{"id":12343,"date":"2022-09-19T09:00:00","date_gmt":"2022-09-19T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=12343"},"modified":"2022-09-19T05:41:14","modified_gmt":"2022-09-19T08:41:14","slug":"apaguemos-os-incendios-para-conter-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/apaguemos-os-incendios-para-conter-as-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"Apaguemos os inc\u00eandios para conter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautores&nbsp; Celso H. L. Silva-Junior, Marcus Vinicius Silveira, Liana Anderson<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dia no come\u00e7o de agosto de 2015, Yara de Paula, residente da \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental Raimundo Irineu Serra, no estado brasileiro do Acre, chegou em casa com sua rec\u00e9m-nascida quando o c\u00e9u j\u00e1 estava cinza com fuligem. Em minutos, o fogo estava a metros de sua casa. Para deter a fuma\u00e7a, tapou as frestas das janelas e portas com toalhas molhadas, enquanto seu marido continha as chamas com baldes de \u00e1gua. O inc\u00eandio felizmente n\u00e3o queimou sua casa, mas, desde ent\u00e3o, Yara e sua filha sofrem de bronquite asm\u00e1tica cr\u00f4nica. Este inc\u00eandio na Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. Em junho de 2022, s\u00f3 no estado do Acre foram mapeados<a href=\"https:\/\/www.sonairasilva.org\/acre-queimadas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> 196 km\u00b2 de \u00e1reas queimadas em zonas j\u00e1 desmatadas<\/a>, um n\u00famero que vem aumentando nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia t\u00eam causado<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3390\/rs14010069\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> um grande aumento nas admiss\u00f5es hospitalares por problemas respirat\u00f3rios<\/a>. De fato, a expectativa de vida na regi\u00e3o oeste da Amaz\u00f4nia \u00e9<a href=\"https:\/\/aqli.epic.uchicago.edu\/the-index\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> at\u00e9 tr\u00eas anos menor do que a das pessoas que vivem em outras partes do pa\u00eds<\/a>, inclusive em compara\u00e7\u00e3o com os grandes centros urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos problemas de sa\u00fade, esses inc\u00eandios n\u00e3o s\u00f3 levam \u00e0 perda da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, mas tamb\u00e9m arrasam com mais de 8.000 km\u00b2 de florestas ao ano, perdendo, assim, uma das maiores capacidades para mitigar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: o estoque de carbono na bacia do Amazonas. Ou seja, perde-se a capacidade de armazenar este g\u00e1s de efeito estufa. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m outros impactos: estas florestas s\u00e3o empobrecidas em termos de biodiversidade e n\u00e3o conseguem se recuperar totalmente a longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um ciclo vicioso de consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/as-vitimas-do-aquecimento-global-nao-estao-ouvindo-falar-de-mudanca-climatica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">fogo e o desmatamento est\u00e3o acabando com a maior floresta tropical do mundo<\/a>. Isto est\u00e1 acelerando as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, tornando o clima nesta regi\u00e3o mais seco e quente, e tornando as florestas mais vulner\u00e1veis aos inc\u00eandios. Isto gerou<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/articles\/nature01437\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> um ciclo vicioso<\/a>, em que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tornam as florestas tropicais mais vulner\u00e1veis aos inc\u00eandios, e o fogo, cada vez mais presente, aumenta as emiss\u00f5es CO\u2082, o que implica na piora das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do clima local e regional.<\/p>\n\n\n\n<p>Os registros de inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia batem recordes ano ap\u00f3s ano. Entre 1985 e 2020, se queimou aproximadamente 16% do bioma. Em m\u00e9dia, <a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2072-4292\/14\/11\/2510\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">s\u00e3o queimados mais de 65.000 km\u00b2 por ano na Amaz\u00f4nia brasileira<\/a>, uma superf\u00edcie maior do que a da Costa Rica. Ademais, grande parte desses inc\u00eandios alcan\u00e7am as florestas nativas, algo surpreendente, considerando que a Amaz\u00f4nia \u00e9 formada, em sua maioria, por floresta tropical onde o fogo dificilmente se produziria de forma natural e muito menos se propagaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas atingiram com for\u00e7a a regi\u00e3o, e o aumento de temperatura em algumas regi\u00f5es como <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41586-021-03629-6\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">no sudoeste da Amaz\u00f4nia alcan\u00e7a 2,5\u00baC<\/a> durante os meses de esta\u00e7\u00e3o seca. Na regi\u00e3o leste, por outro lado, a chuva diminuiu em mais de 30% durante os meses mais secos do ano. Al\u00e9m disso, as secas extremas s\u00e3o cada vez mais frequentes (neste s\u00e9culo, elas t\u00eam ocorrido a cada 5 anos), fazendo com que \u00e1reas maiores de floresta sejam queimem, e a que continua saud\u00e1vel se torne cada vez mais vulner\u00e1vel aos inc\u00eandios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No passado, o Brasil mostrou que \u00e9 poss\u00edvel diminuir o desmatamento na Amaz\u00f4nia brasileira, principalmente atrav\u00e9s da implementa\u00e7\u00e3o, em 2004, do Plano de A\u00e7\u00e3o para a Preven\u00e7\u00e3o e Controle do Desmatamento na Amaz\u00f4nia (PPCDAm). No entanto, tamb\u00e9m demonstrou que o avan\u00e7o na agenda ambiental \u00e9 fr\u00e1gil e muito suscet\u00edvel ao cen\u00e1rio pol\u00edtico. De fato, os reveses dos \u00faltimos anos fizeram com que, em 2021, ocorresse <a href=\"http:\/\/www.obt.inpe.br\/OBT\/assuntos\/programas\/amazonia\/prodes\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o maior \u00edndice de desmatamento na Amaz\u00f4nia brasileira dos \u00faltimos 15 anos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os inc\u00eandios florestais contribuem para o aumento de CO\u2082.