{"id":13152,"date":"2022-11-14T08:00:00","date_gmt":"2022-11-14T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=13152"},"modified":"2022-11-14T07:02:38","modified_gmt":"2022-11-14T10:02:38","slug":"victoria-santa-cruz-e-o-presente-cheio-de-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/victoria-santa-cruz-e-o-presente-cheio-de-passado\/","title":{"rendered":"Victoria Santa Cruz e o presente cheio de passado"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2022, celebram-se 100 anos do nascimento de Victoria Santa Cruz (1922-2014), \u00edcone da cultura afro-peruana e expoente da influ\u00eancia africana na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. Mulher, negra, latina e portadora de fortes ra\u00edzes africanas s\u00e3o elementos que conferem legitimidade \u00e0s opini\u00f5es de Victoria nas discuss\u00f5es sobre racismo, preconceito e desigualdade \u2013 mol\u00e9stias estruturais hist\u00f3ricas e ainda presentes na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O legado art\u00edstico, cultural e hist\u00f3rico de Victoria Santa Cruz est\u00e1 sintetizado no seu poema <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/me-gritaron-negra-a-poeta-victoria-santa-cruz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cMe Gritaron Negra\u201d<\/a> (1960), s\u00edmbolo da luta contra o racismo e da exalta\u00e7\u00e3o da identidade negra. O texto divide-se em duas partes, cada uma com percep\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias sobre a condi\u00e7\u00e3o de ser negra, em momentos diferentes da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira parte testemunha a inf\u00e2ncia, marcada por fortes notas de preconceito, opress\u00e3o, culpa, insulto \u00e0 pr\u00f3pria autoestima e rejei\u00e7\u00e3o social \u2013 aspectos relacionados \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de inferioridade do negro na sociedade. Assim come\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cVictoria Santa Cruz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ten\u00eda siete a\u00f1os apenas,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>apenas siete a\u00f1os,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Que siete a\u00f1os!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1No llegaba a cinco siquiera!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>De pronto unas voces en la calle<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>me gritaron \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Y odi\u00e9 mis cabellos y mis labios gruesos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>y mir\u00e9 apenada mi carne tostada<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Y retroced\u00ed \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Y retroced\u00ed\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte testemunha a vida adulta e a maturidade, marcadas pelo orgulho, pela conscientiza\u00e7\u00e3o, autoafirma\u00e7\u00e3o, exalta\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da identidade \u2013 aspectos que sugerem ideia de resgate da autoestima e igualdade <em>de facto<\/em> entre negros e brancos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Hasta que un d\u00eda que retroced\u00eda,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>retroced\u00eda y que iba a caer<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Negra! \u00a1Negra! \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00bfY qu\u00e9?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00bfY qu\u00e9? \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>S\u00ed \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Soy \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Negra \u00a1Negra!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Negra soy<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>De hoy en adelante no quiero<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>laciar mi cabello<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No quiero<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Y de qu\u00e9 color! NEGRO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Y qu\u00e9 lindo suena! NEGRO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Y qu\u00e9 ritmo tiene!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>NEGRO NEGRO NEGRO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a1Negra soy!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O poema n\u00e3o poderia ser mais atual. O relat\u00f3rio &#8220;La salud de la poblaci\u00f3n afrodescendiente en Am\u00e9rica Latina&#8221;, da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-americana de Sa\u00fade (OPAS), concluiu que <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/xenofobia-a-nordestinos-nao-pode-chamar-de-racismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">os negros latino-americanos vivem em permanente situa\u00e7\u00e3o de desvantagem<\/a> comparativa em rela\u00e7\u00e3o aos brancos nas \u00e1reas de sa\u00fade materno-infantil, acesso \u00e0 moradia adequada e servi\u00e7os b\u00e1sicos, como \u00e1gua e saneamento.