{"id":12662,"date":"2022-10-13T09:00:00","date_gmt":"2022-10-13T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=12662"},"modified":"2022-10-14T13:57:06","modified_gmt":"2022-10-14T16:57:06","slug":"xenofobia-a-nordestinos-nao-pode-chamar-de-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/xenofobia-a-nordestinos-nao-pode-chamar-de-racismo\/","title":{"rendered":"Xenofobia a nordestinos? N\u00e3o. Pode chamar de racismo"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de novo debaixo do sol: a cada elei\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria, os votos oriundos da regi\u00e3o Nordeste s\u00e3o apontados como sendo motivados pelo assistencialismo quando n\u00e3o da simpl\u00f3ria e grosseira denomina\u00e7\u00e3o de burrice ou, recentemente, do analfabetismo. A<a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/blogs\/escrevinhador\/2011\/9\/20\/incrivel-sequncia-de-capas-da-veja-38767.html\"> capa da revista Veja em 2006<\/a>, afirmava que uma mulher negra e nordestina iria decidir a elei\u00e7\u00e3o. O que tem me chamado aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a denomina\u00e7\u00e3o de <em>xenofobia<\/em> \u00e0 avers\u00e3o ao nordestino recorrente em artigos e reportagens circulando pelas redes atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/sempre-fomos-racistas-no-brasil\/\">O racismo \u00e9 um princ\u00edpio fundante do projeto de na\u00e7\u00e3o brasileiro<\/a>. O final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX estiveram sob a influ\u00eancia das teorias eug\u00eanicas e naturalistas de melhoramento racial, onde se l\u00ea a busca pelo \u2018embranquecimento\u2019 da popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a brasileira, e a ado\u00e7\u00e3o de modelos urbanos e de novos par\u00e2metros econ\u00f4micos. \u00c9 na busca desses novos modelos urbanos e econ\u00f4micos que se enra\u00edzam o lugar de atraso econ\u00f4mico e social ao nordeste brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo, quero apontar onde se ancoram no\u00e7\u00f5es que repartem o pa\u00eds em divis\u00f5es de arcaico\/moderno, sendo o primeiro representado pela regi\u00e3o Nordeste e o segundo focado nas regi\u00f5es Sudeste e Sul. Sem ignorar as raz\u00f5es que consagram esse vi\u00e9s hist\u00f3rico brasileiro, o foco est\u00e1 em problematizar a validade de algumas representa\u00e7\u00f5es que envolvem \u00e0 identidade e alteridade nacionais nos textos de m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/vemos-a-invasao-da-ucrania-e-o-mundo-com-olhos-emprestados\/\"> cr\u00edtica ao eurocentrismo<\/a>, os autores<a href=\"https:\/\/www.routledge.com\/Unthinking-Eurocentrism-Multiculturalism-and-the-Media\/Shohat-Stam\/p\/book\/9780415538619\"> Ella Shohat e Robert Stam<\/a> demonstram por meio da an\u00e1lise das imagens do cinema hollywoodiano, que vivemos inseridos numa l\u00f3gica que consagra o retrato do branco europeu como a est\u00e9tica normativa e como ber\u00e7o dos valores considerados, no \u00e2mago do imagin\u00e1rio ocidental euroc\u00eantrico, s\u00edmbolos do aprimoramento civilizacional, tais como racionalidade, l\u00f3gica e cultura letrada formal. Seguindo este pensamento, as sociedades no passado colonizadas continuam hegemonicamente sendo representadas a partir do lugar da alteridade, sendo poss\u00edvel identificar nessas imagens resqu\u00edcios de racismos, hierarquiza\u00e7\u00f5es sociais e preconceitos culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em<a href=\"https:\/\/revistas.unisinos.br\/index.php\/fronteiras\/article\/view\/5370\"> pesquisa publicada em 2008<\/a>, analisei as produ\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas daquele momento sob a perspectiva cr\u00edtica elaborada pelos autores acima citados para analisar a produ\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro localizada no eixo entre Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Destaquei a perman\u00eancia de um posicionamento hegem\u00f4nico que transfere os v\u00edcios do olhar constru\u00eddo ao longo de uma hierarquia euroc\u00eantrica sobre as margens e periferias do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi desta forma que nos acostumamos a associa\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas: o Nordeste \u00e9 uma \u00fanica regi\u00e3o compacta, sem distin\u00e7\u00f5es socioculturais entre seus estados membros, sem vest\u00edgio de urbanidade, descolado dos h\u00e1bitos de modernidade, habitado por seres caricatur\u00e1veis, ora representados sob a chancela do cangaceiro ou do faminto, v\u00edtima f\u00e1cil de pol\u00edticos e da compra de votos. Essas generaliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o exclusivas \u00e0 regi\u00e3o Nordeste, se pensarmos em incluir a regi\u00e3o Norte, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Recupera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e trabalho comunicacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Nordeste brasileiro foi a regi\u00e3o que representou o desenvolvimento econ\u00f4mico nos primeiros momentos da coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil. Essa produ\u00e7\u00e3o assentava-se em algumas premissas como a exist\u00eancia de grandes propriedades centrada nas m\u00e3os de colonos que se dispunham a vir para a nova terra, a monocultura, o trabalho escravizado, entre outras. Naquele momento, a emigra\u00e7\u00e3o europeia para os engenhos de a\u00e7\u00facar era pouco atrativa, diferente do que come\u00e7ou a ocorrer a partir da ascens\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o e, posteriormente, com a economia cafeeira.