{"id":10629,"date":"2022-06-08T09:00:00","date_gmt":"2022-06-08T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10629"},"modified":"2022-06-07T17:48:52","modified_gmt":"2022-06-07T20:48:52","slug":"os-futuros-de-darcy-ribeiro-em-um-mundo-sem-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-futuros-de-darcy-ribeiro-em-um-mundo-sem-futuro\/","title":{"rendered":"Os futuros de Darcy Ribeiro em um mundo sem futuro"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautor Andr\u00e9s Kozel<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstamos condenados a aceitar a necessidade de experimentar com o humano, assumindo os riscos que isso implica\u201d e \u201cum erro acarretar\u00e1 o risco de conduzir toda a supertribo, finalmente unificada, ao desastre\u201d. No final de 1973, Darcy Ribeiro, o <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/el-centenario-de-darcy-ribeiro-y-el-rescate-de-la-utopia\/\">c\u00e9lebre antrop\u00f3logo e ensa\u00edsta brasileiro cujo nascimento completar\u00e1 100 anos em 2022<\/a>, sugeriu em seu texto intitulado \u201cVenutopias 2003\u201d, que para produzir os equivalentes culturais das novas inven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, o ser humano teria que ser desmontado e remontado. O \u201cnovo homem\u201d ser\u00e1 um homem programado: assim ser\u00e3o \u201cos netos de nossos netos\u201d, abomin\u00e1veis por nossos par\u00e2metros, mas talvez mais fortes e eficazes, mais livres e criativos. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, o homem n\u00e3o ser\u00e1 o produto da necessidade, mas o resultado de um projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos sessenta e setenta, v\u00e1rios pensadores latino-americanos se interessavam pelo futuro e, em particular, pelos impactos dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos sobre a vida humana. Alguns o fizeram em um registro muito vinculado ao planejamento, outros com \u00e2nimo mais cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos mencionar o cap\u00edtulo da <em>Historia de nuestra idea del mundo<\/em> de Jos\u00e9 Gaos, intitulado \u201cTecnocracia y cibern\u00e9tica\u201d, que fez parte de um semin\u00e1rio dado no El Colegio de M\u00e9xico. Tamb\u00e9m podemos mencionar Oscar Varsavsky e sua ideia de uma futurologia construtiva e pol\u00edtica, ligada a um projeto nacional. Ou o Modelo Bariloche coordenado por Am\u00edlcar Herrera, que discutiu com grande lucidez o relat\u00f3rio <em>Los l\u00edmites del crescimiento<\/em>, que foi encomendado na mesma \u00e9poca pelo Clube de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p>De outro \u00e2ngulo, recordemos um ensaio como \u201cDemocracia y autoritarismo en la sociedad moderna\u201d, no qual o falecido Gino Germani formulou perguntas estremecedoras sobre&nbsp; o futuro da democracia. Quest\u00f5es que s\u00e3o de extrema atualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste marco, as numerosas futuriza\u00e7\u00f5es de Darcy Ribeiro, em distintos registros e cultivando acentua\u00e7\u00f5es diferentes, nos levaram a relevar suas tentativas, tratar de contextualiz\u00e1-las, de interpret\u00e1-las. Ent\u00e3o fizemos um livro intitulado <a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/os-futuros-de-darcy-ribeiro\/\">Os futuros de Darcy<\/a>, que est\u00e1 sendo publicado agora mesmo pela editora Elefante.<\/p>\n\n\n\n<p>Basicamente, distinguimos dois Darcys. Um primeiro mais otimista, convencido da imin\u00eancia da \u201crevolu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria\u201d. Um segundo menos otimista, mais perplexo e atravessado por incertezas, cultuador da \u201cpequena utopia\u201d no curto prazo e mais c\u00e9tico no longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto de virada pode ser localizado entre os anos 1972 e 1976, coincidindo com v\u00e1rias coisas que aconteceram com ele. Desde o golpe no Chile e depois no Peru at\u00e9 sua doen\u00e7a e seu retorno ao Brasil. O interessante \u00e9 que o deslocamento n\u00e3o implicou em um desmantelamento em massa dos pontos de vista pr\u00e9vios. A partir do estudo das ideias, a obra de Darcy se apresenta como um terreno apto para analisar assincronismos, coexist\u00eancias, tens\u00f5es: uma extraordin\u00e1ria exibi\u00e7\u00e3o de trabalho intelectual historicamente condicionado, como todo trabalho intelectual, e com alto valor te\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1972, Darcy cunhou uma f\u00f3rmula enf\u00e1tica e chocante: \u201co abomin\u00e1vel homem novo\u201d. L\u00e1 levanta a pergunta acerca de como poder\u00e1 haver vidas que valham a pena viver; a falta de um projeto de gest\u00e3o racional da hist\u00f3ria, talvez o homem n\u00e3o saiba o que fazer nem pelo que lutar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu texto \u201cVenutopias 2003\u201d, escrito logo ap\u00f3s o golpe de Estado que dep\u00f4s Salvador Allende, ou seja, no final de 1973, Darcy retoma estes temas e sugere que ser\u00e1 cada vez mais necess\u00e1rio buscar meios artificiais para produzir personalidades equilibradas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma novidade substantiva neste