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De todos os impactos negativos, talvez o de maior preocupa\u00e7\u00e3o seja a contribui\u00e7\u00e3o dos inc\u00eandios florestais ao aumento de CO\u2082 na atmosfera, o que tem um impacto direto nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Diferente do desmatamento, o fogo n\u00e3o leva necessariamente a mudan\u00e7as no uso da terra. A floresta pode queimar e permanecer de p\u00e9, mas sem as caracter\u00edsticas de uma floresta saud\u00e1vel e<a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/10.1098\/rstb.2018.0043\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> emitindo carbono para a atmosfera durante d\u00e9cadas<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro efeito \u00e9 que estas florestas diminuem sua capacidade de bombear \u00e1gua para a atmosfera. Esta \u00e9 uma parte importante do ciclo hidrol\u00f3gico, j\u00e1 que contribui com a chuva, que \u00e9 fundamental tanto para as \u00e1reas agr\u00edcolas do Brasil, do Uruguai e da Argentina, quanto para a gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta emiss\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 diretamente associada ao desmatamento, pode representar uma quantidade superior \u00e0 metade da produzida pelo desmatamento de florestas prim\u00e1rias durante os anos de seca. Portanto, a crescente suscetibilidade aos inc\u00eandios gerados pelas secas e a proje\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es futuras mais secas fazem com que as emiss\u00f5es de carbono na Amaz\u00f4nia sejam dominadas pelos inc\u00eandios florestais. Al\u00e9m disso, uma vez que o meio ambiente se torna mais inflam\u00e1vel, aumenta a probabilidade de os inc\u00eandios intencionais (tradicionalmente utilizados de forma controlada pelas comunidades locais) alcancem as florestas adjacentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudar esta tend\u00eancia \u00e9 fundamental tanto para mitigar como para se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em escala mundial. Mas a busca de solu\u00e7\u00f5es deve levar em conta as principais raz\u00f5es que levam ao uso intenso dos inc\u00eandios na regi\u00e3o: o desmatamento ilegal e a manuten\u00e7\u00e3o dos pastos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, investir em recursos para promover alternativas ao uso do fogo na agricultura \u00e9 fundamental para prevenir os inc\u00eandios florestais na Amaz\u00f4nia. Estima-se que, em m\u00e9dia,<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/geb.13577\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> um ter\u00e7o da \u00e1rea total queimada<\/a> anualmente na Amaz\u00f4nia corresponde a \u00e1reas agr\u00edcolas. Na Amaz\u00f4nia brasileira, a grande maioria das \u00e1reas agr\u00edcolas correspondem a zonas de pastos manejadas com baixa tecnologia e conhecimentos t\u00e9cnicos, o que significa que o fogo \u00e9 frequentemente utilizado para a renova\u00e7\u00e3o dos pastos degradados e, com isso, os riscos de inc\u00eandios florestais aumentam.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o uso do fogo na agricultura \u00e9 proibido por lei, salvo nos casos de agricultura de subsist\u00eancia, e requer a aprova\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o ambiental. Em 2020, apesar do<a href=\"https:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/decreto-n-10.424-de-15-de-julho-de-2020-267035345\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> governo ter estabelecido um decreto<\/a> que proibia a sua autoriza\u00e7\u00e3o pelas ag\u00eancias durante 120 dias, os inc\u00eandios se mantiveram nos altos n\u00edveis de 2019. Isto demonstra que o uso do fogo na regi\u00e3o \u00e9 majoritariamente ilegal e recebe pouca supervis\u00e3o. Portanto, a luta contra a ilegalidade deve ser alinhada com a amplia\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia aos produtores rurais para fomentar pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis que aumentem a produtividade a fim de substituir o uso do fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil deve adotar medidas urgentes para romper o ciclo vicioso onde o fogo est\u00e1 transformando o entorno em seu pr\u00f3prio combust\u00edvel. As repercuss\u00f5es socioecon\u00f4micas e ambientais dos inc\u00eandios florestais s\u00e3o amplas, e, portanto, n\u00e3o modificar esta situa\u00e7\u00e3o sup\u00f5e ir contra ao que se espera de uma na\u00e7\u00e3o comprometida com o desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Ana Carolina M. Pess\u00f4a \u00e9 bi\u00f3loga e pesquisadora assistente do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais no Brasil.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Celso H. L. Silva-Junior \u00e9 engenheiro ambiental e pesquisador de p\u00f3s-doutorado no Institute for Environment and Sustainability da Universidade da Calif\u00f3rnia, Los Angeles | UCLA, EUA.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Marcus Vinicius Silveira \u00e9 engenheiro florestal e estudante de doutorado em sensoriamento remoto no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Liana Anderson \u00e9 bi\u00f3loga e pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Brasil.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada ano, os inc\u00eandios destroem mais de 8.000 km\u00b2 de floresta, reduzindo o estoque de carbono da Amaz\u00f4nia, uma de suas maiores capacidades para mitigar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"author":378,"featured_media":12334,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16728,16719,16751,14475,14456,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-12343","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"category-debates-pt-br","10":"category-medioambiente-pt-br","11":"category-mudanca-climatica","12":"category-meio-ambiente","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/378"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12343"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12343\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12343"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=12343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}