{"id":10400,"date":"2022-05-24T09:00:00","date_gmt":"2022-05-24T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10400"},"modified":"2022-05-23T13:09:07","modified_gmt":"2022-05-23T16:09:07","slug":"trem-maia-mais-do-que-um-trem-nada-de-maia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/trem-maia-mais-do-que-um-trem-nada-de-maia\/","title":{"rendered":"Trem Maia: mais do que um trem, nada de maia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautor Pablo Monta\u00f1o<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.trenmaya.gob.mx\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Trem Maia<\/a>, como \u00e9 conhecido o projeto impulsionado pelo governo da denominada Quarta Transforma\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador, se apresenta como uma alternativa para avan\u00e7ar para um desenvolvimento supostamente sustent\u00e1vel. Entretanto, nada mais \u00e9 do que <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/contradicciones-frente-al-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um aprofundamento do modelo capitalista extrativista<\/a>, que reproduz a mesma l\u00f3gica colonial que procura levar o desenvolvimento \u00e0queles que t\u00eam sido historicamente exclu\u00eddos do \u201cprogresso\u201d e da modernidade. A reconfigura\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio do sul do M\u00e9xico \u00e9 uma reviravolta no aprofundamento de uma crise civilizat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No final do m\u00eas passado, o <a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/report\/sixth-assessment-report-cycle\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC)<\/a> publicou a mais recente e sombria advert\u00eancia sobre o estado do clima. O relat\u00f3rio indica que as emiss\u00f5es a n\u00edvel global devem alcan\u00e7ar um pico at\u00e9 2025 no m\u00e1ximo, caso contr\u00e1rio, os efeitos do colapso clim\u00e1tico ser\u00e3o catastr\u00f3ficos. Em plena encruzilhada civilizat\u00f3ria, ou seja, num momento em que o v\u00edcio do crescimento econ\u00f4mico e da produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis deveria diminuir, o Trem Maia vai na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um megaprojeto tur\u00edstico e de transporte de mercadorias que, segundo o governo, busca \u201cmelhorar a qualidade de vida das pessoas, cuidar do meio ambiente e desencadear o desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d. O projeto \u2013 que, como dizem as comunidades maias, \u00e9 mais do que um trem e n\u00e3o tem nada de maia \u2013 consiste em 1.525 km de via e na cria\u00e7\u00e3o de infraestrutura ferrovi\u00e1ria com desenvolvimentos tur\u00edsticos, habitacionais e de transporte, armazenamento e com\u00e9rcio de mercadorias em cinco estados do sudeste do M\u00e9xico, tornando-o no maior projeto de desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a l\u00f3gica do desenvolvimento sustent\u00e1vel, o trem apela ao turismo como a forma mais eficaz de promover crescimento econ\u00f4mico e proteger a natureza. Entretanto, n\u00e3o foi realizada nenhuma Avalia\u00e7\u00e3o de Impacto Ambiental que permita mitigar de forma efetiva os <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/27041585?seq=1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">impactos cumulativos do projeto<\/a>. At\u00e9 hoje, s\u00f3 foram realizadas algumas Manifesta\u00e7\u00f5es de Impacto Ambiental (MIA) de certas se\u00e7\u00f5es, enquanto outras n\u00e3o foram analisadas apesar de amea\u00e7arem ecossistemas altamente vulner\u00e1veis, como a zona de cenotes e aqu\u00edferos subterr\u00e2neos da Pen\u00ednsula de Yucatan.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto \u00e9, na verdade, um <a href=\"http:\/\/geocomunes.org\/Analisis_PDF\/GeoComunes_Trans%2525C3%2525ADstmico_22Abril2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">reordenamento territorial<\/a> j\u00e1 que busca criar, junto com o trem trans\u00edstmico, que cruzar\u00e1 de Salina Cruz em Oaxaca para Coatzacoalcos em Veracruz, uma nova rota de com\u00e9rcio interoce\u00e2nico e uma integra\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio ao com\u00e9rcio mundial. Seguindo a argumenta\u00e7\u00e3o de que o sudeste do M\u00e9xico \u00e9 um espa\u00e7o abandonado ou ignorado pelo modelo de desenvolvimento, estes