{"id":11249,"date":"2022-07-08T09:14:45","date_gmt":"2022-07-08T12:14:45","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11249"},"modified":"2022-07-08T13:44:02","modified_gmt":"2022-07-08T16:44:02","slug":"ciencia-e-conhecimentos-em-plural-entre-o-ativismo-e-a-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ciencia-e-conhecimentos-em-plural-entre-o-ativismo-e-a-academia\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia e conhecimentos em plural: entre o ativismo e a academia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autora Rebecca Lund<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ser o <a href=\"https:\/\/www.elmostrador.cl\/destacado\/2021\/06\/27\/chile-requiere-mas-ciencia-en-inversion\/\">pa\u00eds da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) que menos investe em ci\u00eancia<\/a>, e apesar de ter uma forma\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada em capital humano, mas com pouca absor\u00e7\u00e3o no sistema produtivo do pa\u00eds, o Chile fez alguns progressos que o posicionam como um modelo de sucesso no desenvolvimento da ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Como resultado de uma demanda hist\u00f3rica da comunidade cient\u00edfica chilena, o pa\u00eds tem um minist\u00e9rio que coordena as pol\u00edticas p\u00fablicas no setor: o <a href=\"https:\/\/www.minciencia.gob.cl\/\">Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Conhecimento e Inova\u00e7\u00e3o (Mincyt)<\/a>, enquanto a <a href=\"https:\/\/www.minciencia.gob.cl\/politicactci\/\">Pol\u00edtica Nacional de Ci\u00eancia, Tecnologia, Conhecimento e Inova\u00e7\u00e3o<\/a> foi constru\u00edda em colabora\u00e7\u00e3o com representantes da ci\u00eancia nacional e da sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, diante de problemas estruturais como a base extrativista do modelo de produ\u00e7\u00e3o chileno ou as desigualdades de g\u00eanero, o <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/boric-presidente-de-chile\/\">governo de Gabriel Boric<\/a> prometeu duplicar o or\u00e7amento nacional para ci\u00eancia e tecnologia, oferecendo respostas para reduzir estas assimetrias e reconhecendo a necessidade de integrar a agenda ambiental e clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos avan\u00e7os e desafios do Chile em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, o recente <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/la-nueva-constitucion-chilena-una-oportunidad-perdida\/\">Processo Constitucional<\/a> tamb\u00e9m permitiu a discuss\u00e3o de ideias difundidas sobre o conceito de conhecimento, desafiando as percep\u00e7\u00f5es naturalizadas do conhecimento acad\u00eamico. Um aspecto dessas discuss\u00f5es tem sido o papel do ativismo e sua articula\u00e7\u00e3o com o conhecimento cient\u00edfico e acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, o ativismo e o conhecimento acad\u00eamico s\u00e3o quest\u00f5es que est\u00e3o em constante di\u00e1logo entre si. Os debates sobre esta rela\u00e7\u00e3o t\u00eam estado no centro das discuss\u00f5es dentro da epistemologia feminista e da teoria decolonial por d\u00e9cadas. Neste contexto, devemos abordar como a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento \u00e9 negociada atrav\u00e9s dos olhos daqueles que navegam pelos espa\u00e7os al\u00e9m das paredes da universidade e se movem entre os ativismos feministas e a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, o ativismo \u00e9 apresentado como uma forma de transgredir os saberes acad\u00eamicos vinculados ao bem comum ou ecol\u00f3gico. Entretanto, neste sentido, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento tamb\u00e9m fornece ferramentas para o engajamento de ativistas e vice-versa. Estudos de ativismo em espa\u00e7os acad\u00eamicos t\u00eam se concentrado nas formas pelas quais a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento acad\u00eamico explicitamente ligado a uma agenda ativista pode moldar a tomada de decis\u00f5es pol\u00edticas ou, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ser um catalisador para a transforma\u00e7\u00e3o social dentro e fora da universidade. No entanto, tamb\u00e9m tem sido apontado que as agendas ativistas tendem a se tornar desfocadas, despolitizadas e intelectualizadas quando entram em institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. Nas discuss\u00f5es no \u00e2mbito de dois projetos sobre conhecimento e feminismo (Finl\u00e2ndia e Chile), argumentamos que quando se trata de conhecimento n\u00e3o h\u00e1 uma divis\u00e3o clara entre o ativismo feminista e o trabalho acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>As reflex\u00f5es cr\u00edticas enfocam as pr\u00e1ticas cotidianas do trabalho acad\u00eamico que desafiam os limites do que conta como conhecimento pr\u00f3prio ou, nas palavras da soci\u00f3loga feminista portuguesa Maria Do Mar Pereira, &#8220;alcan\u00e7a status epist\u00eamico&#8221;. Isto se refere \u00e0 forma como nossas atividades di\u00e1rias na academia, empurram os limites do que \u00e9 considerado academicamente relevante e confi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>An\u00e1lises anteriores de academia e ativismo mostraram as formas pelas quais as condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do trabalho acad\u00eamico