{"id":11341,"date":"2022-07-13T09:00:00","date_gmt":"2022-07-13T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11341"},"modified":"2022-07-13T05:36:21","modified_gmt":"2022-07-13T08:36:21","slug":"as-vitimas-do-aquecimento-global-nao-estao-ouvindo-falar-de-mudanca-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-vitimas-do-aquecimento-global-nao-estao-ouvindo-falar-de-mudanca-climatica\/","title":{"rendered":"As v\u00edtimas do aquecimento global n\u00e3o est\u00e3o ouvindo falar de mudan\u00e7a clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Coautores Olga L. Hern\u00e1ndez, Mat\u00edas Mastrangelo, Diana C. Moreno<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As comunidades ind\u00edgenas e camponesas que habitam a floresta tropical de Montes de Mar\u00eda, no munic\u00edpio de Mar\u00eda La Baja, no Caribe colombiano, testemunharam nas \u00faltimas d\u00e9cadas as mudan\u00e7as em seus diversos cultivos que passaram a ser monoculturas de palma africana e arroz, a diminui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas que fluem da montanha, a desapari\u00e7\u00e3o de plantas medicinais e a crescente irregularidade das chuvas. Os transbordamentos cada vez mais frequentes dos rios causam inunda\u00e7\u00f5es que trazem consigo uma s\u00e9rie de doen\u00e7as, enquanto os inc\u00eandios n\u00e3o s\u00f3 devastam os cultivos de subsist\u00eancia \u2013 cultivos que satisfazem parte das necessidades alimentares de uma popula\u00e7\u00e3o determinada \u2013, mas tamb\u00e9m a floresta tropical que tamb\u00e9m facilita o acesso \u00e0 \u00e1gua aos habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, para Duvan Andr\u00e9s Caro, que se dedica a comunicar as problem\u00e1ticas dessas comunidades empobrecidas, racializadas e esquecidas, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u201c\u00e9 um conto de cientistas, de ONGs, das cidades. De outro mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, os cientistas depositaram suas esperan\u00e7as em que a evid\u00eancia ajudaria os pol\u00edticos a tomar decis\u00f5es que reduzissem a vulnerabilidade social e os conflitos ambientais. \u00c9 cada vez mais frequente ouvir os \u201ctomadores de decis\u00e3o\u201d do setor p\u00fablico e privado falar de mudan\u00e7a ambiental e sustentabilidade. Mas, \u00e0 medida que as confer\u00eancias internacionais sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica se multiplicam, aumenta de forma exponencial o n\u00famero de pessoas que abandonam as zonas rurais, deslocadas pela destrui\u00e7\u00e3o da natureza e de seus meios de subsist\u00eancia. A desconex\u00e3o entre os f\u00f3runs internacionais onde se buscam as solu\u00e7\u00f5es e os territ\u00f3rios e suas popula\u00e7\u00f5es \u00e9 evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem tudo est\u00e1 perdido. Na atualidade, est\u00e3o surgindo novas formas de vincular a ci\u00eancia com os territ\u00f3rios e os centros de tomada de decis\u00e3o. Se os cientistas realmente querem contribuir para buscar solu\u00e7\u00f5es aos problemas ambientais, devem come\u00e7ar a levar em conta a voz das popula\u00e7\u00f5es locais e abrir-se a seus conhecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o conjunta, ou \u201ccoprodu\u00e7\u00e3o\u201d, entre popula\u00e7\u00f5es locais, cientistas, tomadores de decis\u00e3o e outros atores sociais vinculados ao territ\u00f3rio \u00e9 uma forma de reconectar esses mundos distantes e distintos, de gerar espa\u00e7os para o di\u00e1logo de saberes e gerar espa\u00e7os de negocia\u00e7\u00e3o entre as partes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, se os dados sendo gerados nos centros de pesquisa fossem adaptados a linguagens compreens\u00edveis para as comunidades, poderia dar um giro de 180\u00ba nos processos de tomada de decis\u00f5es que afetam esses territ\u00f3rios e seus habitantes. Isso facilitaria os processos de restaura\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o dos corredores biol\u00f3gicos, algo cada vez mais urgente j\u00e1 que a soberania e a seguran\u00e7a alimentar das comunidades dependem disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, os habitantes da comunidade colombiana de Mar\u00eda La Baja e do pequeno povoado de Sachayoj (\u201cSenhor da Floresta\u201d, em Quichua) no Chaco Argentino \u2013 que passou de uma das maiores regi\u00f5es florestadas do continente para uma das maiores fronteiras de desmatamento do planeta em apenas 30 anos \u2013 participaram de um projeto cient\u00edfico que teve resultados promissores de \u201ccoprodu\u00e7\u00e3o\u201d de conhecimentos e capacidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de <a href=\"https:\/\/www.iai.int\/es\/post\/detail\/socio-ecological-resilience-in-the-face-of-global-environmental-change-in-heterogeneous-landscapes\">Resili\u00eancia socioecol\u00f3gica \u00e0s mudan\u00e7as ambientais globais em territ\u00f3rios heterog\u00eaneos<\/a> reuniu alde\u00f5es, produtores, cientistas e outros atores sociais para identificar conjuntamente as principais amea\u00e7as e oportunidades para o desenvolvimento local. Em Sachayoj, devido \u00e0 demanda dos atores do territ\u00f3rio, est\u00e1 sendo implementado um plano de monitoramento de indicadores ambientais para corrigir as m\u00e1s pr\u00e1ticas e evitar maiores riscos e vulnerabilidades. O monitoramento de polinizadores, por exemplo, est\u00e1 reduzindo o uso de agroqu\u00edmicos e favorecendo a poliniza\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Mar\u00eda La Baja, por outro lado, a comunidade local e os cientistas co-desenharam pe\u00e7as de comunica\u00e7\u00e3o sobre a vida e a diversidade do territ\u00f3rio, mem\u00f3ria e alimento, e a\u00e7\u00f5es de bem-estar e revitaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio no \u00e2mbito da conserva\u00e7\u00e3o da Floresta Tropical Seca. O projeto tamb\u00e9m promoveu e fortaleceu as din\u00e2micas s\u00f3cioecol\u00f3gicas no monitoramento de fauna e flora e na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, para superar as vulnerabilidades da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes avan\u00e7os em duas comunidades marginalizadas na Am\u00e9rica Latina confirmam que realizar processos de coprodu\u00e7\u00e3o, cocria\u00e7\u00e3o e recorrer ao trabalho comunit\u00e1rio ao realizar pesquisas ambientais em territ\u00f3rios espec\u00edficos \u00e9 de suma import\u00e2ncia. As conquistas alcan\u00e7adas atrav\u00e9s da maior aproxima\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o entre pesquisadores, membros da comunidade e centros de pesquisa tamb\u00e9m ajudam a trazer o futuro dos recursos naturais para a discuss\u00e3o. Isto \u00e9 muito importante para a tomada de decis\u00f5es que tenham rela\u00e7\u00e3o com pol\u00edticas que afetam os espa\u00e7os de relev\u00e2ncia biol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto no centro das grandes cidades e nos pa\u00edses mais poderosos do mundo, as pessoas procuram temporariamente \u201cse isolar\u201d dos conflitos ambientais, as fam\u00edlias e comunidades rurais da Am\u00e9rica Latina e do Caribe vivem permanentemente expostas \u00e0s suas consequ\u00eancias. Portanto, segundo Duvan, \u201cos habitantes das comunidades precisam urgentemente que suas pr\u00e1ticas ancestrais de conserva\u00e7\u00e3o, cuidado da natureza e de entender a natureza sejam endossadas e levadas em conta na hora de gerar informa\u00e7\u00e3o sobre o territ\u00f3rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 hora de consolidar a mudan\u00e7a. Embora os cientistas tenham optado por uma estrat\u00e9gia ineficaz e ing\u00eanua para contribuir para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas ambientais, as popula\u00e7\u00f5es rurais nas fronteiras do extrativismo na Am\u00e9rica Latina e no Caribe sofrem desproporcionalmente as consequ\u00eancias da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 tempo para reverter esta situa\u00e7\u00e3o. Mas, no lugar de seguir depositando nossas esperan\u00e7as em influenciar os tomadores de decis\u00e3o, devemos nos comprometer a trabalhar de igual para igual com todos os atores sociais que vivem e atuam no territ\u00f3rio. Para enfrentar a crise ambiental, que se manifesta cada vez com mais for\u00e7a sobre as regi\u00f5es mais empobrecidas, \u00e9 necess\u00e1rio levar adiante processos mais democr\u00e1ticos que levem em conta as diferentes formas de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>Olga Luc\u00eda Hern\u00e1ndez-Manrique \u00e9 bi\u00f3loga e pesquisadora com doutorado em biodiversidade:<\/em> <em>conserva\u00e7\u00e3o e manejo de esp\u00e9cies e seus habitats, Universidade de Alicante, Espanha.<\/em><\/sub><em>\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Mat\u00edas Mastrangelo \u00e9 bi\u00f3logo e pesquisador com doutorado em Estudos Ambientais, Victoria University of Wellington, Nova Zel\u00e2ndia.<\/sub>\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Diana C. Moreno \u00e9 pesquisadora adjunta do Instituto Humboldt na Col\u00f4mbia. D. em Estudos Ambientais pela Universidade Nacional da Col\u00f4mbia.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautores Olga L. 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