{"id":13365,"date":"2022-11-29T08:00:00","date_gmt":"2022-11-29T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=13365"},"modified":"2022-12-01T05:59:09","modified_gmt":"2022-12-01T08:59:09","slug":"violencia-letal-no-brasil-as-vitimas-sao-negras-mas-o-crime-nunca-e-por-raca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/violencia-letal-no-brasil-as-vitimas-sao-negras-mas-o-crime-nunca-e-por-raca\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia letal no Brasil: as v\u00edtimas s\u00e3o negras, mas o crime nunca \u00e9 por ra\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>O racismo \u00e9 um organizador silencioso das rela\u00e7\u00f5es sociais e seu impacto \u00e9 como um espectro: se por um lado todos afirmam que ele existe, por outro poucos confirmam ter visto. F\u00e1cil de reconhecer na agress\u00e3o verbal, mas dificilmente reconhecido como catalisador para conflitos sociais diversos, como a viol\u00eancia letal contra pessoas negras.<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-que-2020-ensinou-sobre-racismo-ao-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> No Brasil, o racismo se mant\u00e9m por meio de um sofisticado mecanismo de \u201cdesracializa\u00e7\u00e3o\u201d da realidade<\/a>, de tal forma que, utilizando ironia: mesmo quando as v\u00edtimas s\u00e3o recorrentemente negras, o crime nunca \u00e9 por ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fim de 2022, as an\u00e1lises certamente far\u00e3o alus\u00e3o aos in\u00fameros casos de viol\u00eancia letal envolvendo pessoas negras. Janeiro come\u00e7ou com<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/sempre-fomos-racistas-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Mo\u00efse Kabagambe, refugiado congol\u00eas espancado at\u00e9 a morte<\/a> em um quiosque da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ap\u00f3s cobrar 200 reais referentes a di\u00e1rias de trabalho. O choque generalizado deveu-se tanto \u00e0 contund\u00eancia das agress\u00f5es, como ao local onde ocorreram: na orla de um dos bairros mais caros do munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como rea\u00e7\u00e3o, foi convocada uma grande manifesta\u00e7\u00e3o. Em um domingo, na praia, sob o sol. Enquanto, na areia, banhistas aproveitavam o ver\u00e3o carioca, no asfalto, representantes de v\u00e1rios segmentos sociais e religiosos afirmavam: \u201cFoi um crime cometido por racismo\u201d. Em depoimento, na delegacia, os que o mataram afirmavam que n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro, mais dois casos: um homem morreu alvejado pelo vizinho ao ser confundido com um ladr\u00e3o em S\u00e3o Gon\u00e7alo; e um vendedor de balas foi morto enquanto trabalhava na Esta\u00e7\u00e3o das Barcas, em Niter\u00f3i, por um policial militar de folga, posteriormente indiciado por homic\u00eddio doloso qualificado por motivo f\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em mar\u00e7o, tr\u00eas jovens bebiam em um bar na Gamboa, em Salvador, quando foram mortos durante a\u00e7\u00e3o policial. Outro jovem, com 17 anos, foi morto em abril, ao sair de um evento beneficente para crian\u00e7as na comunidade de Dourado, em Cordovil, no Rio de Janeiro, e teve seu corpo jogado em um val\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio, ap\u00f3s ser abordado pela Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal de Sergipe enquanto andava de motocicleta, um homem foi colocado em um cambur\u00e3o, e, ap\u00f3s inalar g\u00e1s, morreu em decorr\u00eancia de \u201cinsufici\u00eancia aguda secund\u00e1ria \u00e0 asfixia\u201d, de acordo com laudo divulgado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em comum: todos negros. A cada m\u00eas, novos casos nos notici\u00e1rios nacionais, e tantos outros que n\u00e3o geraram a mesma como\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas que adensam as estat\u00edsticas oficiais sobre a morte violenta no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um ciclo que se repete<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, n\u00e3o h\u00e1 novidade, 2022 reproduz anos anteriores nos quais as agress\u00f5es ocorreram em supermercados, lanchonetes e shoppings de grandes centros urbanos, favelas e periferias. Mudam os cen\u00e1rios, mant\u00e9m a letalidade contra pessoas negras. E, como em todos os anos, manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o organizadas, sem que os n\u00fameros da viol\u00eancia sejam reduzidos. Assim, mortes se sucedem, causam como\u00e7\u00e3o, tomam espa\u00e7os na grande m\u00eddia, por vezes, geram passeatas, reportagens investigativas e logo s\u00e3o esquecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2022 poucos saber\u00e3o os nomes das v\u00edtimas do in\u00edcio do ano. E, em janeiro de 2023 os indicadores anuais s\u00e3o reiniciados.<\/p>\n\n\n\n<p>Espancamento, assassinato por engano, suposto envolvimento com crime, lugar errado na hora errada, excesso na abordagem, motivos distintos que, em um primeiro olhar, contradizem a ideia de que o racismo seria a raz\u00e3o para as mortes de pessoas indistintamente negras. Afinal, qualquer um independentemente de ra\u00e7a poderia estar na mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria acaso se, no Brasil, as chances de uma pessoa negra sofrer viol\u00eancia letal n\u00e3o fossem 2,6 vezes maiores que a de pessoas brancas, ou se as pessoas negras n\u00e3o tivessem sido 76,2% das v\u00edtimas, de acordo com o<a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/anuario-2022.pdf?v=5\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> <em>Anu\u00e1rio brasileiro de seguran\u00e7a p\u00fablica<\/em><\/a>, publicado em 2022. E, se contarmos apenas os jovens entre 15 e 19 anos, esse percentual sobe para 80%.