{"id":12798,"date":"2022-10-25T09:00:00","date_gmt":"2022-10-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=12798"},"modified":"2022-10-24T11:29:00","modified_gmt":"2022-10-24T14:29:00","slug":"a-bolsonarizacao-do-kirchnerismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-bolsonarizacao-do-kirchnerismo\/","title":{"rendered":"A bolsonariza\u00e7\u00e3o do kirchnerismo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautor Ezequiel Raimondo<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca se saber\u00e1 se as elei\u00e7\u00f5es fracassadas de Lula no primeiro turno frustraram mais seus correligion\u00e1rios do PT no Brasil ou seus admiradores dentro das filas do kirchnerismo na Argentina. A imagem do governador Kiciloff fazendo campanha pr\u00f3-Lula com uma foto em tamanho real do brasileiro vai al\u00e9m de uma aposta t\u00e1tica de ampliar a rede de conten\u00e7\u00e3o dos governos autodenominados de esquerda da regi\u00e3o. Ela transmite a cren\u00e7a do kirchnerismo de que as gest\u00f5es de Lula e Cristina Fernandez de Kirchner eram g\u00eameas, caracterizando um modelo de governan\u00e7a e uma proposta de ordem pol\u00edtica id\u00eantica, em oposi\u00e7\u00e3o \u2013 por exemplo \u2013 ao bolsonarismo e movimentos similares em ambos os lados da fronteira. Mas o kirchnerismo e o petismo s\u00e3o realmente t\u00e3o parecidos quanto o kirchnerismo e o bolsonarismo s\u00e3o diferentes?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que gostariam de aparentar, os oficialismos atuais na Argentina e no Brasil se assemelham muito mais do que eles gostariam de admitir. Pelo menos em rela\u00e7\u00e3o a como pensam o funcionamento e o papel da sociedade e sua composi\u00e7\u00e3o, e sobre qual \u00e9 o papel das institui\u00e7\u00f5es independentes do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonarismo e Kirchnerismo coincidem em sua vis\u00e3o instrumental das entidades estatais aut\u00f4nomas concebidas como polias de transmiss\u00e3o de ordens do Executivo, para as quais devem ser colonizadas. A sociedade \u00e9 entendida como composta exclusivamente de dois elementos: uma pluralidade de grupos de interesse organizados, apropriadores dos recursos monet\u00e1rios, comunicacionais e de lideran\u00e7a a quem submete, coopta ou exclu\u00ed, e uma massa fragmentada relativamente indiferenciada que se clienteliza e subordina com favores e d\u00e1divas, ativando-a ou desmobilizando-a segundo suas necessidades. E se resiste ou n\u00e3o se alinha, torna-se merecedora da subjuga\u00e7\u00e3o com regula\u00e7\u00f5es ad hoc, controles caprichosos e autorit\u00e1rios ou a\u00e7\u00e3o disciplinar punitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro e os Fernandez \u2013 com discursos diferentes \u2013 se esmeraram na aplica\u00e7\u00e3o da mesma receita: <a href=\"https:\/\/midianinja.org\/observatorioeleicoes\/por-que-o-auxilio-brasil-turbinado-nao-ajudou-bolsonaro-entre-os-mais-pobres\/\">depend\u00eancia da sociedade e utilitarismo dos mecanismos estatais de governan\u00e7a p\u00fablica<\/a>. No Brasil, a militariza\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rios, secretarias, empresas p\u00fablicas ou de capital misto onde o Estado brasileiro \u00e9 acionista majorit\u00e1rio \u00e9 um exemplo. De pouco mais de dois mil militares em cargos p\u00fablicos durante a administra\u00e7\u00e3o Temer, em apenas alguns anos foram mais de 6.500, e hoje ultrapassam os 8 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>Este corporativismo emula a coloniza\u00e7\u00e3o do Estado por militantes e simpatizantes kirchneristas e adeptos dos movimentos sociais, aos quais \u00e9 dada autoridade executiva formal nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias de governan\u00e7a da estrutura estatal. Segundo dados do Minist\u00e9rio do Trabalho argentino, s\u00f3 nos dois primeiros anos de gest\u00e3o dos Fern\u00e1ndez, 134.300 pessoas foram adicionadas ao emprego p\u00fablico em todos os n\u00edveis, um aumento de 4,2% enquanto o PIB se manteve estagnado e o emprego privado retrocedeu durante esse per\u00edodo. Apesar da amplia\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina estatal durante os anos Lula, nunca os governos do PT permitiram um processo semelhante de coloniza\u00e7\u00e3o militante ou corporativista em escala similar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta instrumentaliza\u00e7\u00e3o se estende a questionamentos e tentativas de limita\u00e7\u00e3o ou subordina\u00e7\u00e3o de autarquias ou poderes aut\u00f4nomos. Em plena pandemia, Bolsonaro