{"id":10376,"date":"2022-05-22T06:00:00","date_gmt":"2022-05-22T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10376"},"modified":"2022-05-20T13:02:16","modified_gmt":"2022-05-20T16:02:16","slug":"o-terrorista-de-buffallo-e-o-alcance-global-do-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-terrorista-de-buffallo-e-o-alcance-global-do-racismo\/","title":{"rendered":"O terrorista de Buffallo e o alcance global do racismo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor Emmanuel Guerisoli<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O recente <a href=\"https:\/\/www.lasexta.com\/noticias\/internacional\/soy-fascista-autor-matanza-bufalo-publico-manifiesto-180-paginas-justificando-crimen-racista_202205166281f666cd15240001fdb551.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">massacre racista em Buffalo<\/a> tem uma hist\u00f3ria global que o antecede. Na verdade, o &#8220;manifesto&#8221; de 180 p\u00e1ginas do terrorista elogia a Argentina em sua primeira p\u00e1gina, por sua suposta situa\u00e7\u00e3o racial. O assassino idealiza o pa\u00eds sul-americano atrav\u00e9s da mentira racista e delirante e afirma que a Argentina \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds &#8220;branco&#8221; com uma alta taxa de natalidade que o defenderia dos inimigos da ra\u00e7a branca. <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/de-barcos-y-racismo-en-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">De onde vem essa fantasia delirante de uma &#8220;Argentina branca&#8221;?<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A Argentina \u00e9 um pa\u00eds diverso, muitas vezes aberto, tolerante e generoso. E tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds que, como muitos, tem uma longa hist\u00f3ria de fascismos e racismos m\u00faltiplos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A \u201cteoria da grande substitui\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O terrorista de Buffalo adere \u00e0 chamada &#8220;teoria da grande substitui\u00e7\u00e3o&#8221;, cujas origens remontam \u00e0s ideias de degenera\u00e7\u00e3o social e racismo cient\u00edfico do final do s\u00e9culo XIX. De acordo com elas, a superioridade civilizacional ocidental deveria ser mantida biol\u00f3gica e culturalmente para evitar o caos e o colapso social. Esta ideologia foi amplamente aceita pelas elites pol\u00edticas em v\u00e1rios pa\u00edses dos dois lados do Atl\u00e2ntico e deu lugar a pol\u00edticas eugenistas, segregacionistas, anti-imigrat\u00f3rias e, finalmente, fascistas e genocidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 30, os nazistas radicalizaram a mentira de uma conspira\u00e7\u00e3o judaica cuja finalidade era organizar uma mistura de ra\u00e7as, levando a um exterm\u00ednio das popula\u00e7\u00f5es brancas a n\u00edvel mundial. Desde ent\u00e3o, a ideia do &#8220;genoc\u00eddio branco&#8221; foi utilizada por organiza\u00e7\u00f5es fascistas e afins durante a Guerra Fria para justificar a viol\u00eancia pol\u00edtica em nome da defesa existencial de nacionalismos \u00e9tnicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos de 1970, a Confedera\u00e7\u00e3o Anti-comunista Latino-americana introduziu no\u00e7\u00f5es de &#8220;genoc\u00eddio e supremacia branca&#8221; que influenciaram as doutrinas das ag\u00eancias respons\u00e1veis pela Opera\u00e7\u00e3o Condor. As ditaduras da Bol\u00edvia, Chile e Paraguai foram muito receptivas a tais ideias devido, em parte, \u00e0 presen\u00e7a de ex-nazistas e ex-usta\u0161e &#8211; uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista nacionalista croata baseada no racismo religioso e aliada ao nazismo &#8211; em altos cargos.<\/p>\n\n\n\n<p>As juntas militares latino-americanas se percebiam como guerreiros de uma cruzada hist\u00f3rica contra uma conspira\u00e7\u00e3o global e em defesa da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental crist\u00e3. Durante os anos 70 e 80, houve uma forte coopera\u00e7\u00e3o transatl\u00e2ntica entre os agentes das juntas, organiza\u00e7\u00f5es europeias paramilitares e neofascistas como a P2, os governos do apartheid da Rod\u00e9sia e da \u00c1frica do Sul, e elementos da extrema-direita estadounidense.