Ucr\u00e2nia. John Mearsheimer da Universidade de Chicago, suscitou um amplo debate internacional, sustentando que a R\u00fassia atuou porque o Ocidente amea\u00e7ou diretamente sua seguran\u00e7a e interesses vitais. Esta teoria ignora a forte responsabilidade de Moscou, a ideologia de Putin e seu desejo de alterar a ordem internacional. Neste contexto, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/america-latina-y-la-guerra-en-ucrania-la-segunda-trampa-de-tucidides\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a Am\u00e9rica Latina, que tamb\u00e9m seria afetada pelas consequ\u00eancias do conflito<\/a>, deveria decidir de uma vez por todas de que lado est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nunca houve uma amea\u00e7a real \u00e0 seguran\u00e7a russa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1999 e 2004, a OTAN se ampliou para incluir v\u00e1rios pa\u00edses da ex-esfera de influ\u00eancia sovi\u00e9tica. A R\u00fassia se op\u00f4s, mas aceitou, j\u00e1 que os novos membros n\u00e3o dividiam uma extensa fronteira com a R\u00fassia, e Moscou se encontrava em uma posi\u00e7\u00e3o debilitada. O ponto de n\u00e3o retorno se alcan\u00e7aria em 2008, com a c\u00fapula da OTAN em Bucareste. A declara\u00e7\u00e3o final afirmava que no futuro a Ge\u00f3rgia e a Ucr\u00e2nia se tornariam membros da OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>Os receios da R\u00fassia eram infundados. A Declara\u00e7\u00e3o de Bucareste apoiava a futura solicita\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e Ge\u00f3rgia, mas tamb\u00e9m enfatizava a necessidade de discutir quest\u00f5es pendentes. A Fran\u00e7a e a Alemanha pararam a iniciativa precisamente para n\u00e3o alarmar a R\u00fassia. Na verdade, a OTAN nunca ofereceu \u00e0 Ge\u00f3rgia e \u00e0 Ucr\u00e2nia um plano de ades\u00e3o e seu processo formal nunca teve in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2020, a OTAN reconheceu a Ucr\u00e2nia como &#8220;s\u00f3cio de oportunidades melhoradas&#8221;. Isto permite consultas pol\u00edticas regulares, interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es, plataformas de interoperabilidade e exerc\u00edcios conjuntos. A Finl\u00e2ndia, um pa\u00eds membro da Uni\u00e3o Europeia e que tem fronteira direta com a R\u00fassia, goza do mesmo status. A Finl\u00e2ndia tem, al\u00e9m disso, um ex\u00e9rcito de 180.000 pessoas e compra regularmente equipamentos militares dos Estados Unidos. Devemos esperar uma invas\u00e3o russa \u00e0 Finl\u00e2ndia? Esperemos que n\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Promessas n\u00e3o cumpridas e tratados violados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na <a href=\"https:\/\/elpais.com\/diario\/2007\/03\/02\/internacional\/1172790020_850215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">confer\u00eancia de seguran\u00e7a de Munique em 2007<\/a>, o Presidente Putin referiu-se explicitamente \u00e0s supostas garantias de n\u00e3o-amplia\u00e7\u00e3o da OTAN oferecidas em 1990 pelo ent\u00e3o Secret\u00e1rio-Geral da OTAN W\u00f6rner. Entretanto, as palavras citadas por Putin foram retiradas do contexto e se referiam apenas \u00e0 reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1990, em troca da unifica\u00e7\u00e3o das duas Alemanhas, Gorbachev obteve uma garantia informal de n\u00e3o-expans\u00e3o da OTAN. Documentos diplom\u00e1ticos revelam que entre 1990 e 1991, o presidente estadunidense George H. Bush, Kohl da Alemanha, Mitterrand da Fran\u00e7a e Major do Reino Unido asseguraram a Gorbachev e seu Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Shevardnadze, que n\u00e3o haveria expans\u00e3o da OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>A vers\u00e3o do Ocidente \u00e9 que estas garantias se referiam \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e n\u00e3o poderiam ser aplicadas \u00e0 R\u00fassia em anos posteriores. \u00c9 uma justificativa talvez um tanto improvisada, mas \u00e9 aceita por alguns analistas, assim como pelo pr\u00f3prio Shevardnadze. Em qualquer caso, isso seria suficiente para explicar a invas\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia trinta e dois anos depois?<\/p>\n\n\n\n<p>Putin violou os tratados assinados pela Federa\u00e7\u00e3o Russa sobre a Ucr\u00e2nia. Em 1994, com o Memorando de Budapeste, em troca de ceder o arsenal nuclear ucraniano \u00e0 R\u00fassia, Moscou se comprometeu a respeitar a independ\u00eancia, a soberania e as fronteiras da Ucr\u00e2nia, bem como a se abster da amea\u00e7a ou do uso da for\u00e7a contra a Ucr\u00e2nia. A R\u00fassia n\u00e3o cumpriu nenhum de seus compromissos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revisionismo russo e causas complexas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 o ativismo da OTAN que explica a guerra da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia, mas a forma como Putin decidiu gradualmente se opor a ela, dentro de uma concep\u00e7\u00e3o mais ampla de revisionismo e redefini\u00e7\u00e3o da ordem internacional liberal liderada pelo Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Analistas russos confirmam este argumento. Andrey Sushentsov, do Instituto de Estudos