{"id":12554,"date":"2022-10-04T15:00:00","date_gmt":"2022-10-04T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=12554"},"modified":"2022-10-04T17:49:20","modified_gmt":"2022-10-04T20:49:20","slug":"ferido-a-bala-o-brasil-e-posto-em-xeque-pelo-obscurantismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ferido-a-bala-o-brasil-e-posto-em-xeque-pelo-obscurantismo\/","title":{"rendered":"Ferido \u00e0 bala: o Brasil \u00e9 posto em xeque pelo obscurantismo"},"content":{"rendered":"\n<p>A<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/eleicoes\/2022\/noticia\/2022\/10\/03\/1o-turno-das-eleicoes-de-2022-comentaristas-do-g1-e-da-globonews-avaliam-resultados-veja-videos.ghtml\"> direita moderada foi enterrada<\/a>, como disse a jornalista Andrea Sadi da Globonews. No Senado foram disputadas 1\/3 das vagas e quem mais perdeu assentos foram partidos de centro como PSDB, PROS, PSD e MDB. O bolsonarismo cresceu tanto no Senado que, segundo um levantamento da<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/foro-de-teresina-no-1o-turno\/\"> Revista Piau\u00ed<\/a>, agora j\u00e1 tem os n\u00fameros necess\u00e1rios para votar processos de impeachment de ministros do STF. De fato, dos 20 candidatos ao Senado apoiados por Bolsonaro, 14 foram eleitos. Dos 27 apoiados pelo Lula, embora n\u00e3o sempre de forma t\u00e3o expl\u00edcita, apenas 8 conseguiram assentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo se refor\u00e7ou ainda mais no Congresso em rela\u00e7\u00e3o a 2018, tendo obtido 99 cadeiras e conseguindo a maior bancada da casa. Entre os nomes mais conhecidos, foram eleitos perseguidores da esquerda via <em>lawfare<\/em>, parlamentares e ex-ministros do governo Bolsonaro com posturas abertamente fundamentalistas religiosas, contra os direitos humanos, antidemocr\u00e1ticas e negacionistas sobre ci\u00eancia, pandemia e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>As campanhas presidenciais foram pautadas principalmente no antibolsonarismo e no antipetismo. Como ficou claro pelos debates presidenciais na TV, n\u00e3o houve confronto de ideias e programas que colocassem ao centro os problemas reais dos brasileiros, como se pedissem um cheque em branco at\u00e9 o final da elei\u00e7\u00e3o. Assim, os relatos dos candidatos ficaram abstratos e sugerem, por exemplo, que o problema da fome se resolveria elegendo Lula, em lugar de falar sobre como refazer concretamente o que se fez no auge do Programa Fome Zero de seu governo. Para outros, a corrup\u00e7\u00e3o se resolveria votando em Bolsonaro ou em Ciro Gomes (PDT), em lugar de debater sobre como fortalecer os mecanismos de controle e transpar\u00eancia que propiciaram, entre outras coisas, que jornalistas e o Minist\u00e9rio P\u00fablico conseguissem descobrir problemas nas contas p\u00fablicas e na atua\u00e7\u00e3o de governos nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A esquerda parece ter esquecido a pr\u00e1tica b\u00e1sica de apontar os problemas da classe trabalhadora e suas solu\u00e7\u00f5es e meios para oper\u00e1-las. Uma elei\u00e7\u00e3o pautada quase que exclusivamente na aniquila\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do advers\u00e1rio, emburrece a popula\u00e7\u00e3o e a aliena de sua realidade, fortalecendo ainda mais tudo o que est\u00e1 por tr\u00e1s da l\u00f3gica bolsonarista. Nessa linha, o estilo de campanha corrosivo usado pelo Ciro s\u00f3 amplificou essa tend\u00eancia, provocando o pior desempenho de todas as elei\u00e7\u00f5es disputadas por ele at\u00e9 o presente (3,04%), muito provavelmente pelo voto \u00fatil \u00e0 direita de seus eleitores e pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda que ele causou.<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo obscurantista se fortaleceu no primeiro turno, tanto no Senado quanto no Congresso, pois sem o debate de problemas reais, ideias e solu\u00e7\u00f5es para o Brasil, a l\u00f3gica de oposi\u00e7\u00e3o a figuras e partidos espec\u00edficos premia l\u00edderes de subculturas que despertam paix\u00f5es viscerais nos eleitores. Por outro lado, a federa\u00e7\u00e3o PT, PCdoB e PV tamb\u00e9m conseguiu um \u00f3timo resultado, com 80 assentos, 12 a mais do que a bancada atual. A bancada da federa\u00e7\u00e3o do PSOL e da Rede Sustentabilidade tamb\u00e9m cresceu, obtendo 14 deputados, 4 a mais da atual. Os mais votados tanto da direita quando da esquerda foram os que mais radicalizaram o pr\u00f3prio discurso, sem medo de perder eleitores. Com radicaliza\u00e7\u00e3o do discurso se entende os que consolidaram um p\u00fablico amplo apontando com mais clareza quem s\u00e3o os inimigos e os aliados do povo brasileiro, quais problemas s\u00e3o dignos de aten\u00e7\u00e3o e quais solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mais indicadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a mera fama e a influ\u00eancia nas m\u00eddias digitais n\u00e3o bastam para explicar o resultado desse primeiro turno. Candidatos como atores, cantores de sucesso e influenciadores digitais n\u00e3o conseguiram ser eleitos. Personagens de segundo plano da pol\u00edtica tiveram resultados melhores que as celebridades. Nem a mobiliza\u00e7\u00e3o em massa de famosos deu ao Lula a for\u00e7a necess\u00e1ria para vencer Bolsonaro no plano das ideias e derrota-lo j\u00e1 primeiro turno, embora isso n\u00e3o tenha acontecido por apenas 1,57 pontos percentuais. Em estados