trens buscam integrar a regi\u00e3o ao capitalismo global ao facilitar o tr\u00e2nsito de mercadorias, combust\u00edveis e turismo, abrindo o territ\u00f3rio ao extrativismo, integrando assim novos territ\u00f3rios \u00e0 l\u00f3gica capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo recha\u00e7ou as cr\u00edticas taxando-as de conservadoras ou neoliberais. Mas o modelo de desenvolvimento no qual aposta n\u00e3o \u00e9 e nem pode ser sustent\u00e1vel. O trem \u00e9 uma pe\u00e7a do <a href=\"https:\/\/geopolitica.iiec.unam.mx\/node\/656\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">grande projeto de transforma\u00e7\u00e3o territorial<\/a> da regi\u00e3o sul-sudeste do M\u00e9xico. E na pen\u00ednsula muitos sabem que nada mais \u00e9 do que um projeto reciclado de <a href=\"https:\/\/otrosmundoschiapas.org\/folleto-el-tren-maya\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">administra\u00e7\u00f5es anteriores<\/a> que <a href=\"https:\/\/poderlatam.org\/2020\/12\/el-tren-de-las-elites-empresas-beneficiadas-y-proyectos-energeticos-en-el-sureste-mexicano-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">beneficiar\u00e1 empresas transnacionais<\/a> e que servir\u00e1 para <a href=\"https:\/\/geocomunes.org\/Analisis_PDF\/TrenMaya.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">articular os megaprojetos que j\u00e1 existem no territ\u00f3rio<\/a>, tais como monoculturas de soja transg\u00eanica, mega-granjas su\u00ednas ou os grandes projetos de gera\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel. Assim, o governo de L\u00f3pez Obrador est\u00e1 redefinindo e reorganizando o territ\u00f3rio como um espa\u00e7o leg\u00edvel ao investimento capitalista a partir de uma dial\u00e9tica entre a ideia de produtividade e o que \u00e9 considerado como desperd\u00edcio. Este modelo implica marginalizar outras formas de ser, de existir e habitar esses espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O trem tem outros <a href=\"https:\/\/www.ccmss.org.mx\/wp-content\/uploads\/Territorios_mayas_en_el_paso_del_tren_Tr.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aspectos problem\u00e1ticos<\/a>, como a cria\u00e7\u00e3o de um <em>hub<\/em> para o com\u00e9rcio internacional, al\u00e9m de contribuir para a captura de migrantes no fluxo para os Estados Unidos.&nbsp; Este \u00faltimo ocorre, em parte, pela transforma\u00e7\u00e3o tur\u00edstica das rotas de trem que as pessoas migrantes (La Bestia) t\u00eam utilizado por d\u00e9cadas, obrigando-as a caminhos cada vez mais perigosos. Mas talvez seu aspecto mais controverso seja a forma como utiliza a cultura e identidade ind\u00edgena maia para justificar a imposi\u00e7\u00e3o do \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale recordar o suposto \u201c<a href=\"https:\/\/piedepagina.mx\/jueza-ordena-frenar-obras-en-un-tramo-del-tren-maya-durante-la-pandemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">erro<\/a>\u201d da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais que revelou a forma que o governo busca perpetuar um etnoc\u00eddio em nome de seu pr\u00f3prio desenvolvimento. Segundo a <a href=\"https:\/\/apps1.semarnat.gob.mx:8443\/dgiraDocs\/documentos\/camp\/estudios\/2020\/04CA2020V0009.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Secretaria<\/a>: \u201cO etnoc\u00eddio pode ter uma reviravolta positiva, o etnodesenvolvimento. Isto pode ser poss\u00edvel se as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas estiverem envolvidas no processo de desenvolvimento e na administra\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das cr\u00edticas e embora o governo tenha reconhecido que se tratava de um erro, at\u00e9 agora n\u00e3o foi realizada nenhuma consulta ind\u00edgena que <a href=\"https:\/\/spcommreports.ohchr.org\/TMResultsBase\/DownLoadPublicCommunicationFile?gId=25562\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aderisse aos marcos internacionais da Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT<\/a> e que permita sustentar o suposto etnodesenvolvimento. Em repetidas ocasi\u00f5es, o projeto se apresentou como uma decis\u00e3o tomada e que tais consultas n\u00e3o mudariam o projeto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este plano tamb\u00e9m contribui para perpetuar a ordem colonial. J\u00e1 dizia a proeminente intelectual <a href=\"https:\/\/elpais.com\/babelia\/2021-08-07\/japom-a-500-anos-de-la-conquista-futuros-posibles.