<\/p>\n\n\n\n<p>A centraliza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es pol\u00edticas no Sudeste do pa\u00eds, seguida pelos primeiros passos da industrializa\u00e7\u00e3o nacional, confirma uma situa\u00e7\u00e3o de desigualdade regional. A desqualifica\u00e7\u00e3o de um excedente de m\u00e3o-de-obra origin\u00e1ria principalmente do contingente escravo, imbu\u00edda de preconceitos racistas nascidos no pensamento naturalista e embasados pelos discursos oficiais, sugeria a inferioridade racial, n\u00e3o s\u00f3\u0301 do negro, mas tamb\u00e9m do mesti\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse momento tamb\u00e9m que se consolida no Brasil o ide\u00e1rio de progresso e desenvolvimento, destaque para Euclides da Cunha, e <em>Os Sert\u00f5es <\/em>(1902). A obra \u00e9 apontada por Albuquerque Jr. um marco, pois se inicia com ela a busca pelas nossas origens no sentido do entendimento do que constituiria o nacional e apreens\u00e3o de um territ\u00f3rio praticamente inexplorado e uma gente pouco conhecida, o sert\u00e3o e os sertanejos. Segundo Albuquerque Jr., autor de A Inven\u00e7\u00e3o do Nordeste e outras artes, \u201cem Euclides aparece formulado o par de opostos que vai perpassar os discursos sobre nossa nacionalidade: o paulista versus o sertanejo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, sob a influ\u00eancia das teorias eug\u00eanicas e naturalistas de melhoramento racial, se l\u00ea\u0302 a busca pelo \u201cembranquecimento\u201d da popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a brasileira, pela ado\u00e7\u00e3o de modelos urbanos e de novos par\u00e2metros econ\u00f4micos. J\u00e1\u0301 com o in\u00edcio do Estado Novo, tendo \u00e0 frente o presidente Get\u00falio Vargas, pode-se perceber a ascens\u00e3o do discurso de conquista e desbravamento, quando convoca a na\u00e7\u00e3o para a marcha rumo ao sert\u00e3o, para que possamos conquistar a nossa unidade, tanto territorial como racial.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, entre as d\u00e9cadas 1920 e 1940 crescem os relatos de viagens desbravadoras aos chamados \u201crinc\u00f5es\u201d. Estes relatos passam a ser disseminados em jornais como <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, por exemplo, e, dessa forma, come\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o de um \u201clugar de fala\u201d para o Nordeste, tomado como alteridade nacional, como o pitoresco e o diferente. Al\u00e9m disso, o tema da migra\u00e7\u00e3o, decorrente do empobrecimento regional, adquire f\u00f4lego, e o migrante nordestino, pobre e mesti\u00e7o em sua maioria, representa um inc\u00f4modo que se contrap\u00f5e notadamente ao imigrante europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse o contexto que os debates em torno da identidade nacional s\u00e3o implementados, num claro deslocamento e substitui\u00e7\u00e3o de modelos, em busca daquilo que, segundo Marilena Chau\u00ed\u0301, nos faria plenos, ou desenvolvidos: \u201ca identidade do Brasil, constru\u00edda na perspectiva do atraso ou do subdesenvolvimento, \u00e9 dada pelo que lhe falta, pela priva\u00e7\u00e3o daquelas caracter\u00edsticas que o fariam pleno e completo, isto \u00e9, desenvolvido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atraso, progresso e imagina\u00e7\u00e3o: o nordestino \u00e9 um estrangeiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o mapa eleitoral da regi\u00e3o Nordeste atualmente parece ser mais resultado da implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas emancipat\u00f3rias do que da perman\u00eancia do assistencialismo. Bolsa fam\u00edlia, programa de cisternas e investimento em educa\u00e7\u00e3o, nos 3 n\u00edveis, transformaram a o contexto nordestino nas \u00faltimas d\u00e9cadas e tornaram esta popula\u00e7\u00e3o muito mais atenta, uma vez que t\u00eam a realidade e a hist\u00f3ria como par\u00e2metros para compara\u00e7\u00e3o.Logo, me parece inadequada a denomina\u00e7\u00e3o de <em>Xenofobia<\/em> ao preconceito ao Nordeste e seus habitantes. Primeiro, pela sua etimologia. <em>Xeno<\/em> se refere ao estrangeiro. Nordestinos, se acatarmos o neologismo, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o discursiva e imagin\u00e1ria nacional ancorada em hierarquiza\u00e7\u00f5es raciais e na perman\u00eancia da dicotomia entre atraso e progresso. Segundo, que, ao associar o termo xenofobia a um grupo populacional nativo, estamos inventando termos novos e esvaziando uma luta fundamental. Localizar o preconceito contra nordestinos como express\u00e3o racista \u00e9 suficiente para conscientiza\u00e7\u00e3o do que nos acomete desde sempre: o racismo e suas deriva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada de novo sob o sol. Em cada elei\u00e7\u00e3o, os votos do nordeste brasileiro s\u00e3o apontados como resultado do assistencialismo, se n\u00e3o da estupidez ou do analfabetismo. <\/p>\n","protected":false},"author":208,"featured_media":12660,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16786,16728,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-12662","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-racismo-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/208"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12662"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12662\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12660"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12662"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=12662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}