<\/p>\n\n\n\n<p>No Equador, a taxa de mortalidade materna para mulheres negras \u00e9 o triplo da mortalidade materna geral. Na Nicar\u00e1gua, 80% dos negros t\u00eam acesso limitado \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, enquanto 35% dos brancos vivem nessa situa\u00e7\u00e3o. Isso sem mencionar as taxas de encarceramento em pa\u00edses como Brasil e Uruguai, onde os negros comp\u00f5em a cor de pele predominante dos encarcerados.<\/p>\n\n\n\n<p>Estima-se que cerca de 220 milh\u00f5es de latino-americanos e caribenhos sejam negros (cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o total do subcontinente). Em rela\u00e7\u00e3o aos brancos, os negros tendem a ser estruturalmente mais impactados pela pobreza e marginaliza\u00e7\u00e3o. A primeira parte do poema de Victoria Santa Cruz tem mais resson\u00e2ncia neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das heran\u00e7as do sistema escravocrata \u2013 que marcou e continua marcando a estrutura socioecon\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina e do Caribe \u2013 foi perpetuar a cor de pele como elemento marcador de diferen\u00e7as entre as pessoas. Todo o hist\u00f3rico de escravid\u00e3o, mandonismo e hierarquiza\u00e7\u00e3o social nas Am\u00e9ricas, associado \u00e0 insufici\u00eancia de medidas para corrigir erros e injusti\u00e7as do passado, perpetuou uma esp\u00e9cie de \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o das desigualdades\u201d no tempo presente, como se essa estrutura social desigual e hier\u00e1rquica \u2013 com diferen\u00e7as marcadas tamb\u00e9m pela cor de pele \u2013 fosse algo normal, como sempre foi no passado. Ao naturalizar as desigualdades, deixa-se de perceber sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como registrou a historiadora Lilia Schwarcz, \u201cnosso presente anda, mesmo, cheio de passado\u201d, com refer\u00eancia \u00e0s v\u00e1rias formas de racismo, viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o ainda hoje existentes. O racioc\u00ednio tamb\u00e9m se aplica aos povos ind\u00edgenas e quilombolas, igualmente encarcerados no mito da harmonia (e da democracia) racial supostamente existente nos pa\u00edses latino-americanos e caribenhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perman\u00eancia do passado no presente \u2013 de que o racismo \u00e9 exemplo \u2013 ocorre muitas vezes de forma silenciosa, velada e disfar\u00e7ada (os preconceitos que se manifestam nas frestas do cotidiano), mas tamb\u00e9m de forma p\u00fablica, ostensiva e violenta. Sucessivos epis\u00f3dios de manifesta\u00e7\u00f5es racistas e discriminat\u00f3rias revelam como estamos atrasados e involu\u00eddos em termos de conviv\u00eancia humana. Revelam, ainda, que ainda n\u00e3o fizemos as pazes com nosso passado, cuja estrutura opressiva segue viva no presente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode ignorar o fen\u00f4meno do \u201cpreconceito contra o preconceito\u201d (\u201cpreconceito reativo\u201d, como sugeriu Florestan Fernandes), que tem a ver com a nega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio preconceito; isto \u00e9, quando as pessoas se recusam a reconhecer a exist\u00eancia de preconceito na sociedade, sob a tese de que o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o seriam coisas do passado. Nada mais absurdo. Alguns chegam ao limite de n\u00e3o reconhecer o \u201cpreconceito contra o preconceito\u201d, criando ciclos viciosos que nos afastam da ess\u00eancia do debate.<\/p>\n\n\n\n<p>O legado de Victoria Santa Cruz \u00e9 extremamente vivo, por isso vale ser recordado. A ela se somam outros nomes igualmente relevantes como Tereza de Benguela (Brasil), Mar\u00eda Remedios del Valle (Argentina), Sara Gomez (Cuba), Amy Ashwood Garvey (Jamaica), Sanit\u00e9 B\u00e9lair (Haiti) e Martina Carrillo (Equador), entre in\u00fameras mulheres negras que fizeram e fazem hist\u00f3ria na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, exigindo respeito e atuando com base em princ\u00edpios de equidade, igualdade e justi\u00e7a (nas frestas do cotidiano e nas formas mais p\u00fablicas e livres de express\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte do poema ganha resson\u00e2ncia neste momento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano marca o centen\u00e1rio do nascimento de Victoria Santa Cruz (1922-2014), um \u00edcone da cultura afro-peruana e expoente da influ\u00eancia africana na Am\u00e9rica Latina e no Caribe.<\/p>\n","protected":false},"author":198,"featured_media":13144,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16738,16738,16786,16786,16958,16958,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-13152","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-peru-pt-br","9":"category-racismo-pt-br","11":"category-cultura-pt-br","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/198"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13152"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13152\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13144"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13152"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=13152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}