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Y\u00e1snaya Aguilar<\/a> que \u201ca independ\u00eancia do M\u00e9xico n\u00e3o foi uma ruptura com a ordem colonial, mas sim implicou sua perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Poder\u00edamos agregar que o desenvolvimento de megaprojetos como este s\u00e3o um aprofundamento dessa ordem colonial, onde a identidade maia se reduz a um servi\u00e7o tur\u00edstico, transformando-a em uma experi\u00eancia ou mercadoria que pode ser explorada e extra\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo promovido pelo 4T perpetua a viol\u00eancia colonial j\u00e1 que consiste em eliminar a possibilidade do outro existir de acordo com suas pr\u00f3prias <a href=\"https:\/\/desinformemonos.org\/con-el-tren-maya-lo-menos-que-hay-es-el-respeto-a-la-cultura-maya-pedro-uc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">formas de ser, conhecer e entender<\/a>. Em troca, o uso do ind\u00edgena, como disse <a href=\"https:\/\/enriquedussel.com\/txt\/Textos_200_Obras\/Filosofias_pueblos_originarios\/Mexico_profundo-Guillermo_Bonfil.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Guillermo Bonfil Batalla<\/a>, serve para perpetuar o M\u00e9xico Imagin\u00e1rio (de desenvolvimento e progresso), mas condena a identidade ind\u00edgena ao passado (o M\u00e9xico Profundo).<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a vis\u00e3o de \u201cdesenvolvimento\u201d e \u201cprogresso\u201d, as formas tradicionais de semear, de subsist\u00eancia, de se relacionar com o territ\u00f3rio e, portanto, com a pr\u00f3pria cosmovis\u00e3o maia, s\u00e3o muitas vezes descontadas ou inclusive vistas como obst\u00e1culos para desenvolver a regi\u00e3o. O projeto Sembrando Vida, que busca recuperar o desmatamento provocado pelo trem, ilustra o recha\u00e7o ao patrim\u00f4nio biocultural ao substitu\u00ed-lo por esp\u00e9cies de \u201cvalor\u201d e \u201cservi\u00e7os\u201d que podem ser comercializadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar de etnodesenvolvimento ou um desenvolvimento sustent\u00e1vel na regi\u00e3o. Ainda mais se entendermos este projeto como uma continua\u00e7\u00e3o do modelo colonial e capitalista que tem sido impulsionado no M\u00e9xico nos \u00faltimos 500 anos, que volta a impor uma vis\u00e3o \u00fanica do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Apostar em um projeto assim, mesmo levando em conta os poss\u00edveis benef\u00edcios econ\u00f4micos no curto prazo, \u00e9 perpetuar a l\u00f3gica que conduziu \u00e0 crise civilizat\u00f3ria e ao colapso do clima que estamos enfrentando. Promover um verdadeiro etnodesenvolvimento implicaria aprender a escutar as alternativas de desenvolvimento que j\u00e1 existem no territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sup>Pablo Monta\u00f1o \u00e9 cientista pol\u00edtico e mestre em meio ambiente e desenvolvimento sustent\u00e1vel pela Universidade de Londres. Ele \u00e9 especialista em comunica\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e coordenador da organiza\u00e7\u00e3o Conexiones Clim\u00e1ticas e produtor e roteirista da s\u00e9rie documental El Tema.<\/sup><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautor Pablo Monta\u00f1o<br \/>\nO projeto promovido pelo governo de AMLO se apresenta como uma alternativa para avan\u00e7ar para um desenvolvimento supostamente sustent\u00e1vel. Entretanto, nada mais \u00e9 do que um aprofundamento do modelo capitalista extrativista.<\/p>\n","protected":false},"author":333,"featured_media":10388,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16706,17005,16719,16751,14456,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-10400","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mexico-pt-br","8":"category-sostenibilidad-pt-br","9":"category-debates-pt-br","10":"category-medioambiente-pt-br","11":"category-meio-ambiente","12":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/333"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10400"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10400\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10400"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=10400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}