{"id":1323,"date":"2019-11-10T17:20:53","date_gmt":"2019-11-10T20:20:53","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1323"},"modified":"2023-02-21T20:48:01","modified_gmt":"2023-02-21T23:48:01","slug":"america-latina-e-o-desenvolvimento-problemas-e-oportunidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-e-o-desenvolvimento-problemas-e-oportunidades\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina e o desenvolvimento: problemas e oportunidades"},"content":{"rendered":"\n<p>Os povos est\u00e3o em marcha: Chile, Equador, Espanha, L\u00edbano, Hong Kong, Arg\u00e9lia, Iraque, Venezuela, R\u00fassia, Honduras ou Eti\u00f3pia. Em diversos lugares do mundo, como na Am\u00e9rica Latina, vem acontecendo uma sucess\u00e3o de grandes manifesta\u00e7\u00f5es, protestos, esperan\u00e7as e frustra\u00e7\u00e3o. Velhos profetas est\u00e3o sendo retomados, e novos profetas surgem, como a popular adolescente sueca Greta Thunberg.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9 novidade que existam protestos, mesmo com\no grau de participa\u00e7\u00e3o ou de viol\u00eancia que temos visto recentemente. Mas\nexistem elementos que chamam a aten\u00e7\u00e3o. Um \u00e9 a sincronia com a qual surgem as\nmanifesta\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o quer dizer que elas tenham o mesmo significado ou os\nmesmos objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento \u00e9 que s\u00e3o protestos de rep\u00fadio, para derrubar\num governo, contra privatiza\u00e7\u00f5es, para reivindicar liberdades coibidas, ou\ncontra a corrup\u00e7\u00e3o. Em geral lhes falta uma proposta alternativa clara e\nprofunda.<\/p>\n\n\n\n<p>As grandes utopias dominantes do final do s\u00e9culo 19 perderam\nespa\u00e7o, sobretudo as que tinham vis\u00f5es globais. Em seu lugar cresce o niilismo,\nem muitos lugares confrontado por um renascimento das utopias nacionalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos sem d\u00favida diante de um momento de grande confus\u00e3o e\nde falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica, o que \u00e9 caracter\u00edstico de per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o\nde sistema, quando o sistema internacional se encontra em crise conjuntural,\nimerso entre mudan\u00e7as de modos de produ\u00e7\u00e3o e outras for\u00e7as diretivas.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso atual, a transi\u00e7\u00e3o \u00e9 a passagem do predom\u00ednio da sociedade\nindustrial para a sociedade da informa\u00e7\u00e3o. Os sistemas de produ\u00e7\u00e3o do velho\nparadigma est\u00e3o sendo relegados e, com eles, culturas, estruturas pol\u00edticas e\nos grupos sociais que operavam nesse sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Velhas pot\u00eancias perdem seu dom\u00ednio, e surgem novas for\u00e7as.\nPara al\u00e9m das reviravoltas, nos quatro s\u00e9culos que a constru\u00e7\u00e3o do sistema\ninternacional demorou uma coisa se manteve: a continuidade da interdepend\u00eancia\nmundial cada vez maior.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de \u201cAm\u00e9rica primeiro\u201d do presidente Donald Trump\nn\u00e3o \u00e9 necessariamente um sinal de conectividade menor do sistema internacional,\nmas sim uma tentativa de manter influ\u00eancia, ao menos em espa\u00e7os delimitados.\nDa\u00ed a reativa\u00e7\u00e3o da \u201cDoutrina Monroe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante recordar que a interconex\u00e3o mundial n\u00e3o quer\ndizer que n\u00e3o existam subsistemas. Eles existem e continuam a se expressar, em\nboa medida atrav\u00e9s de Estados nos quais certos grupos de interesse entram em\nchoque com outras unidades, como se fossem placas tect\u00f4nicas, gerando\nconvuls\u00f5es no sistema internacional, das quais cada vez menos pa\u00edses podem se\nmanter alheios.<\/p>\n\n\n\n<p>Em n\u00edvel pol\u00edtico, v\u00e3o sendo impostos novos formatos de\nunidades do sistema. Com o avan\u00e7o da China e da \u00cdndia, o velho modelo do\n\u201cEstado-na\u00e7\u00e3o\u201d foi sofrendo eros\u00e3o diante do \u201cEstado-civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. S\u00e3o Estados\nde grande dimens\u00e3o geogr\u00e1fica, com proje\u00e7\u00e3o de poder sobre \u00e1rea ainda maior, e\nque est\u00e3o unidos por elementos de conte\u00fado cultural e geopol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos v\u00eam exercendo esse papel com rela\u00e7\u00e3o ao mundo \u201cocidental\u201d, e agora se veem desafiados por novos e avan\u00e7ados pretendentes \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de \u201cEstados-civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. A resposta dos <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-que-nos-diz-o-populismo\/\">Estados Unidos<\/a> \u00e9 defensiva, uma retirada na dire\u00e7\u00e3o de seu \u201cEstado nacional\u201d e uma debilita\u00e7\u00e3o de sua esfera \u201ccivilizat\u00f3ria\u201d de influ\u00eancia sobre o sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>De sua parte, a Uni\u00e3o Europeia vai compreendendo a nova\nrealidade, mas ainda sem contar com uma proje\u00e7\u00e3o decisiva para al\u00e9m de seus\nlimites. A R\u00fassia realizou seu processo de transforma\u00e7\u00e3o no governo de Vladimir\nPutin, projetando sua civiliza\u00e7\u00e3o na Eur\u00e1sia e internacionalmente, por\ninterm\u00e9dio