{"id":11751,"date":"2022-08-09T09:00:00","date_gmt":"2022-08-09T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=11751"},"modified":"2022-08-08T20:37:03","modified_gmt":"2022-08-08T23:37:03","slug":"chile-pouco-tempo-para-enfrentar-um-conflito-longo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/chile-pouco-tempo-para-enfrentar-um-conflito-longo\/","title":{"rendered":"Chile: pouco tempo para enfrentar um conflito longo"},"content":{"rendered":"\n<p>O conflito entre o estado chileno e o povo mapuche transformou-se em uma problem\u00e1tica irresol\u00favel para todos os governos que desde 1990 t\u00eam tentado receitas similares com resultados fracassados. Planos de interven\u00e7\u00e3o grandiloquentes, repress\u00e3o ou f\u00fateis mesas de di\u00e1logo s\u00e3o algumas das pol\u00edticas que t\u00eam sido empregadas. O resultado? Um saldo abjeto de mortes, viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, presos, atentados incendi\u00e1rios e a militariza\u00e7\u00e3o das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras semanas do Governo Boric foram dif\u00edceis. A visita da Ministra do Interior Izkia Siches \u00e0 comunidade Temucuicui, da qual teve que sair apressadamente depois de disparos efetuados nas proximidades, foi seguida da ren\u00fancia de um assessor mapuche do governo e a subsequente implementa\u00e7\u00e3o do estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o governo lan\u00e7ou o Plano Buen Vivir com o qual pretende estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o distinta com os povos origin\u00e1rios, incentivando a restitui\u00e7\u00e3o de terras ou a reativa\u00e7\u00e3o do projeto do Minist\u00e9rio de Assuntos Ind\u00edgenas e dos investimentos, al\u00e9m de planos de seguran\u00e7a para enfrentar a viol\u00eancia, entre outras medidas. Ademais, o governo tem mantido sua disposi\u00e7\u00e3o de estabelecer um di\u00e1logo transversal para a solu\u00e7\u00e3o de um conflito que qualifica como pol\u00edtico e que, portanto, requer uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte do mencionado n\u00e3o se diferencia muito do que j\u00e1 foi implementado por outros governos. Seja pelo contexto pol\u00edtico ou pela press\u00e3o da direita, o caminho pol\u00edtico prometido desde a campanha continua sendo uma d\u00edvida, e nos pr\u00f3ximos dias ser\u00e1 discutida outra extens\u00e3o do estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um conflito que tem marcado todos os governos desde o regresso \u00e0 democracia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sabia-se que este seria um tema complexo de enfrentar durante o mandato do presidente Gabriel Boric. Havia uma mir\u00edade de problemas que herdou do governo de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era: as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos e abusos cometidos desde a revolta de outubro de 2019; os efeitos da pandemia na economia, e dirigir o pa\u00eds no contexto da reda\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 controversa. A isto se somava o conflito chileno-mapuche.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os governos p\u00f3s-ditatoriais t\u00eam experimentado esse confronto e nenhum conseguiu alcan\u00e7ar avan\u00e7os significativos. Sem ir mais longe, o governo de Boric, como seu predecessor, manteve o estado de exce\u00e7\u00e3o no sul do pa\u00eds, no epicentro do conflito. Um conflito que tem suas ra\u00edzes vergonhosas na hist\u00f3ria do Chile desde a invas\u00e3o militar dos territ\u00f3rios mapuches no final do s\u00e9culo XIX, eufemisticamente conhecida como a \u201cPacifica\u00e7\u00e3o da Araucan\u00eda\u201d. Isto foi seguido pelo subsequente processo de radicar e reduzir as comunidades e a coloniza\u00e7\u00e3o incentivada pelo estado dos territ\u00f3rios ocupados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.france24.com\/es\/programas\/en-5-minutos\/20220603-chile-conflicto-territorio-indigenas-mapuches\">Os mapuche foram subjugados de forma veemente<\/a> e integrados \u00e0 for\u00e7a ao novo estado-na\u00e7\u00e3o chileno. Sua cultura, l\u00edngua, cosmovis\u00e3o e hist\u00f3ria careciam de valor, sendo uma express\u00e3o tang\u00edvel de uma suposta barb\u00e1rie que, a prop\u00f3sito, se opunha \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o iluminada agenciada pelo liberalismo do s\u00e9culo XIX que a elite chilena imp\u00f4s ao pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre estas bases construiu-se uma rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o com o povo mapuche que nos anos 90 viu a emerg\u00eancia de um movimento que se tornou um ator pol\u00edtico constante, presente. Durante a transi\u00e7\u00e3o para a democracia e com a resist\u00eancia \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o do V centen\u00e1rio da conquista espanhola de fundo, este movimento emergiu como um ator com incid\u00eancia e confrontativo com o Estado e empresas florestais a partir de 1997, ap\u00f3s a queima de tr\u00eas caminh\u00f5es florestais nas comunidades de Pichiloncoyan e Pililmico, do setor de Lumaco, na regi\u00e3o de Araucan\u00eda, ao sul do Chile.