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas rela\u00e7\u00f5es deram frutos durante as guerras e massacres genocidas na Am\u00e9rica Central, nas quais a Argentina teve participa\u00e7\u00e3o direta atrav\u00e9s do envio de &#8220;assessores&#8221; que eram especialistas em repress\u00e3o ilegal. Isto nos permite entender de onde vem o del\u00edrio de uma Am\u00e9rica Latina com um papel central na defesa do Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos que o terrorista de Buffalo tamb\u00e9m disse que esta luta racial poderia come\u00e7ar em pa\u00edses como Argentina ou Venezuela e inclusive menciona o Uruguai como um dos pa\u00edses &#8220;ancorados na ra\u00e7a branca&#8221;, junto com a Austr\u00e1lia, Argentina, Nova Zel\u00e2ndia e Estados Unidos. De qualquer modo, por que o terrorista coloca a Argentina em um lugar central? Esta \u00eanfase na na\u00e7\u00e3o latino-americana s\u00f3 pode ser entendida em termos de hist\u00f3rias compartilhadas e tradi\u00e7\u00f5es fascistas, fantasias racistas transnacionais. S\u00e3o as mem\u00f3rias globais do fascismo internacional. Nos f\u00f3runs da internet, os extremistas do neofascismo global admiram a ditadura argentina e tamb\u00e9m Augusto Pinochet como atores que devem ser emulados.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto um dos fundadores do fascismo argentino, Leopoldo Lugones, defendia o imperialismo argentino por sua superioridade &#8220;branca&#8221; sobre outras na\u00e7\u00f5es latino-americanas, os generais da \u00faltima ditadura militar (1976-1983), que mataram dezenas de milhares de cidad\u00e3os em sua &#8220;guerra suja&#8221; lan\u00e7ada em nome do &#8220;Ocidente crist\u00e3o&#8221;, utilizaram uma l\u00f3gica semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1976, o General Videla salientou o car\u00e1ter global da disputa: &#8220;a luta contra a subvers\u00e3o n\u00e3o se esgota em uma dimens\u00e3o puramente militar&#8221;. Trata-se de um fen\u00f4meno mundial. Tem dimens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais, culturais e psicol\u00f3gicas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em particular, as ideias de substitui\u00e7\u00e3o e invas\u00e3o e as fantasias paran\u00f3icas sobre a expans\u00e3o e migra\u00e7\u00e3o de europeus n\u00e3o-brancos s\u00e3o fundamentais para a tradi\u00e7\u00e3o fascista argentina. As infames declara\u00e7\u00f5es do General Albano Harguindeguy, Ministro do Interior sob a ditadura argentina, s\u00f3 podem ser entendidas nesta perspectiva hist\u00f3rica. Em 1978, Harguindeguy falou da necessidade de fomentar a imigra\u00e7\u00e3o europeia para que a Argentina pudesse &#8220;permanecer um dos tr\u00eas pa\u00edses mais brancos do mundo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Este racismo expl\u00edcito na Argentina tomou a forma de um reconhecimento aberto da necessidade de erradicar outras express\u00f5es &#8220;n\u00e3o europ\u00e9ias&#8221; da na\u00e7\u00e3o. A profundidade e o alcance deste desejo se manifestou, mais uma vez, nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, que funcionavam como centros de clandestinos deten\u00e7\u00e3o e de tortura, nos quais o racismo e o anti-semitismo tinham um lugar central.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta contra o inimigo n\u00e3o tinha limites. A coopera\u00e7\u00e3o internacional entre organiza\u00e7\u00f5es fascistas e supremacistas brancos continuou ap\u00f3s o fim da Guerra Fria. Se antes lutavam para derrotar o comunismo em Angola, Chile ou Nicar\u00e1gua, agora o inimigo era o Isl\u00e3 e o multiculturalismo, que o del\u00edrio anti-semita considera ser financiado pelo juda\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os atentados em Utoya, Munique, Pittsburg, El Paso, Christchurch e agora Buffalo, entre outros, s\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia fascista contra minorias \u00e0s quais, em seu del\u00edrio ideol\u00f3gico, atribuem a futura destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e dos valores crist\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>O fascismo \u00e9 e sempre foi transnacional. N\u00e3o se pode entender esta hist\u00f3ria estadunidense com id\u00e9ias de excepcionalismo porque quase nada \u00e9 excepcional nas tradi\u00e7\u00f5es fascistas estadunidenses. Ainda assim, \u00e9 compreens\u00edvel que muita aten\u00e7\u00e3o tenha sido dada \u00e0s dimens\u00f5es locais do fen\u00f4meno, se n\u00e3o tanto \u00e0 hist\u00f3ria americana. Mas o que tem sido completamente ignorado at\u00e9 agora s\u00e3o as hist\u00f3rias globais do fascismo por tr\u00e1s desses ataques.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Emmanuel Guerisoli \u00e9 advogado e doutorando em Sociologia e Hist\u00f3ria na New School for Social Research (New York). Especialista em direito penal internacional, direito constitucional e direitos humanos. Mestre em Estudos Internacionais e Sociologia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.\u00a0<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Emmanuel Guerisoli<br \/>\nO recente massacre racista em Buffalo tem uma hist\u00f3ria global que o antecede. 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