{"id":10383,"date":"2022-05-23T09:00:00","date_gmt":"2022-05-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10383"},"modified":"2022-05-23T03:51:12","modified_gmt":"2022-05-23T06:51:12","slug":"o-adeus-a-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-adeus-a-bolsonaro\/","title":{"rendered":"O adeus a Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos em campanha. E, por isso, t\u00e3o angustiados quanto engajados. Aqueles que se espantaram com os resultados das elei\u00e7\u00f5es de 2018 ao menos agora est\u00e3o mais conscientes do que representa Bolsonaro e o bolsonarismo para o Brasil. Para os que apostaram at\u00e9 o \u00faltimo segundo que fra\u00e7\u00e3o importante da sociedade brasileira n\u00e3o se alinharia ao totalitarismo e ao fascismo, hoje, a cada pesquisa eleitoral divulgada, surge o temor de olhar a dan\u00e7a dos n\u00fameros de inten\u00e7\u00f5es de votos e cogitar que talvez n\u00e3o seja em 2022 que poderemos dar adeus a Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, mesmo que possamos, \u00e9 bom que tenhamos claro: o adeus ser\u00e1 a figura do Bolsonaro enquanto presidente, mas n\u00e3o a Bolsonaro como l\u00edder popular autorit\u00e1rio, desleal e violento. Menos ainda (o que \u00e9 mais preocupante) ao bolsonarismo como presen\u00e7a de longo prazo na sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, a despeito das muitas conquistas sociais e da garantia de importantes direitos sociais, \u00e9 importante lembrarmos que o cotidiano de nossas periferias<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/pandemia-e-brutalidade-policial-no-rio-de-janeiro\/\"> seguiu marcado por viol\u00eancia e inseguran\u00e7a social<\/a>. Os trabalhadores mais pobres, apesar da possibilidade de ascens\u00e3o e inclus\u00e3o social, que se deu essencialmente pelo consumo, foram obrigados a se adequar \u00e0 voracidade e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho informal, precarizado, uberizado. Os pobres, obrigados a se virar para sobreviver, encontraram apoio em algumas pol\u00edticas p\u00fablicas, mas sobretudo em redes dentro de suas comunidades, dentro das igrejas e nas mil\u00edcias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o com as tentativas de integra\u00e7\u00e3o social n\u00e3o concretizadas gerou uma rea\u00e7\u00e3o ressentida, em um tecido social esgar\u00e7ado. A rea\u00e7\u00e3o se estruturou nas periferias, se fortaleceu<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-opcao-pelos-pobres-e-a-opcao-dos-pobres\/\"> nas igrejas \u2013 principalmente as neopentecostais<\/a>, nos rinc\u00f5es da internet.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m partiu de fra\u00e7\u00f5es das classes m\u00e9dias que se sentiram amea\u00e7adas com o movimento de ascens\u00e3o social das classes baixas (observado entre 2003 e 2014), e das elites financeiras e conservadoras, desgostosas com os rumos pol\u00edticos e econ\u00f4micos do pa\u00eds, at\u00e9 eclodir nas ruas e nas p\u00e1ginas dos jornais em 2013. Uma guerra cujos contornos foram ficando mais claros apenas a partir de 2016, e principalmente, ap\u00f3s 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Viol\u00eancia, abandono, indigna\u00e7\u00e3o, injusti\u00e7a e ressentimento. Estes s\u00e3o os afetos que orientam a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo \u00f3dio ao outro (diferente) e por um senso de justi\u00e7a prim\u00e1rio, que requer que o injusti\u00e7ado fa\u00e7a justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Ressentimento social gerado pelo sentimento de injusti\u00e7a causado por uma promessa n\u00e3o cumprida \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o coletiva desafiadora, de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o, pois o ressentido localiza no outro a culpa pela sua situa\u00e7\u00e3o, por aquilo que perdeu ou n\u00e3o conquistou. Nesse caso, aqueles que se sentem prejudicados n\u00e3o se percebem autores do pacto social, nem capazes de alter\u00e1-lo. Sem pot\u00eancia pol\u00edtica, tendem tamb\u00e9m inconscientemente a buscar por governantes que possam proteg\u00ea-los, uma autoridade tal como as figuras parentais da inf\u00e2ncia. Buscam por um messias redentor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A continuidade do bolsonarismo para al\u00e9m de Bolsonaro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esses sentimentos est\u00e3o mais vivos do nunca na sociedade brasileira e tendem a aflorar novamente, fortes, fazendo com que a pol\u00edtica &#8211; justo ela por quem o brasileiro nunca nutriu muito apre\u00e7o \u2013 volte ainda mais ressentida aos perfis do Facebook, aos grupos de fam\u00edlia do WhatsApp, mas tamb\u00e9m \u00e0s mesas do almo\u00e7o de domingo, de bar, \u00e0s filas do supermercado, da padaria, do \u00f4nibus, do metr\u00f4, do trem. Atrav\u00e9s de opini\u00f5es formadas nas redes sociais, em grupos de WhatsApp, pelos influencers do Youtube, ou por figuras de autoridade totalmente descompromissadas com os fatos, com os dados divulgados pelos Institutos de pesquisa, com a ci\u00eancia, com qualquer fundamento de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente um dos grandes problemas que precisaremos enfrentar \u00e9 o descr\u00e9dito socialmente generalizado nos meios formais de comunica\u00e7\u00e3o, nas institui\u00e7\u00f5es, na ci\u00eancia, nas escolas e professores (acusados de doutrinadores).