{"id":11512,"date":"2022-07-25T09:03:28","date_gmt":"2022-07-25T12:03:28","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11512"},"modified":"2022-07-25T10:09:38","modified_gmt":"2022-07-25T13:09:38","slug":"a-exclusao-das-mulheres-afrodescendentes-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-exclusao-das-mulheres-afrodescendentes-na-america-latina\/","title":{"rendered":"A exclus\u00e3o das mulheres afrodescendentes na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>O dia 25 de julho de cada ano \u00e9 comemorado o Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana, Afro-Caribenha e da Di\u00e1spora. Nesta data em 1992, na Rep\u00fablica Dominicana, cem mulheres afrodescendentes da Am\u00e9rica Latina realizaram sua primeira reuni\u00e3o regional em protesto contra o movimento feminista branco que as exclu\u00eda de seus eventos. Foi l\u00e1 que foi formada a Rede de Mulheres Afro-Latino-americanas, Afro-Caribenhas e da Di\u00e1spora (<a href=\"http:\/\/www.mujeresafro.org\/\">REDMAAD<\/a>), que hoje completa 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se trata de um espa\u00e7o para o empoderamento das mulheres afrodescendentes para a constru\u00e7\u00e3o e reconhecimento de sociedades democr\u00e1ticas que sejam equitativas, justas, multiculturais, livres de discrimina\u00e7\u00e3o, sexismo e patriarcalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta rede \u00e9 talvez a mais poderosa articula\u00e7\u00e3o do movimento social afrodescendente nas Am\u00e9ricas. \u00c9 composta por organiza\u00e7\u00f5es em 22 pa\u00edses da regi\u00e3o, com centros nos Estados Unidos, Espanha e Fran\u00e7a. Tamb\u00e9m opera como uma organiza\u00e7\u00e3o transnacional, com uma coordenadora geral, seis comit\u00eas sub-regionais e comit\u00eas nacionais por pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes 30 anos de luta, focalizada na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente, a rede tem usado como estrat\u00e9gia desvendar as m\u00faltiplas discrimina\u00e7\u00f5es a que as mulheres est\u00e3o sujeitas, denunciando a teia de rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e desigualdade que resultam da intersec\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia e classe social.<\/p>\n\n\n\n<p>A rede, na esfera p\u00fablica e no campo pol\u00edtico, conseguiu posicionar repert\u00f3rios que exigem uma vis\u00e3o interseccional das problem\u00e1ticas que afetam as mulheres. A reivindica\u00e7\u00e3o de seus direitos exige que os Estados implementem pol\u00edticas e programas p\u00fablicos eficazes para erradicar a exclus\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o real das mulheres afrodescendentes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora a presen\u00e7a de pol\u00edticas como Epsy Campbell na Costa Rica e <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-alternancia-politica-chega-a-colombia\/\">Francia M\u00e1rquez na Col\u00f4mbia<\/a> demonstre o crescente protagonismo pol\u00edtico das mulheres afro-latino-americanas, como <a href=\"http:\/\/www.mujeresafro.org\/publicaciones\/investigaciones\/\">v\u00e1rios estudos da REDMAAD<\/a> demonstraram, as condi\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o, desigualdade e d\u00e9ficit cidad\u00e3o deste grupo s\u00e3o m\u00faltiplas. Desde que a rede foi criada, foram alcan\u00e7ados reconhecimentos importantes, mas eles n\u00e3o se refletem em conquistas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Vicenta Camusso, uma ativista afro-uruguaia, os indicadores sobre a situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica e as condi\u00e7\u00f5es de vida das mulheres afrodescendentes permanecem inalterados. Por um lado, h\u00e1 avan\u00e7os pol\u00edticos, mas por outro, h\u00e1 poucos avan\u00e7os sociais e at\u00e9 retrocessos, especialmente se considerarmos a radicaliza\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o racial antinegra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Camusso, a complexa realidade das mulheres afrodescendentes pode ser resumida nos seguintes problemas: a) acesso limitado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, com lacunas que n\u00e3o se reduzem; b) alta paridade reprodutiva em idade precoce; c) alta entrada no mercado de trabalho, com entrada precoce e sa\u00edda tardia; c) alta participa\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o dom\u00e9stico sem garantias trabalhistas; d) viol\u00eancia f\u00edsica contra elas e seus filhos; e) aumento do n\u00famero de mulheres jovens nas pris\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes e outros problemas estruturais enfrentados pelas mulheres de ascend\u00eancia africana podem ser resumidos na necessidade de compreender que o racismo, mesmo depois da escravid\u00e3o, \u00e9 um poderoso indicador de disparidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em alguns pa\u00edses da regi\u00e3o, a sociedade est\u00e1 relutante em admitir a exist\u00eancia do racismo como fator de desigualdade ao lado do sexismo, do classismo, do patriarcalismo e da colonialidade. Isto \u00e9 particularmente verdadeiro em ambientes como o Caribe, onde a exist\u00eancia do racismo \u00e9 institucionalmente negada, sendo a n\u00e3o inclus\u00e3o da vari\u00e1vel ra\u00e7a\/etnia nos censos e pesquisas domiciliares uma forma concreta desta nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/publicaciones\/43746-mujeres-afrodescendientes-america-latina-caribe-deudas-igualdad\">CEPAL<\/a>, no Caribe, onde a porcentagem da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente \u00e9 grande, a falta de dados estat\u00edsticos cruzados por etnia\/ra\u00e7a impede uma compreens\u00e3o das realidades vividas pelas mulheres afrodescendentes, tais como aquelas relacionadas ao desemprego, falta de acesso ao cr\u00e9dito, acesso limitado \u00e0 terra produtiva, pouca participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; mais presen\u00e7a no ensino superior, mas menos participa\u00e7\u00e3o em empregos qualificados e cargos de decis\u00e3o. Outros problemas enfrentados por essas mulheres t\u00eam a ver com o feminic\u00eddio e o baixo acesso \u00e0 justi\u00e7a. Al\u00e9m disso, destacam tamb\u00e9m a perda de territ\u00f3rios ancestrais e a redu\u00e7\u00e3o da expectativa de vida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e9dias nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Claudia Mosquera, professora da Universidade Nacional da Col\u00f4mbia, a viol\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica e moral sofrida por milhares de mulheres afrodescendentes na Col\u00f4mbia como resultado do conflito armado interno mostra que o corpo da mulher afrodescendente continua a ser objeto de forte discrimina\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. Nestas realidades, os corpos das mulheres tornam-se despojo da guerra e os atores armados do conflito muitas vezes as transformam em escravas sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mosquera acrescenta que outro aspecto tem a ver com a viol\u00eancia racial que opera fortemente contra as mulheres afrodescendentes e as exclui dos mercados de trabalho com altas possibilidades econ\u00f4micas, domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e prest\u00edgio. Isto acontece, por exemplo, no Panam\u00e1, como revelam as pesquisas domiciliares do <a href=\"https:\/\/www.inec.gob.pa\/publicaciones\/Default2.aspx?ID_CATEGORIA=5&amp;ID_SUBCATEGORIA=38\">Instituto Nacional de Estat\u00edstica<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, em Cali, <a href=\"http:\/\/biblioteca.clacso.edu.ar\/ar\/libros\/clacso\/crop\/zabala\/11posso.pdf\">estudos da Universidad del Valle<\/a> demonstraram a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o perversa entre o servi\u00e7o dom\u00e9stico e os altos n\u00edveis de escolaridade das trabalhadoras dom\u00e9sticas afrodescendentes. Foi at\u00e9 mesmo demonstrado que as mulheres que s\u00e3o chamadas de mulatas se saem melhor do que aquelas que t\u00eam pele mais negra ou s\u00e3o chamadas de &#8220;mulheres negras&#8221;. Al\u00e9m disso, as mulheres afrodescendentes t\u00eam uma carga maior de dependentes, uma situa\u00e7\u00e3o que limita suas possibilidades econ\u00f4micas e de crescimento profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Roc\u00edo Mu\u00f1oz, ativista do movimento afro-peruano, e estudos recentes da <a href=\"https:\/\/observatorioviolencia.pe\/violencia-contra-mujeres-afroperuanas\/\">consultoria GRADE<\/a>, as mulheres afro-peruanas tamb\u00e9m sofrem um cen\u00e1rio de opress\u00e3o interseccional. Al\u00e9m disso, quanto mais escuro o tom de pele, mais aumenta o racismo em rela\u00e7\u00e3o ao corpo das mulheres afrodescendentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lima, por exemplo, observou-se que a identidade por ra\u00e7a\/etnia acaba sendo uma vari\u00e1vel que aprofunda as condi\u00e7\u00f5es de pobreza em que as mulheres vivem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua classe, g\u00eanero e subalternidade. Neste contexto, as mulheres identificadas como &#8220;negras&#8221; ou &#8220;muito negras&#8221; t\u00eam menos escolaridade, menos acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade, mais trabalho pesado e menos remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica das mulheres afrodescendentes deve ser interpretada em termos de interse\u00e7\u00e3o de desigualdades, tanto por etnia\/ra\u00e7a, quanto por g\u00eanero e classe. Al\u00e9m disso, como defende a REDMAAD, esta complexa realidade exige uma aten\u00e7\u00e3o institucional radical, levando ao estabelecimento de pol\u00edticas p\u00fablicas com uma abordagem diferenciada, entendida como um conjunto de a\u00e7\u00f5es afirmativas e repara\u00e7\u00f5es, que combatem o problema de forma integral.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, \u00e9 cada vez mais evidente a necessidade de pol\u00edticas que abordem os problemas vividos em territ\u00f3rios rurais e urbanos, em espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, isto \u00e9, em todos os cen\u00e1rios em que ocorre a reprodu\u00e7\u00e3o do poder masculino sobre os corpos das mulheres afrodescendentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 o Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e embora a presen\u00e7a de pol\u00edticos como Epsy Campbell e Francia M\u00e1rquez mostre seu crescente destaque, as condi\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o, desigualdade e d\u00e9ficit cidad\u00e3o deste grupo s\u00e3o m\u00faltiplas. <\/p>\n","protected":false},"author":353,"featured_media":11509,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16741,16782,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-11512","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mujeres-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/353"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11512"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11512\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11512"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=11512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}