{"id":11444,"date":"2022-07-18T09:00:00","date_gmt":"2022-07-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11444"},"modified":"2022-07-18T05:42:42","modified_gmt":"2022-07-18T08:42:42","slug":"cuba-o-excepcionalismo-democratico-e-a-seletividade-do-pensamento-critico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/cuba-o-excepcionalismo-democratico-e-a-seletividade-do-pensamento-critico\/","title":{"rendered":"Cuba: o excepcionalismo &#8220;democr\u00e1tico&#8221; e a seletividade do pensamento cr\u00edtico"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 11 de julho de 2021, ocorreram os protestos mais massivos da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea de Cuba. Os manifestantes exigiam maiores direitos e liberdades, mas um ano ap\u00f3s o evento, organiza\u00e7\u00f5es como a <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/es\/news\/2022\/07\/11\/cuba-represion-las-protestas-genera-crisis-de-derechos-humanos\">Human Rights Watch<\/a> documentaram uma forte repress\u00e3o do regime cubano, viola\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas dos direitos humanos e um aumento dr\u00e1stico do n\u00famero de pessoas for\u00e7adas a deixar o pa\u00eds. Diante deste cen\u00e1rio, a academia latino-americana e o pensamento cr\u00edtico <a href=\"https:\/\/www.gobiernoyanalisispolitico.org\/_files\/ugd\/264c62_0ed577a956f341ec96919a8829eac9a5.pdf\">muitas vezes ficam em sil\u00eancio ou se mostram seletivos<\/a>, aplicando crit\u00e9rios de excepcionalidade ao caso cubano com pouca base.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina hoje \u00e9 uma regi\u00e3o onde a democracia liberal &#8211; como modelo imperfeito, mas que est\u00e1 em vigor na maioria de suas na\u00e7\u00f5es &#8211; possibilita a liberdade c\u00edvica de express\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o e pesquisa. Um continente onde, como regra, a academia pode, sem as restri\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas ou policiais do passado, analisar e criticar o desempenho dos governos. E onde os intelectuais, tendo sofrido durante d\u00e9cadas a brutal repress\u00e3o das ditaduras militares, deveriam valorizar &#8211; para si mesmos e para os outros &#8211; as virtudes de uma sociedade aberta, exercendo o pensamento cr\u00edtico com rigor epist\u00eamico e pluralismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, <a href=\"https:\/\/www.gobiernoyanalisispolitico.org\/publicaciones\/utopia-under-question%3A-academia-and-democratic-consensus-in-latin-america\">como analisamos anteriormente<\/a>, nossa academia regional revela uma ades\u00e3o prec\u00e1ria e tendenciosa aos valores do projeto democr\u00e1tico. Quando se trata de analisar express\u00f5es passadas ou presentes do autoritarismo de direita, n\u00e3o h\u00e1 problema maior. Todo o rigor \u00e9 exercido contra ditaduras de seguran\u00e7a nacional, Estados burocr\u00e1tico-autorit\u00e1rios e populismos conservadores, mesmo quando seus governantes foram eleitos democraticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando se trata de autocracias de esquerda, a posi\u00e7\u00e3o muda. Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela provocam alongamento conceitual (e esvaziamento), sil\u00eancios e tratamento gentil. Este \u00e9 agora um paradoxo triplo. Devido ao crescente n\u00edvel de sofistica\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais latino-americanas e a disponibilidade de dados sobre a situa\u00e7\u00e3o real nesses pa\u00edses e, talvez o mais relevante, porque esses s\u00e3o agora os \u00fanicos tr\u00eas regimes totalmente autocr\u00e1ticos na regi\u00e3o. Entretanto, tanto a <a href=\"https:\/\/www.gobiernoyanalisispolitico.org\/post\/el-estado-cubano-y-la-academia-latinoamericanista\">influ\u00eancia dos Estados autorit\u00e1rios (especialmente de Cuba) sobre as organiza\u00e7\u00f5es e redes acad\u00eamicas latino-americanas<\/a>, quanto as lealdades pol\u00edticas que elas abrigam, impedem que os fatores de sofistica\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, acesso aos dados e cultura pol\u00edtica democr\u00e1tica desempenhem seu papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba hoje combina o paradoxo de ser e n\u00e3o ser excepcional. \u00c9 diferente a natureza de seu regime pol\u00edtico, semelhante ao modelo leninista, que alguns ainda apresentam como uma excepcional &#8220;democracia popular e participativa&#8221;. Mas a crescente diversidade, estratifica\u00e7\u00e3o e beliger\u00e2ncia de sua sociedade, diante de suas elites, n\u00e3o s\u00e3o excepcionais no contexto regional. Esta \u00e9 Cuba: estagnadamente sovi\u00e9tica em seu regime, dinamicamente latino-americana em sua realidade socioecon\u00f4mica e cultural em muta\u00e7\u00e3o. Os eventos de 11 e 12 de julho de 2021 demonstraram isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo do tratamento amig\u00e1vel e acr\u00edtico de Cuba \u00e9 a <a href=\"https:\/\/lasaweb.org\/en\/\">Latin American Studies Association<\/a> (LASA), um espa\u00e7o no qual a ret\u00f3rica do governo cubano \u00e9 significativa atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o de acad\u00eamicos da Ilha. Em uma <a href=\"https:\/\/lasaweb.org\/es\/news\/pronunciamiento-proteccion-derechos-humanos-cuba\/\">declara\u00e7\u00e3o emitida em 2021<\/a>, a respeito da situa\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, foi expressa preocupa\u00e7\u00e3o com o tratamento de acad\u00eamicos, intelectuais e cr\u00edticos cubanos, mas com poucas cr\u00edticas ao governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso relevante \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.clacso.org\/\">Conselho Latino Americano de Ci\u00eancias Sociais (CLACSO)<\/a>. Ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es de julho de 2021, a diretoria e os centros cubanos membros publicaram uma declara\u00e7\u00e3o &#8220;<a href=\"https:\/\/www.clacso.org\/pronunciamiento-frente-a-la-campana-de-manipulacion-contra-cuba\/\">Perante a campanha de manipula\u00e7\u00e3o contra Cuba<\/a>&#8220;, que foi duramente criticada por seu autoritarismo por <a href=\"https:\/\/rialta.org\/academicos-de-veinte-paises-firman-carta-publica-en-rechazo-a-la-postura-de-clacso-sobre-las-protestas-en-cuba\/\">acad\u00eamicos e intelectuais de mais de 20 pa\u00edses<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, <a href=\"https:\/\/americalatina.global\/biblioteca\/Cuba11J.pdf\">um livro recente da CLACSO<\/a>, <em>Cuba 11J: Protestas, respuestas, desafios,<\/em> tentou fazer um balan\u00e7o dos protestos populares mais numerosos, diversos e tamb\u00e9m reprimidos em Cuba nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Ele exemplifica a postura de uma certa parte da academia que n\u00e3o \u00e9 muito cr\u00edtica a Cuba ou que defende o &#8220;excepcionalismo cubano&#8221;. Publicado pela Escola de Estudos Latino-Americanos e Globais da CLACSO, o livro reflete o tratamento especial dado \u00e0 realidade cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, o livro &#8211; que re\u00fane contribui\u00e7\u00f5es de estudiosos cubanos e estrangeiros &#8211; n\u00e3o parece particularmente interessado em definir de que ordem s\u00f3cio-pol\u00edtica se trata. N\u00e3o h\u00e1 uma discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre os princ\u00edpios, institui\u00e7\u00f5es e processos reais do sistema pol\u00edtico em que os protestos se desenvolveram. As palavras autorit\u00e1rio\/a e autoritarismo aparecem apenas quatro vezes. Elas nunca s\u00e3o usadas para caracterizar o regime, mas certas pr\u00e1ticas. O termo tirania \u00e9 usado uma vez. A palavra ditadura aparece 12 vezes, na maioria das vezes como uma constru\u00e7\u00e3o criada a partir da democracia ocidental que rejeita outras experi\u00eancias como R\u00fassia, China e, claro, Cuba. A autocracia &#8211; talvez a no\u00e7\u00e3o mais robusta e menos politizada &#8211; n\u00e3o \u00e9 utilizada. Isso levando em considera\u00e7\u00e3o as 72.917 palavras da obra.