{"id":11571,"date":"2022-07-28T09:00:00","date_gmt":"2022-07-28T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11571"},"modified":"2022-07-27T13:08:34","modified_gmt":"2022-07-27T16:08:34","slug":"as-encruzilhadas-da-humanidade-na-epoca-do-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-encruzilhadas-da-humanidade-na-epoca-do-antropoceno\/","title":{"rendered":"As encruzilhadas da humanidade na \u00e9poca do Antropoceno"},"content":{"rendered":"\n<p>Vivemos em uma \u00e9poca de crise e incerteza. Parece que a organiza\u00e7\u00e3o da vida e a representa\u00e7\u00e3o do futuro, como imaginamos, est\u00e3o sendo desafiadas por din\u00e2micas globais que transcendem nosso entendimento e nos arrastam para cen\u00e1rios inimagin\u00e1veis e at\u00e9 dist\u00f3picos. A apari\u00e7\u00e3o, h\u00e1 mais de dois anos, de um v\u00edrus de suposta origem zoon\u00f3tica \u2013 enfermidade infecciosa transmiss\u00edvel de animais vertebrados a seres humanos \u2013 como a Covid-19 \u00e9 prova disso e, desde ent\u00e3o, nossas vidas t\u00eam sido totalmente perturbadas. O mesmo poderia ser dito da mudan\u00e7a clim\u00e1tica antropog\u00eanica, que procede dos seres humanos e tem efeitos sobre a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a comunidade cient\u00edfica tenha se pronunciado sobre o tema h\u00e1 mais de 30 anos, a evid\u00eancia sobre o aumento sustentado da temperatura e as <a href=\"https:\/\/www.revistaanfibia.com\/como-evitar-la-ecoansiedad\/\">proje\u00e7\u00f5es futuras<\/a> sobre o aquecimento do planeta s\u00e3o cada dia mais contundentes, assim o confirma o 6\u00ba relat\u00f3rio lan\u00e7ado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) entre 2021-2022.<\/p>\n\n\n\n<p>A Covid-19 e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica t\u00eam v\u00e1rios pontos em comum. Ambos s\u00e3o globais em escala e locais em impacto, nenhum pa\u00eds pode enfrent\u00e1-los isoladamente, e abordar sua complexidade requer a inclus\u00e3o de diferentes tipos de conhecimento e especializa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de enfoques transdisciplinares.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, a Covid-19 e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica,<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/los-desafios-globales-estan-cambiando-los-paradigmas-de-la-ciencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> longe de serem quest\u00f5es estritamente cient\u00edficas<\/a>, s\u00e3o problemas pol\u00edticos e sociais. Portanto, nos desafiam a pensar os m\u00faltiplos aspectos envolvidos, desde os padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consumo, a percep\u00e7\u00e3o de risco e seus aspectos \u00e9tico-pol\u00edticos, os modelos de desenvolvimento vigentes e desej\u00e1veis de sociedade, at\u00e9 os v\u00ednculos que os seres humanos estabelecem com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As mudan\u00e7as nos ecossistemas e o surgimento de novos v\u00edrus<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00faltimo aspecto \u00e9 crucial e cada dia fica mais relevante nos debates cient\u00edficos, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e na sociedade civil. De fato, um estudo recentemente publicado na <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-022-04788-w\">revista <em>Nature<\/em><\/a> sugere que mudan\u00e7as abruptas nos ecossistemas e destrui\u00e7\u00e3o de habitat, mais as altas temperaturas que ocorrer\u00e3o no futuro, podem gerar um ambiente prop\u00edcio \u00e0 emerg\u00eancia de uma \u201crede de novos v\u00edrus\u201d e \u00e0 transmiss\u00e3o de doen\u00e7as com potencial de infec\u00e7\u00e3o aos seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo destaca que a migra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies silvestres pela perda de habitats naturais e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica antropog\u00eanica poderia gerar as condi\u00e7\u00f5es para o interc\u00e2mbio viral entre esp\u00e9cies que n\u00e3o tiveram contato pr\u00e9vio, facilitando o cont\u00e1gio zoon\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma linha, outros estudos postularam que o Covid-19, como um v\u00edrus zoon\u00f3tico, poderia ser classificado como uma <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32425223\/\">doen\u00e7a do Antropoceno<\/a>, produto de processos complexos envolvendo a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e a perda de biodiversidade, desmatamento e mudan\u00e7as no uso do solo para terras cultiv\u00e1veis e produ\u00e7\u00e3o intensiva de gado, com as altera\u00e7\u00f5es que estes processos geram para a sa\u00fade humana e <a href=\"https:\/\/ensia.com\/features\/covid-19-coronavirus-biodiversity-planetary-health-zoonoses\/\">planet\u00e1ria<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, por exemplo, as taxas de desmatamento ilegal n\u00e3o pararam de crescer, tanto na regi\u00e3o amaz\u00f4nica quanto no <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0959378022000498?via%3Dihub\">Chaco argentino<\/a>. Neste \u00faltimo caso, entre 2000 e 2019, 5 milh\u00f5es de hectares foram desmatados, 40% dos quais foram <a href=\"https:\/\/www.infobae.com\/opinion\/2022\/05\/05\/productores-y-funcionarios-juntos-por-la-deforestacion-ilegal\/\">ilegais<\/a> e produziram a perda de floresta nativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Este e outros sintomas da nossa \u00e9poca indicariam que entramos no \u201cAntropoceno\u201d. Uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica onde os humanos se tornaram uma for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o global e planet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Antropoceno: a irrup\u00e7\u00e3o da humanidade como uma for\u00e7a geol\u00f3gica&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 algo certo, \u00e9 que as mudan\u00e7as no mundo se aceleraram descontroladamente. A interven\u00e7\u00e3o humana no planeta tem sido de tal magnitude que os cientistas a n\u00edvel internacional discutem nossa poss\u00edvel entrada em uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica na hist\u00f3ria da Terra, denominada de Antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<p>Criado pelo Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica Paul Crutzen e pelo bi\u00f3logo Eugene Stoermer em 2000, o conceito d\u00e1 conta do dom\u00ednio dos seres humanos sobre a face da terra, deixando de ser meramente agentes biol\u00f3gicos para nos tornarmos agentes geol\u00f3gicos com capacidade de transforma\u00e7\u00e3o estratigr\u00e1fica global.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um artigo seminal, Crutzen prop\u00f5e o in\u00edcio do Antropoceno com a revolu\u00e7\u00e3o industrial e a mudan\u00e7a na matriz energ\u00e9tica para uma economia f\u00f3ssil no final do s\u00e9culo XVIII. Este primeiro artigo foi t\u00e3o influente nos \u00e2mbitos cient\u00edficos que em 2009 foi criado o Grupo de trabalho do Antropoceno (AGW), no marco da Uni\u00e3o Internacional de Ci\u00eancias Geol\u00f3gicas, com o objetivo de buscar evid\u00eancias estratigr\u00e1ficas, poss\u00edveis marcadores e periodiza\u00e7\u00f5es no registro geol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Este grupo de trabalho j\u00e1 apresentou uma proposta formal, mas ainda n\u00e3o foi endossada por especialistas em geologia. Mas, independentemente de ser aceito ou n\u00e3o, as discuss\u00f5es sobre o Antropoceno tomaram uma relev\u00e2ncia inusitada, tanto dentro da geologia, como das humanidades ambientais, das artes e da m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p>Retomando as discuss\u00f5es sobre os poss\u00edveis in\u00edcios do Antropoceno, um grupo de cientistas do Centro de Resili\u00eancia da Universidade de Estocolmo, liderado por Will Steffen, mostrou como certos par\u00e2metros socioecon\u00f4micos e do sistema terrestre cresceram exponencialmente a partir de 1950, com a chamada \u201c<a href=\"https:\/\/futureearth.org\/2015\/01\/16\/the-great-acceleration\/\">Grande Acelera\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, par\u00e2metros socioecon\u00f4micos como aumento da produ\u00e7\u00e3o e do consumo, o maior uso energ\u00e9tico, crescimento populacional