{"id":11642,"date":"2022-08-02T09:00:00","date_gmt":"2022-08-02T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11642"},"modified":"2022-08-01T20:40:14","modified_gmt":"2022-08-01T23:40:14","slug":"entre-a-guerra-e-a-casa-as-mulheres-na-historia-de-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/entre-a-guerra-e-a-casa-as-mulheres-na-historia-de-cuba\/","title":{"rendered":"Entre a guerra e a casa: as mulheres na hist\u00f3ria de Cuba"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria cubana est\u00e1 marcada pelo protagonismo das mulheres. Nomes como o de Ana Betancourt, Mercedes Sirv\u00e9n P\u00e9rez e Adela Azcuy, ficaram c\u00e9lebres pela sua participa\u00e7\u00e3o nos processos revolucion\u00e1rios e pela defesa dos direitos das mulheres. Na primeira metade do s\u00e9culo XX, foram criados partidos e frentes nacionais feministas, e nas elei\u00e7\u00f5es de 1936 as cubanas puderam votar e serem votadas pela primeira vez. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1940 estabeleceu a igualdade de todos os cubanos perante a lei e o reconhecimento de diversos direitos, mas na pr\u00e1tica as mulheres tiveram que enfrentar diversos obst\u00e1culos para viver uma cidadania integral.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos iniciativas como \u201cMulheres na Hist\u00f3ria de Cuba\u201d ou \u201cMulheres que fazem hist\u00f3ria\u201d tem tentado recuperar e jogar luz sobre o importante legado das cubanas em diversas esferas. \u00c9 nesse contexto que o papel de contesta\u00e7\u00e3o que tiveram e sua participa\u00e7\u00e3o em momentos chave da hist\u00f3ria nacional como a Revolu\u00e7\u00e3o cubana assume especial relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As mulheres na Revolu\u00e7\u00e3o cubana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conquista e prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o duas faces essenciais da masculinidade em diferentes conflitos armados, o que torna a presen\u00e7a de mulheres entre combatentes amb\u00edgua, vista ora como sinal de fraqueza, ora como fonte de desejo. O caso da Revolu\u00e7\u00e3o cubana n\u00e3o \u00e9 diferente e, ao longo do processo revolucion\u00e1rio, guerrilheiras foram tratadas mais como problema do que como solu\u00e7\u00e3o, pois supostamente al\u00e9m de distra\u00edrem os homens, tamb\u00e9m precisariam de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, as mulheres foram designadas para posi\u00e7\u00f5es associadas a supostas \u201cqualidades pr\u00f3prias de seu sexo\u201d, atuando como enfermeiras, cozinheiras, costureiras, mensageiras, motoristas, propagandistas, buscando apoios e arrecadando armas, muni\u00e7\u00f5es e fundos. Fun\u00e7\u00f5es associadas muitas vezes ao cuidado que n\u00e3o eram menores ou acess\u00f3rias, muito pelo contr\u00e1rio, eram extremamente necess\u00e1rias \u00e0 continuidade do processo revolucion\u00e1rio, mas delegadas \u00e0s mulheres por parecer menos heroicas do que empunhar armas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, algumas mulheres se tornaram c\u00e9lebres no processo revolucion\u00e1rio. Hayd\u00e9e Santamar\u00eda \u00e9 uma delas. Participante do assalto ao Moncada, ent\u00e3o o quartel mais importante de Cuba, em 26 de julho de 1953, Hayd\u00e9e perdeu seu irm\u00e3o, Abel Santamar\u00eda, e seu noivo, Boris Santa Coloma, na opera\u00e7\u00e3o frustrada pelas tropas de Fulg\u00eancio Batista. Ambos foram presos, torturados e mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o ataque ao Moncada, Hayd\u00e9e foi designada para uma miss\u00e3o nos EUA em busca de armas e apoio financeiro. O trabalho de Randall (2015) sobre a autora revela diversas&nbsp; tens\u00f5es de g\u00eanero envolvidas no processo revolucion\u00e1rio. No texto, Hayd\u00e9e testemunha como certas formas de agir e vestir, hoje consideradas normais, estavam completamente proibidas para ela, que nunca foi somente Hayd\u00e9e, mas sobretudo a irm\u00e3 de Abel, a namorada de Boris e a pessoa ligada a Fidel. Como consequ\u00eancia, ela deveria redobrar os cuidados sobre seu comportamento, sob pena de impactar o movimento como um todo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hayd\u00e9e carregava consigo n\u00e3o somente a responsabilidade sobre seus atos, mas tamb\u00e9m dos homens e do pr\u00f3prio movimento que integrava. O \u201ccuidado\u201d ao qual se refere estaria no apagamento de sua imagem privada, para que essa n\u00e3o comprometesse a luta. Uma mulher que n\u00e3o poderia ser somente ela mesma porque se via respons\u00e1vel por todos aqueles que, por sua vez, julgavam ter que proteg\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel de g\u00eanero, refor\u00e7ado no caso de homens guerrilheiros \u2013 viris, desejantes, protetores e que empunhavam armas \u2013, deveria ser, em parte, anulado pelas mulheres guerrilheiras para que essas fossem respeitadas pelos seus e pelos demais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As mulheres na Cuba socialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre o Moncada e o 1\u00ba de janeiro de 1959, outras mulheres tamb\u00e9m passaram a demandar a participa\u00e7\u00e3o no processo revolucion\u00e1rio, especialmente no combate direto contra as for\u00e7as de Batista. Entre os nomes mais lembrados est\u00e3o C\u00e9lia S\u00e1nchez, Vilma Esp\u00edn, Aleida March e Isabel Rielo. Essa \u00faltima liderou o Pelot\u00e3o Mariana Grajales, criado em setembro de 1958, composto somente por mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Embora a historiografia cubana confira lugar de destaque a essas hero\u00ednas, ressaltando suas m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es no processo revolucion\u00e1rio, como afirma C\u00e1ssia Vassi (2007), a imagem que se fixou na luta contra a ditadura de Batista foi a dos tr\u00eas her\u00f3is \u2013 Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Che Guevara \u2013 entrando com tanques e fuzis em Havana.