Internacionais do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, observa que com a invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia, a era da busca russa de seu lugar no mundo centrado no Ocidente terminou. Sergei Karaganov, do Conselho de Pol\u00edtica Externa e de Defesa de Moscou, fala de uma estrat\u00e9gia russa de &#8220;utilizar v\u00e1rios instrumentos de pol\u00edtica externa, inclusive militares&#8221; e de substituir o atual sistema de seguran\u00e7a euro-atl\u00e2ntico por um sistema euro-asi\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Lavrov atacou a ordem liberal e acusou o Ocidente de arrogar-se um direito auto-perpetuador de remodelar pa\u00edses &#8220;n\u00e3o democr\u00e1ticos&#8221; de acordo com os padr\u00f5es ocidentais, uma posi\u00e7\u00e3o que ele chamou de &#8220;imperial e neocolonial&#8221;. As rela\u00e7\u00f5es internacionais, acrescentou, est\u00e3o passando por mudan\u00e7as fundamentais e a era da domina\u00e7\u00e3o ocidental est\u00e1 chegando ao seu fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as supostas amea\u00e7as \u00e0 R\u00fassia n\u00e3o est\u00e3o no \u00e2mbito da seguran\u00e7a militar, mas no dos valores. A difus\u00e3o da democracia, dos direitos individuais e o respeito \u00e0 lei minam a ordem autocr\u00e1tica da R\u00fassia. As elites russas fariam bem em se perguntar como \u00e9 que tantos pa\u00edses anseiam por um futuro mais pr\u00f3ximo do Ocidente e livre de Moscou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Am\u00e9rica Latina \u00e9 parte do Ocidente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias de um conflito de longo prazo na Ucr\u00e2nia afetariam significativamente a Am\u00e9rica Latina. O custo das mat\u00e9rias primas e alimentos a n\u00edvel mundial crescer\u00e1, impactando o pre\u00e7o dos produtos manufaturados que a Am\u00e9rica Latina importa. A acelera\u00e7\u00e3o europeia rumo a uma energia e economia verde ter\u00e1 impactos mundiais, tanto no econ\u00f4mico como no pol\u00edtico. Os Estados Unidos e a Europa procurar\u00e3o aliados confi\u00e1veis e est\u00e1veis e a Am\u00e9rica Latina ter\u00e1 que definir seu lugar entre o Ocidente e os pa\u00edses autocr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina \u00e9 hist\u00f3rica e culturalmente parte do Ocidente. Os l\u00edderes continentais enfatizam os valores compartilhados com os EUA e a Europa, como democracia, respeito aos direitos humanos e ao direito internacional. Mas quando se trata de a\u00e7\u00e3o, a regi\u00e3o est\u00e1 dividida. Nas resolu\u00e7\u00f5es condenando a agress\u00e3o russa na ONU e na OEA, alguns pa\u00edses latino-americanos se abstiveram, negando assim seus pr\u00f3prios valores em favor de convenientes posturas ideol\u00f3gicas e de poss\u00edveis retornos econ\u00f4micos e pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ocasi\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia para retomar uma rela\u00e7\u00e3o mais justa e vantajosa com o Ocidente e para equilibrar a crescente influ\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica da China, cujas consequ\u00eancias permanecem duvidosas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cen\u00e1rios futuros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Ocidente faria bem em buscar uma aproxima\u00e7\u00e3o com Moscou ap\u00f3s uma paz justa na Ucr\u00e2nia. O Kremlin seria um parceiro importante na gest\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o na S\u00edria, L\u00edbia, Afeganist\u00e3o e na luta contra o terrorismo. Al\u00e9m disso, a R\u00fassia seria um aliado chave para conter a China se ela se tornasse mais revisionista e assertiva. De fato, a cautela de Pequim em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia poderia pressagiar tens\u00f5es em Taiwan.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o momento de repensar profundamente. O Ocidente deveria acabar com a ret\u00f3rica da decad\u00eancia e das &#8220;duras cr\u00edticas&#8221; e potenciar a coer\u00eancia entre os valores que encarna e suas a\u00e7\u00f5es. A Am\u00e9rica Latina, por sua vez, deveria atuar consequentemente com os valores que proclama. Teria que tomar uma posi\u00e7\u00e3o conjunta ao lado daqueles que defendem esses valores e n\u00e3o flertar com aqueles que os debilitam. Os valores moldam os interesses a longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.&nbsp;<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina, que tamb\u00e9m est\u00e1 sendo afetada pelas sequelas do conflito, deve decidir de uma vez por todas de que lado est\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"author":332,"featured_media":10343,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16980,14429,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-10352","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-guerra-de-ucrania-es-pt-br","9":"category-guerra-da-ucrania","10":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/332"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10352\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10352"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=10352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}