e migra\u00e7\u00e3o para as cidades, aumento do uso de \u00e1gua para telecomunica\u00e7\u00f5es e turismo t\u00eam sido pronunciados desde 1950. Estas tend\u00eancias se refletem nas din\u00e2micas do sistema terrestre atrav\u00e9s do aumento dos gases de efeito estufa (GEE) \u2013 di\u00f3xido de carbono, metano \u2013 o aumento da temperatura terrestre, a perda das florestas tropicais e a degrada\u00e7\u00e3o da biosfera terrestre. Inclusive, os testes com armas nucleares ap\u00f3s 1954 s\u00e3o um poss\u00edvel marcador do fim do holoceno e das condi\u00e7\u00f5es socioambientais que permitiram o desenvolvimento da humanidade como a conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A responsabilidade do \u201cAnthropos\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As discuss\u00f5es sobre o Antropoceno s\u00e3o m\u00faltiplas, tanto do \u00e2mbito geol\u00f3gico como das ci\u00eancias sociais e humanas que problematizam a responsabilidade deste \u201cAnthropos\u201d. \u00c9 poss\u00edvel falar da esp\u00e9cie humana como a criadora das condi\u00e7\u00f5es de crise ambiental e ecol\u00f3gica atuais? Ou devemos falar de um sistema econ\u00f4mico, uma ideologia, promovida pelo sistema capitalista de produ\u00e7\u00e3o e consumo?<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da mudan\u00e7a clim\u00e1tica antropog\u00eanica, n\u00e3o podemos atribuir a mesma responsabilidade pela crise \u00e0s comunidades sustent\u00e1veis que vivem em harmonia com a natureza e a determinados setores socioecon\u00f4micos que depredam a natureza para gerar maior rentabilidade. Por isso, foi proposto designar esta \u00e9poca como Capitaloceno.<\/p>\n\n\n\n<p>A complexidade de nomear esta \u00e9poca atual tem levado a importantes debates terminol\u00f3gicos. Neste sentido, foi proposto o ocidentaloceno, destacando a responsabilidade dos pa\u00edses ocidentais pela situa\u00e7\u00e3o atual, o tecnoceno, que enfatiza a tecnologia, e o plantatioceno, conceito que d\u00e1 conta da responsabilidade das formas de produ\u00e7\u00e3o intensivas e de monoculturas nas transforma\u00e7\u00f5es sociais e ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma ideia para pensar, o Antropoceno tornou-se um n\u00facleo de debate inter\/transdisciplinar sobre como os seres humanos coabitam com outras esp\u00e9cies no planeta e, fundamentalmente, sua interdepend\u00eancia. Portanto, \u00e0 luz das grandes encruzilhadas que estamos experimentando com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a Covid-19 como s\u00edmbolos e sintomas desta \u00e9poca atual, precisamos de estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00f5es coletivas.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o podemos esperar que as solu\u00e7\u00f5es provenham s\u00f3 das esferas tecnocient\u00edficas. Precisamos incluir a sociedade civil nos debates e a\u00e7\u00f5es para repensar em conjunto os modelos de desenvolvimento vigentes e desej\u00e1veis da sociedade e a reconex\u00e3o com o ecossistema terrestre do qual fazemos parte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos em uma \u00e9poca de crise e incerteza onde parece que a organiza\u00e7\u00e3o da vida e a representa\u00e7\u00e3o do futuro, como imaginamos, est\u00e3o sendo desafiadas por din\u00e2micas globais que transcendem nosso entendimento.<\/p>\n","protected":false},"author":354,"featured_media":11556,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16751,14475,14456,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-11571","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-medioambiente-pt-br","9":"category-mudanca-climatica","10":"category-meio-ambiente","11":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11571","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/354"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11571"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11571\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11556"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11571"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=11571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}