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, na onda do \u00f3dio \u00e0 pol\u00edtica, vimos crescer uma massa de pessoas revoltadas com ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; muitos destes inclusive alinhados a valores de direita \u2013 alguns associados a hashtags pejorativas, como o termo \u201clixo\u201d, e aos \u201cesquerdistas doutrinadores comunistas\u201d. \u201cLixo!\u201d, gritaram. Em meio a uma guerra cultural e pol\u00edtica, ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o foram queimados na fogueira do negacionismo, formadores de opini\u00e3o, intelectuais p\u00fablicos, e \u201cinfluencers\u201d (tamb\u00e9m eles) passaram a queimar nas fogueiras do cancelamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Universidades, escolas e professores publicamente achincalhados, acusados de doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, \u201ctomadores de partido\u201d. Ter e enunciar publicamente uma opini\u00e3o pol\u00edtica passou a ser ato abomin\u00e1vel, motivo de profunda cis\u00e3o entre o \u201cn\u00f3s, cidad\u00e3os de bem\u201d, e o \u201celes, esquerdistas, marxistas culturais, bandidos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu ponto \u00e9: este cen\u00e1rio n\u00e3o foi desmontado, e as opini\u00f5es e a\u00e7\u00f5es que ele cria e alimenta n\u00e3o estabelecem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia, com os dados, com os fatos da economia ou com a pol\u00edtica dos gabinetes e partidos. S\u00e3o informados por micro percep\u00e7\u00f5es de mundo e por concep\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas do que \u00e9 o bem, que se apresentam como verdades incontestes. Assim n\u00e3o h\u00e1 discurso, n\u00e3o h\u00e1 argumento capaz de fazer frente ao que se sente e \u00e0 rea\u00e7\u00e3o indignada que se constr\u00f3i, justificada a partir de valores e palavras de ordem redentoras. Nesta l\u00f3gica, \u00e9 preciso resistir aos problemas e ser perseverante, pois para resgatar os valores da p\u00e1tria e salvar o Brasil ainda \u00e9 preciso muita luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, a realidade desafia. Os dados e as manchetes de jornais insistem: a infla\u00e7\u00e3o disparou, o desemprego tamb\u00e9m, a fome voltou. O carrinho de compras est\u00e1 vazio, e as dimens\u00f5es dos produtos das prateleiras (apesar do aumento de pre\u00e7os) encolheram. A gasolina e o g\u00e1s de cozinha est\u00e3o com pre\u00e7os impratic\u00e1veis. Doen\u00e7as voltaram: o sarampo, a poliomielite, a explos\u00e3o da dengue em 2022. A mobilidade social regrediu, nos \u00faltimos 5 anos vivemos o descenso s\u00f3cio-ocupacional, voltamos a patamares das d\u00e9cadas perdidas, dos anos 1980 e 1990.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca \u00e9 demais lembrar das<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/destruicao-e-regressao-as-politicas-do-governo-bolsonaro\/\"> decis\u00f5es de gest\u00e3o da pandemia tomadas pelo governo Bolsonaro e das den\u00fancias constantes no relat\u00f3rio da CPI da COVID<\/a>. N\u00e3o esque\u00e7amos do luto coletivo e<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/vamos-falar-sobre-os-orfaos-da-covid-19\/\"> dos mortos e \u00f3rf\u00e3os da pandemia<\/a>, ou dos atrasos de escolariza\u00e7\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o de socializa\u00e7\u00e3o de nossas crian\u00e7as, dos traumas que ser\u00e3o enfrentados por toda uma gera\u00e7\u00e3o marcada pela gest\u00e3o de um governo que se voltou de costas para o coletivo, para o social e para o sofrimento.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A aposta \u00e9 que as dores da realidade impe\u00e7am a reelei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, mas o bolsonarismo e todo o ressentimento social do qual ele se nutre seguir\u00e3o vivos, pulsantes. Temos o dever hist\u00f3rico de encar\u00e1-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 bom ser claro: a despedida ser\u00e1 para Bolsonaro como presidente, mas n\u00e3o para Bolsonaro como um l\u00edder popular autorit\u00e1rio, desleal e violento. 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