criam dificuldades na articula\u00e7\u00e3o de conhecimentos acad\u00eamicos aut\u00f4nomos e cr\u00edticos. Dentro deste espa\u00e7o, \u00e0s vezes se pensa que as pr\u00e1ticas ativistas &#8220;contaminam&#8221; e deslegitimam o trabalho das acad\u00eamicas feministas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o ativismo para as estudiosas feministas tamb\u00e9m pode ser parte de sua constru\u00e7\u00e3o de conhecimento, de uma forma que lhes permita atender \u00e0s exig\u00eancias da academia contempor\u00e2nea, como o desenvolvimento de novos e estimulantes caminhos de pesquisa. Elas tamb\u00e9m podem usar o privil\u00e9gio de uma plataforma acad\u00eamica para fazer contribui\u00e7\u00f5es importantes para discuss\u00f5es p\u00fablicas, beneficiando agendas ativistas, assim como suas pr\u00f3prias carreiras e reconhecimento acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, ser uma feminista que desafia as estruturas sexistas e a discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas na sociedade em geral, mas tamb\u00e9m em espa\u00e7os acad\u00eamicos, pode ter um alto custo emocional, trabalho emocional que foi documentado na literatura, por exemplo, por Sarah Ahmed.<\/p>\n\n\n\n<p>Criticar as pr\u00f3prias estruturas e pr\u00e1ticas de desigualdade das universidades pode resultar no silenciamento e marginaliza\u00e7\u00e3o das pesquisadoras feministas porque elas s\u00e3o percebidas como &#8220;causadoras de problemas&#8221; e &#8220;a causa de sentimentos desconfort\u00e1veis&#8221;. Portanto, quando as estudiosas feministas consideram que tipo de conhecimento produzem sobre a sociedade, mas tamb\u00e9m sobre a universidade, elas t\u00eam que avaliar os riscos envolvidos em &#8220;agitar demais o pote&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma frase usada por uma das participantes de nossos estudos e capta a experi\u00eancia que muitas acad\u00eamicas feministas enfrentam diariamente. Mas tamb\u00e9m ilustra um ponto central sobre o qual queremos chamar a aten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 como o trabalho de nomear e desafiar as estruturas e pr\u00e1ticas que moldam nossa vida cotidiana \u00e9 a chave para os esfor\u00e7os intelectuais e pol\u00edticos feministas. Para as estudiosas feministas, o ativismo e o conhecimento acad\u00eamico n\u00e3o podem ser facilmente separados.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma discuss\u00e3o hist\u00f3rica na epistemologia feminista sobre o que conta como conhecimento nos espa\u00e7os acad\u00eamicos, onde uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es tem sido as implica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e o papel de quem sabe nesse processo. Entretanto, o ativismo \u00e9 um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de saberes que est\u00e1 em constante di\u00e1logo com o conhecimento acad\u00eamico para aqueles que se movimentam entre os dois espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o quer dizer que o conhecimento emerge mais de um espa\u00e7o do que do outro. Ao contr\u00e1rio, eles se sobrep\u00f5em e se apoiam mutuamente. A partir das perguntas de pesquisa que fazemos, das tens\u00f5es que revelamos em nossa pesquisa emp\u00edrica ou conceitual, e das implica\u00e7\u00f5es do conhecimento que se torna relevante para as nossas sociedades em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>O recente processo constitucional chileno nos permitiu abordar esta discuss\u00e3o de forma ampla. Esperamos que estas ideias possam em breve ser estendidas a outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e alcan\u00e7ar outras latitudes.<\/p>\n\n\n\n<p><sub>*<em>Este texto foi escrito como parte da campanha #ci\u00eancianaselei\u00e7\u00f5es, promovida pelo Instituto Serrapilheira, que comemora o M\u00eas da Ci\u00eancia. Em julho, os textos publicados pela campanha refletem sobre como a ci\u00eancia deve participar da reconstru\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/em><\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><sub style=\"\"><em style=\"font-style: italic;\">Rebecca Lund<\/em><\/sub> <sub>\u00e9<\/sub> <em><sub>professora e pesquisadora p\u00f3s-doutoranda no Centro de Pesquisa de G\u00eanero (STK) da Universidade de Oslo. Doutora em Estudos Organizacionais pela Tema Genus Link\u00f6ping Universitet e Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade de Aarhus.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autora Rebecca Lund<br \/>\nO activismo \u00e9 um espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento que est\u00e1 em constante di\u00e1logo com o conhecimento acad\u00e9mico para aqueles que se movem entre os dois espa\u00e7os.<\/p>\n","protected":false},"author":346,"featured_media":11234,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16889,16765,16782,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-11249","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ciencia-pt-br","8":"category-chile-es-pt-br","9":"category-genero-pt-br","10":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/346"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11249\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11249"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=11249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}