buscou a submiss\u00e3o do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) a suas prescri\u00e7\u00f5es sem provas cient\u00edficas, ao mesmo tempo em que buscou a obedi\u00eancia da autoridade sanit\u00e1ria Anvisa, transformando suas vis\u00f5es em prioridades do pa\u00eds em termos de pol\u00edtica de imunidade e vigil\u00e2ncia end\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, assim que chegou ao poder, o presidente brasileiro amea\u00e7ou e buscou redefinir o equil\u00edbrio de poder dentro das institui\u00e7\u00f5es judiciais controladoras, seja nas elei\u00e7\u00f5es (como o Tribunal Eleitoral) ou no monitoramento de atividades financeiras ilegais, colocando sempre os interesses pessoais \u00e0 frente dos interesses da sociedade e da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das consequ\u00eancias foi a desativa\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, institu\u00edda na presid\u00eancia de Lula, que simbolizou o auge da autonomia do Minist\u00e9rio P\u00fablico e da Pol\u00edcia Federal para realizar suas investiga\u00e7\u00f5es, inclusive na que culminou com o pr\u00f3prio Lula sendo preso de modo question\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O paralelismo com <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/democracia-e-demagogia-na-argentina-dos-fernandez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as interven\u00e7\u00f5es ou atropelos do kirchnerismo a entidades independentes<\/a> do Estado e com a capacidade de regular ou moldar as faculdades gerenciais do governo \u00e9 muito not\u00f3rio. Na Argentina, o Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Censo (INDEC) foi obrigado a maquiar as medi\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o, crescimento e desemprego. E o poder judici\u00e1rio vive saqueado por dezenas de iniciativas impulsionadas no Congresso para \u201cdemocratizar\u201d a Justi\u00e7a, ou seja, para domestic\u00e1-lo. Os governos do PT nunca se atreveram a tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, a depend\u00eancia da sociedade como massa clientelista e a entroniza\u00e7\u00e3o de grupos de interesse como interlocutores privilegiados e monopolizadores da representa\u00e7\u00e3o da sociedade \u00e9 outra caracter\u00edstica que une bolsonarismo e kirchnerismo, e afasta este \u00faltimo da maneira como o lulismo conduziu seus governos. No Brasil, diante do desafio eleitoral de conseguir sua reelei\u00e7\u00e3o, Bolsonaro modificou o assistencialismo social constru\u00eddo pelas gest\u00f5es de Fernando Cardoso e Lula, aumentando o valor da ajuda al\u00e9m dos recursos genuinamente existentes e renunciando a exigir de seus benefici\u00e1rios as contrapartidas com voca\u00e7\u00e3o c\u00edvicas de tal assist\u00eancia, como o envio de seus filhos \u00e0 escola ou sua vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Argentina, ap\u00f3s a crise social de 2001, quando havia um \u00fanico plano social (Jefes y Jefas de Familia), existem agora 143 tipos de assist\u00eancias distintas e 22 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios, quase 45% da popula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a propor\u00e7\u00e3o de pobres. A ajuda chega sem condicionantes c\u00edvicas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que Kiciloff, com sua foto em tamanho real de Lula, sonhe com uma autoimagem mais respeit\u00e1vel do kirchnerismo como a constru\u00edda pelos governos do PT. Mas \u00e9 quase certo que se sente mais c\u00f4modo e pr\u00f3ximo das pr\u00e1ticas dos bolsonaristas em termos de disciplinamento social e da ordem pol\u00edtica implementada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautor Ezequiel Raimondo<br \/>\nOs oficialismos atuais na Argentina e no Brasil se assemelham muito mais do que eles admitiriam. Pelo menos a respeito de como eles pensam sobre o funcionamento e o papel da sociedade.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":12784,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16728,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-12798","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil-pt-br","8":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12798","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12798"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12798\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12784"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12798"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=12798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}