{"id":10779,"date":"2022-06-10T09:00:00","date_gmt":"2022-06-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10779"},"modified":"2022-06-10T05:48:15","modified_gmt":"2022-06-10T08:48:15","slug":"o-desaparecimento-de-dom-phillips-bruno-araujo-e-a-democracia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-desaparecimento-de-dom-phillips-bruno-araujo-e-a-democracia-no-brasil\/","title":{"rendered":"O desaparecimento de Dom Phillips, Bruno Ara\u00fajo e a democracia no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Desde que Jair Bolsonaro saiu vitorioso das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018, muitos s\u00e3o os\u00a0 analistas que, quase sempre com raz\u00e3o, apontam<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/destruicao-e-regressao-as-politicas-do-governo-bolsonaro\/\"> crescentes amea\u00e7as<\/a> \u00e0 democracia no Brasil. Entretanto, mesmo antes da chegada do ex-militar de extrema-direita ao poder, o projeto democr\u00e1tico brasileiro j\u00e1 demostrava significativas fragilidades. Duas delas voltaram a assombrar o pa\u00eds ap\u00f3s o<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2022\/06\/pf-e-acionada-apos-desaparecimento-de-jornalista-e-indigenista-no-amazonas.shtml?utm_source=twitter&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=twfolha\"> desaparecimento do jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips e do indigenista Bruno Ara\u00fajo<\/a>: a persegui\u00e7\u00e3o a jornalistas e o genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas. Este, intimamente ligado com o ecoc\u00eddio em curso no que restou dos biomas do Brasil.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dom e Bruno viajavam de barco pelo interior do estado do Amazonas, perto de uma regi\u00e3o conhecida como Vale do Javari. O jornalista do The Guardian recolhia material para um livro que escrevia sobre a Floresta Amaz\u00f4nica quando ele e o ex-funcion\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio foram declarados desaparecidos. Posteriormente, vieram \u00e0 tona as amea\u00e7as que Bruno sofria de garimpeiros e ca\u00e7adores que costumavam invadir terras ind\u00edgenas para explorar suas riquezas. Com bastante atraso e pouco interesse, o Governo Federal afirmou ter mobilizado as For\u00e7as Armadas para efetuarem buscas pela dupla, que ainda n\u00e3o foi encontrada.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o presente momento, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber o que aconteceu com Dom e Bruno, mas h\u00e1 reais motivos para preocupa\u00e7\u00e3o. Segundo o<a href=\"https:\/\/en.unesco.org\/themes\/safety-journalists\/observatory\/country\/223670\"> Observat\u00f3rio de Jornalistas Assassinados da UNESCO<\/a>, desde 1993, 52 jornalistas foram executados no Brasil. Na Am\u00e9rica Latina, apenas no M\u00e9xico tem mais jornalistas assassinados no per\u00edodo mencionado. Nem mesmo na Col\u00f4mbia, pa\u00eds que tenta superar um longo e sangrento conflito armado, tantos profissionais foram mortos. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, a mesma UNESCO afirma que os casos que acabam n\u00e3o solucionados s\u00e3o a maioria no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, as amea\u00e7as a jornalistas s\u00e3o constantes e partem de pol\u00edticos, empres\u00e1rios, latifundi\u00e1rios, garimpeiros, traficantes de drogas e milicianos. At\u00e9 mesmo os filhos do atual presidente utilizam suas redes sociais para incentivar a viol\u00eancia contra profissionais da comunica\u00e7\u00e3o, chegando ao ponto de zombar da brutal tortura sofrida por uma conhecida jornalista durante a ditadura militar brasileira. Criar um ambiente onde os profissionais da comunica\u00e7\u00e3o possam exercer sua profiss\u00e3o sem temor \u00e9 algo indispens\u00e1vel para a democracia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esperamos que Dom Phillips e Bruno Ara\u00fajo sejam encontrados com vida e possam prontamente retornar \u00e0s suas atividades. Infelizmente n\u00e3o foi o que ocorreu com Eranildo Ribeiro da Cruz. H\u00e1 pouco menos de um ano, o jornalista e militante social foi encontrado morto e com sinais de tortura, no estado do Par\u00e1, vizinho do Amazonas, onde Dom e Bruno est\u00e3o desaparecidos. Eranildo cobria a pol\u00edtica local e a atua\u00e7\u00e3o de movimentos sociais na regi\u00e3o. Possivelmente, por n\u00e3o ser cidad\u00e3o europeu e n\u00e3o trabalhar para nenhum grande ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, seu assassinato quase n\u00e3o teve repercu\u00e7\u00e3o fora do Par\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito j\u00e1 foi falado sobre o genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas nas Am\u00e9ricas, no entanto \u00e9 comum tal processo ser tratado como um conjunto de eventos perdidos em um passado distante. O que observamos diariamente no Brasil \u00e9 que ele segue em pleno vigor e est\u00e1 associado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente e a um modelo econ\u00f4mico que reproduz desigualdades hist\u00f3ricas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Garimpeiros, madeireiros, latifundi\u00e1rios e grandes empresas mineradoras avan\u00e7am sobre a Floresta Amaz\u00f4nica e sobre o Cerrado, explorando seus recursos, deixando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o e morte. Tudo isso, comumente com apoio ou neglig\u00eancia de parte das autoridades. O pr\u00f3prio Presidente da Rep\u00fablica \u00e9 um not\u00f3rio defensor da explora\u00e7\u00e3o de atividades econ\u00f4micas em terras ind\u00edgenas e se orgulha de n\u00e3o ter demarcado nenhuma reserva em seus quatro anos de governo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o in\u00fameros os problemas econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais do Brasil, mas alguns deles est\u00e3o na base de toda uma cadeia que impede a realiza\u00e7\u00e3o do projeto democr\u00e1tico e da concretiza\u00e7\u00e3o da cidadania prometida pela constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Nesse sentido, a elei\u00e7\u00e3o e o governo de Jair Bolsonaro n\u00e3o devem ser interpretados como meros pontos fora da curva, mas como a ponta de um iceberg que n\u00e3o pode ser contornado com a elei\u00e7\u00e3o deste ou daquele candidato no pleito que ocorrer\u00e1 na segunda metade deste ano. O Brasil precisa encarar de frente os obstaculos colocados \u00e0 sua democracia, entre eles a persegui\u00e7\u00e3o a jornalistas e o genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, o desaparecimento de Dom e Bruno nos faz questionar: \u00e9 poss\u00edvel falarmos em uma democracia de fato enquanto jornalistas e militantes s\u00e3o calados \u00e0 for\u00e7a quando ousam importunar os poderes estabelecidos? \u00c9 plaus\u00edvel falar de cidadania enquanto povos inteiros s\u00e3o exterminados a bel-prazer daqueles que olham para a natureza como fonte de lucro e n\u00e3o de vida? Precisamos de mais democracia para superar o violento projeto colonial que fundou e ordenou o Brasil explorando a natureza, aniquilando os povos ind\u00edgenas e silenciando as vozes divergentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, as amea\u00e7as aos jornalistas s\u00e3o constantes e v\u00eam de pol\u00edticos, empres\u00e1rios, latifundi\u00e1rios, mineiros, traficantes de drogas e milicianos. 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