de sua alian\u00e7a com China e \u00cdndia, da qual uma das express\u00f5es \u00e9 a\ncoordena\u00e7\u00e3o do grupo BRICS (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>As sociedades exigem bem-estar, mas \u00e9 preciso financi\u00e1-lo, e com isso o desenvolvimento \u00e9 um dos desafios pendentes da regi\u00e3o&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o marco estrutural no qual est\u00e3o imersas as atuais\ncrises pol\u00edticas da Am\u00e9rica Latina. As sociedades exigem bem-estar, mas \u00e9\npreciso financi\u00e1-lo, e com isso o desenvolvimento \u00e9 um dos desafios pendentes\nda regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Independentemente da ideologia que os modelos econ\u00f4micos aplicados na regi\u00e3o possam ter tido um dia (de Cuba ao Chile), existe algo em comum, e \u00e9 o fato de que nenhum pa\u00eds consegue romper a <a href=\"https:\/\/repositorio.ufba.br\/bitstream\/ri\/32139\/1\/Monique%20Silva%20Costa.pdf\">depend\u00eancia<\/a> quanto \u00e0s mat\u00e9rias-primas. Da mesma maneira, as economias da regi\u00e3o, caracterizadas por exporta\u00e7\u00f5es monopolizadas por algumas poucas commodities, dependem em sua maioria de alguns poucos mercados.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do M\u00e9xico, as exporta\u00e7\u00f5es passaram a ser\npredominantemente de produtos industriais. Mas isso foi realizado ao custo de\nacordos comerciais que desmantelaram o Estado, gerando um vazio de controle\nterritorial, e esse vazio foi ocupado por diferentes grupos, entre os quais os\ncart\u00e9is de tr\u00e1fico de drogas. Por isso, o desenvolvimento fica limitado a\nalgumas \u00e1reas, e a na\u00e7\u00e3o em seu conjunto n\u00e3o progride.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a situa\u00e7\u00e3o acentua a depend\u00eancia\nlatino-americana quanto a um mercado receptor de exporta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 preciso\ninventar a roda, como dizia o economista Ra\u00fal Prebisch, na Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica\ndas Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal), nos anos 1950.\nQuando os produtos de importa\u00e7\u00e3o baixam de pre\u00e7o, ou os mercadores recebedores\nimp\u00f5em condi\u00e7\u00f5es, a vulnerabilidade perif\u00e9rica do subdesenvolvimento\nlatino-americano fica evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compensar esse fator, alguns governos optam por se\naproximar dos Estados Unidos, que pensam apenas em si mesmos, ou da Uni\u00e3o\nEuropeia, que n\u00e3o chega a acordo consigo mesmo. Outros buscam se aproximar das\npot\u00eancias emergentes, a exemplo da China ou R\u00fassia, as quais carecem de\ncapacidade para gerar condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque sua prioridade est\u00e1 na prosperidade de seus\nhabitantes, e porque seu crescimento econ\u00f4mico depende de uma velha receita:\nexportar produtos de maior valor agregado e importar mat\u00e9rias-primas pelo pre\u00e7o\nmais baixo poss\u00edvel. Aceitar esse modelo, no entanto, para a Am\u00e9rica Latina\nsignifica continuar a viver na sombra do subdesenvolvimento perif\u00e9rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, para onde vai a Am\u00e9rica Latina? Primeiro \u00e9 preciso\naprender com o passado, para seguir em frente. Sem a cria\u00e7\u00e3o de valor agregado\nna produ\u00e7\u00e3o, dificilmente haver\u00e1 desenvolvimento. Segundo, sem mercados\npr\u00f3prios firmes, aumenta a vulnerabilidade \u00e0s reviravoltas do sistema\ninternacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, pertencer \u00e0 esfera de dom\u00ednio de uma grande\npot\u00eancia ou \u201cEstado civilizacional\u201d n\u00e3o assegura a prioridade dos interesses de\ndesenvolvimento dos pa\u00edses latino-americanos. Superar a fragmenta\u00e7\u00e3o e criar\nmercados comuns continua a ser uma condi\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarto, a integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser s\u00f3 um assunto de mercados ou institui\u00e7\u00f5es, e requer apoio popular e transforma\u00e7\u00e3o cultural. Quinto, nenhuma pol\u00edtica de desenvolvimento local pode estar desconectada de uma an\u00e1lise profunda de suas possibilidades e limita\u00e7\u00f5es no sistema mundial.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Casa de Am\u00e9rica em Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os povos est\u00e3o em marcha: Chile, Equador, Espanha, L\u00edbano, Hong Kong, Arg\u00e9lia, Iraque, Venezuela, R\u00fassia, Honduras ou Eti\u00f3pia. Em diversos lugares do mundo, vem acontecendo uma sucess\u00e3o de grandes manifesta\u00e7\u00f5es, protestos, esperan\u00e7as e frustra\u00e7\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":1297,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16754,16755,14382,14376],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-1323","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desarrollo-pt-br","8":"category-crisis-politica-pt-br","9":"category-desenvolvimento","10":"category-crise-politica"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1323\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1297"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1323"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=1323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}