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte \u00e0 vit\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios, criou-se a <em>Federaci\u00f3n de Mujeres Cubanas<\/em> (FMC), unificando a Coluna Feminina Agr\u00e1ria, as Brigadas Femininas Revolucion\u00e1rias, as se\u00e7\u00f5es femininas do 26 de Julho e dos sindicatos sob a dire\u00e7\u00e3o de Vilma Esp\u00edn \u2013 contando tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o de Hayd\u00e9e. Para a organiza\u00e7\u00e3o, o novo lugar da guerrilheira era o de mulher-m\u00e3e enfim protegida e em paz para ajudar a construir uma nova sociedade, parindo e educando as futuras gera\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o. A guerrilheira, portanto, precisou existir para dar lugar \u00e0 m\u00e3e, com fam\u00edlia, lar, emprego e estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 Guerra Fria, com ataques de toda ordem perpetrados pelos EUA, a Revolu\u00e7\u00e3o aproximou-se cada vez mais do socialismo de matriz sovi\u00e9tica para garantir sua exist\u00eancia. Em 1966, ap\u00f3s a instaura\u00e7\u00e3o de um regime de partido \u00fanico, o Partido Comunista de Cuba (PCC) e a aproxima\u00e7\u00e3o com a URSS, a mulher cubana deveria assumir um novo papel: o de defender a p\u00e1tria dos ataques imperialistas, proteger a Revolu\u00e7\u00e3o socialista em marcha, mas tamb\u00e9m garantir a exist\u00eancia das gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n\n\n<p>O lugar da mulher no processo revolucion\u00e1rio cubano pode ser compreendido como multifacetado e constantemente negociado. Ora o apagamento de seu g\u00eanero para n\u00e3o comprometer a imagem do movimento ou gerar \u201cvontades incontrol\u00e1veis\u201d em seus membros, ora o refor\u00e7o do mesmo para garantir sua participa\u00e7\u00e3o na luta. Entre a guerra \u2013 que n\u00e3o pode ter rosto de mulher \u2013 e a casa \u2013 que precisa t\u00ea-lo. Transitar para sobreviver em um mundo de her\u00f3is viris e, muitas vezes, ainda ter que fazer mais do que todos eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, embora existam diversos avan\u00e7os, os desafios que enfrentam as mulheres cubanas para alcan\u00e7ar a igualdade plena s\u00e3o m\u00faltiplos. Cuba foi o primeiro pa\u00eds a assinar e o segundo a ratificar a Conven\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) sobre a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o contra a Mulher. Em termos pol\u00edticos, as<a href=\"https:\/\/www.prensa-latina.cu\/2022\/03\/19\/cuba-en-el-camino-a-la-igualdad-de-genero-conquistas-y-desafios\"> mulheres representam 51,1% da lideran\u00e7a do Estado e do governo e 53,2% da Assembleia Nacional do Poder Popular<\/a> (Parlamento).<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, em 2019, o Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edsticas e Informa\u00e7\u00f5es publicou dados da \u00faltima<a href=\"http:\/\/www.revistaccuba.cu\/index.php\/revacc\/article\/view\/678#:~:text=La%20Encuesta%20Nacional%20sobre%20Igualdad,existentes%20en%20diferentes%20%C3%A1mbitos%20sociales.\"> Pesquisa Nacional sobre Igualdade de G\u00eanero<\/a>, na qual 39,6% das mulheres disseram ter sido v\u00edtimas de viol\u00eancia em algum momento de suas vidas, destacando-se a viol\u00eancia psicol\u00f3gica e econ\u00f4mica como as principais formas de agress\u00e3o. Al\u00e9m disso, segundo a pesquisa, na Ilha ainda permanecem ideias estereotipadas sobre feminilidade e masculinidade e persistem as disparidades de g\u00eanero na carga total de trabalho entre homens e mulheres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A conquista e a prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o duas facetas essenciais da masculinidade nos conflitos armados, o faz com que a presen\u00e7a das mulheres entre os combatentes seja amb\u00edgua, vista \u00e0s vezes como um sinal de fraqueza ou como uma fonte de desejo. <\/p>\n","protected":false},"author":358,"featured_media":11635,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16899,16782,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-11642","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cuba-es-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/358"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11642\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11642"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=11642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}