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro, o autoritarismo alude (p. 55) aos modelos russo e chin\u00eas, em uma cr\u00edtica das poliarquias. A no\u00e7\u00e3o de tirania (p. 144) \u00e9 invocada para relativizar as cr\u00edticas ao regime cubano; enquanto a palavra ditadura tamb\u00e9m \u00e9 usada para questionar o discurso pol\u00edtico e acad\u00eamico da democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de um trabalho onde os conceitos s\u00e3o ancorados em evid\u00eancias emp\u00edricas e teorias robustas, parece que as categorias s\u00e3o usadas aqui mais como cren\u00e7as pessoais e preconceitos. Nem um \u00fanico intelectual parece defender a poliarquia como alternativa. A mesma poliarquia que abrigou o desenvolvimento profissional dos autores da obra. O mesmo regime que permite a publica\u00e7\u00e3o de um livro que o questiona repetidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um autor que vive na Ilha que, quase sozinho, alude (p. 68) \u00e0 realidade do problema: &#8220;H\u00e1 exig\u00eancias reais feitas de forma pac\u00edfica, cuja ignor\u00e2ncia pode ser arriscada. A isto deve ser acrescentado que o discurso oficial justifica o uso da viol\u00eancia repressiva e isto tem um impacto negativo sobre setores da popula\u00e7\u00e3o que permanecem \u00e0 margem, mas observam com consterna\u00e7\u00e3o tudo o que acontece. Um caso em quest\u00e3o \u00e9 o dos intelectuais e artistas que tornaram p\u00fablicas suas condena\u00e7\u00f5es. Os eventos tiveram um impacto negativo sobre a imagem internacional de Cuba. H\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o de que as autoridades, incluindo as autoridades de seguran\u00e7a, foram pegas de surpresa. H\u00e1 tamb\u00e9m a percep\u00e7\u00e3o de que o n\u00edvel de repress\u00e3o est\u00e1 sendo ocultado&#8221;. Fim da cita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sil\u00eancios e vieses acad\u00eamicos a respeito do &#8220;excepcionalismo cubano&#8221; s\u00e3o question\u00e1veis a partir da l\u00f3gica espec\u00edfica do conhecimento cient\u00edfico, <a href=\"https:\/\/www.hypermediamagazine.com\/columnistas\/mejor-no-me-callo\/el-totalitarismo-y-sus-variaciones-teoricas-el-caso-cubano\/\">distorcendo tanto a hist\u00f3rica discuss\u00e3o conceitual<\/a> quanto os resultados pr\u00e1ticos derivados da <a href=\"https:\/\/polis.ulagos.cl\/index.php\/polis\/article\/view\/1578\">natureza autocr\u00e1tica dos regimes leninistas<\/a>. Mas eles tamb\u00e9m tornam invis\u00edvel o custo humano e a responsabilidade pol\u00edtica por tr\u00e1s da repress\u00e3o que ainda continua. Isto complica a conscientiza\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o, no campo democr\u00e1tico progressista, sobre a realidade de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 negativo, tanto no reino abstrato das ideias quanto na influ\u00eancia concreta dessas ideias, legitimando o controle autorit\u00e1rio e a repress\u00e3o sobre o destino das pessoas que vivem nesses pa\u00edses. Porque <a href=\"https:\/\/www.cadal.org\/libros\/pdf\/La-izquierda-como-autoritarismo-en-el-siglo-XXI.pdf\">os autoritarismos<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.cadal.org\/libros\/pdf\/La-derecha-como-autoritarismo-en-el-siglo-XXI.pdf\">de qualquer tipo<\/a>, s\u00e3o a ant\u00edtese do pensamento cr\u00edtico e de qualquer no\u00e7\u00e3o genu\u00edna de soberania popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante de viola\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas dos direitos humanos, a academia latino-americana e o pensamento cr\u00edtico freq\u00fcentemente permanecem em sil\u00eancio, aplicando crit\u00e9rios de excepcionalidade ao caso cubano com pouca base.<\/p>\n","protected":false},"author":350,"featured_media":11442,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16899,16773,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-11444","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cuba-es-pt-br","8":"category-autoritarismo-pt-br","9":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/350"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11444"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11444\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11444"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11444"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=11444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}