<\/p>\n\n\n\n<p>Este foi um ponto de inflex\u00e3o para o movimento e sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado, mas tamb\u00e9m em termos de posicionamento de suas demandas na agenda, passando da demanda pela terra dos anos 70 para reivindicar seus direitos coletivos sobre o territ\u00f3rio e a autonomia como express\u00e3o do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Esta transi\u00e7\u00e3o se desenvolveu, ademais, de forma aut\u00f4noma, desvinculada da influ\u00eancia dos partidos pol\u00edticos chilenos.<\/p>\n\n\n\n<p>O come\u00e7o do s\u00e9culo XX foi testemunha de um movimento heterog\u00eaneo com manifesta\u00e7\u00f5es e repert\u00f3rios de a\u00e7\u00e3o coletiva de todo tipo, desde viol\u00eancia e sabotagem at\u00e9 a participa\u00e7\u00e3o em elei\u00e7\u00f5es. Esta multiplicidade de organiza\u00e7\u00f5es compartilha como objetivo a luta pelo territ\u00f3rio e autonomia do povo mapuche, al\u00e9m da convic\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio caminho, desvinculado do paternalismo dos partidos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o historiador mapuche Fernando Pairican, existiam duas vertentes ou almas. Por um lado, havia as organiza\u00e7\u00f5es gradualistas, entre as quais menciona Ad Mapu, a Identidade Territorial Lafkenche, a direitista ENAMA, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o na Conven\u00e7\u00e3o Constitucional. E, por outro lado, aquelas que qualifica como rupturistas, como o Comit\u00ea Coordenador das Comunidades em Conflito Arauco-Malleco (CAM), nascido no final dos anos 90, Weichan Auka Mapu e Resist\u00eancia Lafkenche, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2021, estas \u00faltimas implementaram processos de recupera\u00e7\u00e3o territorial, sabotagem de m\u00e1quinas e caminh\u00f5es florestais, assim como ataques a particulares, iniciando assim uma escalada de viol\u00eancia que n\u00e3o foi detida durante o governo de Boric. Pelo contr\u00e1rio, apesar das chamadas ao di\u00e1logo transversal e substantivo feitas pelo novo governo, as a\u00e7\u00f5es e a viol\u00eancia t\u00eam continuado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Gabriel Boric, o CAM emitiu um comunicado onde qualificava o governo de \u201cnova esquerda hippie, progressista e gente boa\u201d e manifestava seu direito de \u201cseguir resistindo e reivindicar a viol\u00eancia pol\u00edtica como um instrumento leg\u00edtimo de nossa luta, independente de quem esteja governando e que mantenha o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o capitalista e seu andaime colonial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Calcula-se, de forma n\u00e3o oficial, que durante 2022 houve pouco mais de 150 a\u00e7\u00f5es violentas no que se conhece como a macrozona sul. Isto levou o governo a insistir na renova\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do estado de emerg\u00eancia, contradizendo assim a desmilitariza\u00e7\u00e3o das comunidades que haviam proposto durante a campanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, \u00e9 complexo julgar o novo governo de forma taxativa ap\u00f3s apenas tr\u00eas meses e, de fato, pode ser que o processo constituinte n\u00e3o seja o mais apropriado para reformas desse tipo, impulsionadas pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/chile-transitando-para-um-estado-plurinacional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">est\u00e3o sendo disputadas transforma\u00e7\u00f5es substantivas e de longo prazo<\/a>, como assinala a primeira se\u00e7\u00e3o do artigo 1 da proposta de nova constitui\u00e7\u00e3o: \u201cChile \u00e9 um Estado social e democr\u00e1tico de direito. \u00c9 plurinacional, intercultural, regional e ecol\u00f3gico\u201d. Mas al\u00e9m dos resultados que s\u00e3o finalmente alcan\u00e7ados, parte importante desta conquista deve-se ao trabalho dos representantes mapuche na Conven\u00e7\u00e3o, muitos dos quais v\u00eam do que foi qualificada como a vertente gradualista do movimento autonomista mapuche.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conflito entre o Estado chileno e o povo mapuche tornou-se um problema irresol\u00favel para todos os governos que desde 1990 t\u00eam tentado receitas similares com resultados fracassados.<\/p>\n","protected":false},"author":138,"featured_media":11747,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16765,16767,14500,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-11751","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-chile-es-pt-br","8":"category-pueblos-indigenas-pt-br","9":"category-povos-indigenas","10":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/138"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11751\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11747"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11751"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=11751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}