como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, dois dos tr\u00eas maiores col\u00e9gios eleitorais do pa\u00eds onde o bolsonarismo tem mais for\u00e7a, a participa\u00e7\u00e3o das celebridades nas campanhas da esquerda tamb\u00e9m n\u00e3o surtiu o efeito esperado. Em ambos os estados, celebridades candidatas n\u00e3o foram eleitas e as pesquisas n\u00e3o previram a for\u00e7a da direita nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a pouca efetividade da participa\u00e7\u00e3o das celebridades tenha ocorrido tamb\u00e9m em outros estados, afetando o desempenho de candidatos ao Senado, Congresso, assembleias legislativas e governos estaduais, a nacionaliza\u00e7\u00e3o das campanhas estaduais, bem como uma campanha baseada s\u00f3 na necessidade de aniquilar pol\u00edtica do outro, tamb\u00e9m gerou um enquadramento da realidade que terminou limitando o crescimento de muitas candidaturas de esquerda e de centro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, haver\u00e1 segundo turno. O candidato de Bolsonaro, Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos), ficou inesperadamente em primeiro lugar com 42,32% dos votos, contra 35,70% de Fernando Haddad (PT). Tarc\u00edsio sequer tem carreira pol\u00edtica em S\u00e3o Paulo. Ele \u00e9 do Rio de Janeiro e mudou de estado apenas para disputar o governo. Tendo feito a sua mudan\u00e7a de domic\u00edlio eleitoral recentemente,<a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/politica\/tarcisio-de-freitas-nao-consegue-se-lembrar-do-local-onde-vota-em-sp-durante-entrevista\/\"> em uma entrevista \u00e0 Rede Vanguardia<\/a>, Tarc\u00edsio n\u00e3o soube responder em que local e bairro de S\u00e3o Paulo est\u00e1 cadastrado para votar.<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio de Janeiro Cl\u00e1udio Castro (PL) venceu no primeiro turno contra Marcelo Freixo (PSB) com 58,67% contra 27,38% dos votos. No estado, uno dos eventos de campanha de Marcelo Freixo sem a presen\u00e7a de Lula com maior potencial medi\u00e1tico, teve pouco p\u00fablico, embora contasse com a presen\u00e7a de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, F\u00e1bio Porchat, Greg\u00f3rio Duvivier, entre outros. No mapa dos votos de Freixo no Rio de Janeiro, o candidato foi amplamente votado apenas na capital, mostra de que nem os influenciadores que apoiavam a campanha conseguiram dar capilaridade e alcance \u00e0s ideias do candidato em outras regi\u00f5es do estado. Mesmo o advers\u00e1rio de Freixo sendo o atual governador do estado, envolvido em diversos esc\u00e2ndalos de desvio de verba p\u00fablica, corrup\u00e7\u00e3o e com cinco de seus secret\u00e1rios presos, perdeu no primeiro turno para ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em boa parte dos estados, a campanha nacional parasitou as campanhas estaduais, nacionalizando um debate que deveria ter ficado no \u00e2mbito local. Tanto no Rio de Janeiro como em S\u00e3o Paulo, por exemplo, os candidatos Freixo e Haddad deram centralidade demais ao antibolsonarismo em suas campanhas, especialmente em dois estados onde os apoiadores do presidente s\u00e3o t\u00e3o numerosos. Isso terminou prejudicando as suas respectivas campanhas ao reativar um enquadramento antipetista de 2018 que era melhor ter deixado adormecido. Por outro lado, ao nacionalizarem a campanha estadual, especialmente no Rio de Janeiro, a campanha local se viu desidratada. Do ponto de vista da economia da aten\u00e7\u00e3o, os pr\u00f3prios candidatos da esquerda sugeriram implicitamente aos eleitores que o terreno de luta mais importante era o nacional, o que fez convergir as a\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas nas m\u00eddias sociais quase que exclusivamente ao embate Lula VS Bolsonaro. Eles mesmos foram os respons\u00e1veis por ter drenado a energia da milit\u00e2ncia do debate estadual, direcionando-a majoritariamente ao debate nacional. Com isso, as campanhas estaduais se tornaram abstratas, pouco intelig\u00edveis e perderam alcance e capilaridade no territ\u00f3rio, n\u00e3o conseguindo fazer as pessoas sentirem a import\u00e2ncia do voto \u00e0 esquerda em seus estados.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora seja muito maior o desafio de Bolsonaro para uma menos prov\u00e1vel vit\u00f3ria no segundo turno, Lula ainda enfrenta alguns obst\u00e1culos estaduais, especialmente onde os palanques de seus aliados foram eliminados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campanha foi impulsionada principalmente pelo antibolsonarismo e antipetismo e n\u00e3o houve confronto de ideias sobre os problemas reais do pa\u00eds. <\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":12549,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16728,16780,14397,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-12554","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil-pt-br","8":"category-elecciones-parlamentarias-pt-br","9":"category-eleicoes","10":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12554","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12554"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12554\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12554"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12554"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12554"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=12554"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}