texto de 1973: a de propor para a Venezuela uma \u201cutopia est\u00e9tica\u201d inspirada nos \u00edndios Makiritare. Com isso, Darcy \u201cdevolve\u201d aos venezuelanos a exist\u00eancia pastoral \u201c\u00e0 qual sempre aspiramos\u201d, o \u201cdesejo de beleza\u201d e o \u201cacesso \u00e0 sabedoria\u201d. Parece-nos que esta \u00e9 a primeira vez que esta avalia\u00e7\u00e3o aparece em sua obra. Assim, surge um novo e fundamental componente que podemos chamar, seguindo-o de perto, de \u201cutopia pastoral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, Darcy poderia ser aproximado das abordagens de uma figura como <a href=\"https:\/\/cartasindigenasaobrasil.com.br\/biografia\/ailton-krenak\/\">Ailton Krenak<\/a>. Mas tamb\u00e9m poderia ser aproximado, sem d\u00favida, de todos aqueles pensadores que trabalham em temas associados ao transhumanismo e ao p\u00f3s-humanismo, considerando-o um horizonte em parte inevit\u00e1vel, em parte abomin\u00e1vel, em parte promissor.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima parte de seu ensaio \u201cLa civilizaci\u00f3n emergente\u201d de 1984, intitulado \u201cRevoluciones culturales\u201d, aborda v\u00e1rios dos desafios derivados da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso: o movimento verde, o movimento feminista, o movimento pacifista. Relaciona ao movimento feminista o \u201canacronismo irremedi\u00e1vel\u201d das constru\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da personalidade e dos organizadores b\u00e1sicos da conduta humana: podem ser mortalmente feridos, somos obrigados a refaz\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>De novo, perguntamo-nos se seremos capazes de reinventar a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. Sobre paz e guerra, Darcy argumenta que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a perspectiva de uma guerra terminal que \u00e9 uma amea\u00e7a; o advento de uma nova e melanc\u00f3lica Pax Romana tamb\u00e9m \u00e9 uma amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tamb\u00e9m destaca a incapacidade da economia mundial de implantar a prosperidade geral. Esta economia louca, desequilibrada e paranoica gera um enorme ex\u00e9rcito de m\u00e3o-de-obra excedente. Os la\u00e7os de depend\u00eancia se refor\u00e7am. Os povos do Terceiro Mundo anseiam por uma pequena, modesta e inalcan\u00e7\u00e1vel utopia. Sua exist\u00eancia lhe permite imaginar uma revolu\u00e7\u00e3o dos pobres. Entretanto, o autor n\u00e3o tarda a reconhecer que, abandonando sua sorte, o pauperismo n\u00e3o faz revolu\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez descartada a possibilidade revolucion\u00e1ria, Darcy aborda outra amea\u00e7a: o advento de uma era de fome e idiotiza\u00e7\u00e3o no marco de uma civiliza\u00e7\u00e3o obsoleta e de cora\u00e7\u00e3o endurecido. Diante desse panorama, a vida das pessoas pobres ser\u00e1 uma batalha por ideais muito concretos. Uma bela e \u00e1rdua batalha. Mais uma vez, ele parece ter adivinhado muito bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas das considera\u00e7\u00f5es de Darcy, as te\u00f3ricas, as prof\u00e9ticas e as cat\u00e1rticas, podem estar relacionadas com elabora\u00e7\u00f5es muito atuais que questionam o impacto das novas tecnologias na subjetividade, na pol\u00edtica e na cultura. Pensamos, por exemplo, em \u00c9ric Sadin, Byung-Chul Han, Yuval Harari. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que, em v\u00e1rias de suas predi\u00e7\u00f5es, Darcy acertou ou esteve muito perto de acertar. Pelo menos no sentido de localizar, com surpreendente precis\u00e3o, a maioria dos temas que, tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas depois, definem as agendas do debate.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez o mais impressionante de Darcy \u00e9 que, enfrentando todas essas tens\u00f5es, jamais perdeu sua incr\u00edvel for\u00e7a vital. Todos os seus escritos, mesmo os mais sombrios, destilam uma combina\u00e7\u00e3o muito especial de sabedoria, paix\u00e3o, entusiasmo e alegria de viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes, de forma cat\u00e1rtica, voltava o Darcy que projetava o Brasil e a Am\u00e9rica Latina como a \u201cNova Roma Tropical\u201d, aquela \u201cnova civiliza\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a e tropical\u201d aberta a todas as ra\u00e7as e culturas, localizada na mais bela e luminosa prov\u00edncia da Terra. \u00c9 toda essa complexidade que buscamos trazer ao debate com nosso livro, em uma conjuntura marcada pela aus\u00eancia de alternativas e pela obsess\u00e3o com o presente.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sup>Andr\u00e9s Kozel \u00e9 Doutor em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (UNAM). Professor da Universidade Nacional de San Mart\u00edn (Unsam).<\/sup><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautor Andr\u00e9s Kozel<br \/>\n&#8220;Estamos condenados a aceitar a necessidade de experimentar com o humano&#8221; e &#8220;um erro acarretar\u00e1 o risco de conduzir toda a supertribo, finalmente unificada, ao desastre&#8221;.  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