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-exclusao-das-mulheres-afrodescendentes-na-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mulheres negras<\/a> s\u00e3o igualmente vulner\u00e1veis, cuja taxa de homic\u00eddio foi de 4,1 em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 2,5 de mulheres n\u00e3o negras, tornando suas chances de morte violenta 1,7 vezes maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Busca-se justificar esses dados com base em eventos incontest\u00e1veis, como a condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade na qual popula\u00e7\u00f5es negras perif\u00e9ricas se encontram, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 criminalidade e inseguran\u00e7a social. O foco na realidade social pulveriza a leitura sobre as causas, evidenciando o epifen\u00f4meno e escondendo o elemento propulsor: o racismo, que, nos casos de viol\u00eancia letal, \u00e9 sempre colocado em quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se deve a dois fatores: o primeiro reside em um ideal de na\u00e7\u00e3o, ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando entre a impossibilidade de embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o e o pessimismo da aceita\u00e7\u00e3o das teorias da degeneresc\u00eancia, o Brasil optou por um elogio \u00e0 mesti\u00e7agem como constitutiva de sua identidade. Assim, o ideal de <em>morenice<\/em> e as narrativas de democracia racial foram atravessados pela cren\u00e7a na inexist\u00eancia de ra\u00e7a. Na realidade, por um <em>silenciamento sobre a exist\u00eancia de ra\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um outro fator foi a necess\u00e1ria guinada hist\u00f3rica produzida no estudo das rela\u00e7\u00f5es raciais. Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s an\u00e1lises, produzidas ao longo dos anos 1950, que explicavam a condi\u00e7\u00e3o do negro sob a justificativa do preconceito de cor, estabeleceu-se, a partir dos anos 1970, um conjunto de estudos que evidenciava as desigualdades raciais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o preconceito era associado a pr\u00e1ticas individuais e subjetivas, localizar a assimetria entre negros e brancos em um sistema social de constru\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de desigualdade, verific\u00e1vel a partir da an\u00e1lise de dados (escolaridade, empregabilidade, moradia, entre outros), permitiu n\u00e3o somente a compreens\u00e3o das estruturas de produ\u00e7\u00e3o de desigualdade racial, mas, sobretudo, a<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/afrodescendentes-latino-americanos-e-justica-reparatoria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> reivindica\u00e7\u00e3o por pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o racismo, como um sistema de produ\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de poder e subalterniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se constitui apenas de dimens\u00f5es objetivas. Com as recentes men\u00e7\u00f5es ao racismo estrutural voltamos a observar seus efeitos difusos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O racismo prescinde de objetifica\u00e7\u00e3o<\/em>: as pessoas n\u00e3o s\u00e3o mortas objetivamente por serem negras, elas s\u00e3o mat\u00e1veis por serem negras. <em>O racismo prescinde de racionaliza\u00e7\u00e3o<\/em>: ele se sustenta nas representa\u00e7\u00f5es de que negros s\u00e3o perigosos, agressivos, violentos, suspeitos, culpados, descart\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo se fortalece na sua invisibilidade, ainda mais que na sua visibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Desarmar sua bomba \u00e9 exerc\u00edcio complexo que demanda olhar para dentro do abismo, e permitir que ele olhe de volta. Reconhecer ra\u00e7a como elemento organizador da realidade \u00e9 reconhecer o racismo nas bases das desigualdades, mas sobretudo como estruturador de nosso sistema de representa\u00e7\u00f5es sociais. Nomear permite enfrentar.<\/p>\n\n\n\n<p>E, para o caso da viol\u00eancia letal contra pessoas negras, vitimadas em abordagens equivocadas, em confrontos e em enganos, ou contra jovens que morrem em decorr\u00eancia do genoc\u00eddio racializado, ou ainda contra pessoas que sucumbem em chacinas realizadas em favelas e periferias, \u00e9 fundamental reconhecer: n\u00e3o \u00e9 abordagem, n\u00e3o \u00e9 criminalidade, n\u00e3o \u00e9 pobreza, n\u00e3o \u00e9 confus\u00e3o. \u00c9 racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>E, enquanto este texto \u00e9 conclu\u00eddo, provavelmente, mais uma pessoa negra estar\u00e1 sendo morta, sem que a raz\u00e3o tenha sido o racismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, o racismo se mant\u00e9m atrav\u00e9s de um sofisticado mecanismo de &#8220;desracializa\u00e7\u00e3o&#8221; da realidade.<\/p>\n","protected":false},"author":170,"featured_media":13358,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16786,16786,16728,16728,16716,16716,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-13365","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-racismo-pt-br","9":"category-brasil-pt-br","11":"category-desigualdad-es-pt-br","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/170"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13365"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13365\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13358"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13365"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=13365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}