{"id":10882,"date":"2022-06-19T05:00:00","date_gmt":"2022-06-19T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=10882"},"modified":"2022-06-17T19:43:51","modified_gmt":"2022-06-17T22:43:51","slug":"como-entender-o-descontentamento-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/como-entender-o-descontentamento-social\/","title":{"rendered":"Como entender o descontentamento social?"},"content":{"rendered":"\n<p>De forma relativamente inesperada, se desencadeou nos \u00faltimos anos <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/la-protesta-social-como-rasgo-indisociable-de-la-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma intensa mobiliza\u00e7\u00e3o social em grande parte do mundo<\/a>. Nada novo, exceto as formas e conte\u00fados deste novo protesto social. Em cidades e pa\u00edses ao redor do planeta, massivas mobiliza\u00e7\u00f5es saem \u00e0s ruas enfurecidas e violentas muitas vezes. Mas o chamativo destas mobiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 que s\u00e3o resistentes, permanentes. Come\u00e7am mas n\u00e3o d\u00e3o nenhum sinal de quando ou como terminar\u00e3o. Nem sequer sabemos se ir\u00e3o acabar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira hip\u00f3tese para entender esta raiva social \u00e9 que se trata de um formato de mobiliza\u00e7\u00e3o e protesto que \u00e9 pol\u00edtica em si mesma, mas n\u00e3o se dirige \u00e0 pol\u00edtica. Ou seja, n\u00e3o tem, nem pretende ter expectativas de que a pol\u00edtica tradicional e representativa d\u00ea conta, administre, gerencie ou satisfa\u00e7a estas demandas, este descontentamento. Nada \u00e9 pedido aos sistemas pol\u00edticos institucionais, porque n\u00e3o se acredita neles. Al\u00e9m disso, s\u00e3o parte do problema, n\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a raz\u00e3o da raiva, da viol\u00eancia e da suposta anarquia. <a href=\"https:\/\/www.ciperchile.cl\/2021\/04\/21\/el-descontento-global-con-la-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O descontentamento \u00e9 dirigido ao sistema<\/a>, n\u00e3o a uma de suas partes. Portanto, n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel dentro do sistema. Isto significa que \u00e9 revolucion\u00e1rio? Sim e n\u00e3o. Sim, na medida em que quer ir ao fundo da quest\u00e3o, a uma mudan\u00e7a estrutural nas formas pol\u00edticas de gerenciar a vida. N\u00e3o, porque n\u00e3o prop\u00f5e uma a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, pelo menos n\u00e3o em termos cl\u00e1ssicos, e muito menos constitui um sujeito revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Para vastos setores sociais, compostos por idades, g\u00eaneros, etnias, classes, culturas, religi\u00f5es, gostos, percep\u00e7\u00f5es e\/ou autopercep\u00e7\u00f5es sexuais, a rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-sociedade pr\u00f3pria da segunda modernidade, como \u00e9 conhecido o processo onde a individualiza\u00e7\u00e3o da sociedade atinge sua m\u00e1xima express\u00e3o, chegou ao fim. N\u00e3o os questiona. Muito menos dialoga com seus imagin\u00e1rios, experi\u00eancias e expectativas de vida. De formas poss\u00edveis de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda tese \u00e9, em minha opini\u00e3o, fundamental por ser fundacional. J\u00e1 as identidades sociais n\u00e3o parecem configurar as individualidades (objetividades mais subjetividades). S\u00e3o as individualidades (prefer\u00eancias pelos modos de vida) que moldam os coletivos sociais. Nesta mesma base, inst\u00e1vel, inesperada e incerta. Entre a primeira e a segunda hip\u00f3tese est\u00e1 o fio condutor comum para entender a quest\u00e3o social e, portanto, pol\u00edtica atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio definir o combust\u00edvel deste enojo, a express\u00e3o do descontentamento. A pr\u00f3pria ess\u00eancia que torna a manifesta\u00e7\u00e3o da raiva incontrol\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o sem uma raz\u00e3o \u00faltima, uma raz\u00e3o que contenha em suas diversas formas de express\u00e3o o descontentamento da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, a terceira hip\u00f3tese \u00e9 que a for\u00e7a essencial que impulsiona a express\u00e3o da raiva contempor\u00e2nea \u00e9 um incontrol\u00e1vel impulso de liberdade. N\u00e3o \u00e9 a liberdade filos\u00f3fica do direito natural; n\u00e3o \u00e9 a liberdade pol\u00edtica do desenvolvimento hist\u00f3rico da democracia. \u00c9 o ressurgimento violento da necessidade da pr\u00f3pria liberdade de mostrar as formas de vida preferidas, n\u00e3o negoci\u00e1veis e incontidas. \u00c9 a liberdade de precisar e poder tornar vis\u00edveis os sentidos metaforizados em formas e express\u00f5es de vida a partir das quais possamos continuar falando sobre o que temos falado durante s\u00e9culos: justi\u00e7a, igualdade, direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Emerge um grande descontentamento social. \u00c9 enojo, e por isso persiste e se torna violento. Uma de suas novidades \u00e9 que n\u00e3o se dirige \u00e0 forma como a pol\u00edtica costumava resolver os protestos, ou seja, a favor ou contra quem quer que estivesse gerenciando os conflitos. Parece que este descontentamento \u00e9 dirigido a questionar por que algu\u00e9m\/alguma coisa &#8211; pol\u00edtica institucional &#8211; tem que administrar e resolver conflitos. \u00c9 dirigido \u00e0 legitimidade da pol\u00edtica institucional contempor\u00e2nea para falar em representa\u00e7\u00e3o dos atores e das pessoas sociais. &#8220;N\u00e3o falem mais por n\u00f3s. Sempre fazem isso mal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociologia contempor\u00e2nea tem um campo novo, amplo e necess\u00e1rio para tentar decodificar as novas formas do social. A pol\u00edtica contempor\u00e2nea tem a obriga\u00e7\u00e3o de olhar para a sociedade, suas novas express\u00f5es, suas novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o coletiva, constitui\u00e7\u00e3o de demandas, novas subjetividades, percep\u00e7\u00f5es do dever ser da vida humana em sociedade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que a pol\u00edtica tem que olhar para a sociedade e seus movimentos parece \u00f3bvio.&nbsp; A quest\u00e3o \u00e9 que muita pol\u00edtica \u00e9 feita e desenvolvida em si mesma, sem olhar para o social ou, pior ainda, pensando que a sociedade e o social continuam a se desenvolver de forma imut\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.\u00a0<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De maneira relativamente imprevista, uma intensa mobiliza\u00e7\u00e3o social foi desencadeada nos \u00faltimos anos em grande parte do mundo. 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