{"id":13808,"date":"2022-12-11T05:00:00","date_gmt":"2022-12-11T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=13808"},"modified":"2022-12-10T16:30:56","modified_gmt":"2022-12-10T19:30:56","slug":"o-dia-que-nunca-chegaria-para-cristina-kirchner-chegou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-dia-que-nunca-chegaria-para-cristina-kirchner-chegou\/","title":{"rendered":"O dia que nunca chegaria para Cristina Kirchner chegou"},"content":{"rendered":"\n<p>A condena\u00e7\u00e3o por den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o da atual vice-presidente e ex-presidente da Argentina, Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner, a seis anos de pris\u00e3o e uma proibi\u00e7\u00e3o vital\u00edcia de exercer cargos p\u00fablicos levanta quest\u00f5es importantes sobre a independ\u00eancia dos poderes no pa\u00eds. Esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que um ex-presidente \u00e9 condenado na Argentina, mas tamb\u00e9m h\u00e1 diferen\u00e7as significativas com os casos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 obviamente uma grande diferen\u00e7a entre a corrup\u00e7\u00e3o e matar pessoas. Em 1985, os membros da junta ditatorial que governou o pa\u00eds durante a Guerra Sucia (1976-1983) foram condenados e presos por seus crimes genocidas. Enquanto isso, em 2001, o presidente peronista Carlos Menem (1989-1999) foi condenado e preso por venda ilegal de armas \u00e0 Cro\u00e1cia e ao Equador durante a d\u00e9cada de noventa.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner, entretanto, \u00e9 diferente, e sua condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 relacionada a hist\u00f3rias de viol\u00eancia, mas a acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio dos casos anteriores, a senten\u00e7a da vice-presidente n\u00e3o \u00e9 definitiva e \u00e9 bem prov\u00e1vel que venha a ser apelada. Al\u00e9m disso, a vice-presidente em exerc\u00edcio tem imunidade, o que faz com que em um futuro pr\u00f3ximo n\u00e3o seja detida como ocorreu com Menem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por que Cristina est\u00e1 sendo condenada agora? Como tantos pol\u00edticos argentinos, Cristina Kirchner n\u00e3o consegue explicar por que tem tanto dinheiro. Mas para entender o que aconteceu, algo que parecia que nunca aconteceria, \u00e9 importante entender o contexto espec\u00edfico em que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que muitas das acusa\u00e7\u00f5es fossem fortes e claras, at\u00e9 agora a CFK (como \u00e9 conhecida na Argentina) tinha sido capaz de dobrar \u00e0 sua vontade o atual governo peronista. Entretanto, o governo de Alberto Fern\u00e1ndez que a defende da boca para fora tamb\u00e9m acabou fornecendo, talvez inconscientemente, o contexto perfeito para que seu julgamento fosse resolvido. Al\u00e9m de um poder judici\u00e1rio com v\u00ednculos com a oposi\u00e7\u00e3o, somou-se, para tornar a atmosfera ainda mais tensa, o atentado (pouco claro) contra Cristina feito por um grupo de lumpens com prefer\u00eancias neonazistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma mensagem acalorada, Cristina Kirchner denunciou &#8220;m\u00e1fias judiciais&#8221; e &#8220;Estados paralelos&#8221;, e embora tenha dito que n\u00e3o iria se aprofundar em quest\u00f5es te\u00f3ricas, deixou claro que para ela esta \u00e9 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica. A hist\u00f3ria do populismo e sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de desvios ideol\u00f3gicos n\u00e3o concorda com sua postura. Nos anos noventa, a maioria dos peronistas concordaram ent\u00e3o com Nestor Kirchner que Menem representava uma continuidade hist\u00f3rica com Per\u00f3n. Nos anos 2000, N\u00e9stor Kirchner e Cristina Kirchner renegaram seu passado menemista e se apresentaram como l\u00edderes de uma nova era, diametralmente oposta \u00e0 do menemismo, que havia tra\u00eddo &#8220;as bandeiras nacionais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, quando anos antes Menem liderou o peronismo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 direita neoliberal, Cristina Kirchner permaneceu no barco, enquanto declarava abertamente que apoiava o presidente que &#8220;abominava&#8230; o feminismo&#8221; e que a Argentina n\u00e3o corria mais o risco de ser derrotada pelo &#8220;infame trapo vermelho dos anos 70&#8221;. Anos depois, nos anos 2000, quando tentou encarnar a esquerda populista, Cristina Kirchner questionou a chamada esquerda que se identificava com a cor vermelha enquanto promovia uma esquerda &#8220;verdadeira&#8221; representada pelos argentinos que vestiam as cores nacionais. Segundo ela, n\u00e3o havia posi\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, nem de direita nem de esquerda, al\u00e9m do Kirchnerismo. Concretamente, no populismo, a posi\u00e7\u00e3o do l\u00edder \u00e9 mais importante do que o conte\u00fado de seus discursos de mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o, ela manteve suas acusa\u00e7\u00f5es contra a m\u00eddia que a criticou e, em particular, contra o jornal <em>Clar\u00edn<\/em>, um dos mais importantes do pa\u00eds, por manipular o Poder Judici\u00e1rio. Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria que vem de muito tempo atr\u00e1s. Durante dez anos, os ex-presidentes N\u00e9stor Kirchner e Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner lan\u00e7aram uma ofensiva contra os meios cr\u00edticos. Passando da demoniza\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica, usaram a Administra\u00e7\u00e3o da Receita P\u00fablica para assediar o jornal da oposi\u00e7\u00e3o com auditorias e, finalmente, com leis antimonop\u00f3lio que favoreciam uma m\u00eddia ideologicamente pr\u00f3xima. M\u00e9todos similares, embora mais extremos, foram e ainda s\u00e3o utilizados em pa\u00edses como Venezuela, Nicar\u00e1gua, El Salvador e Equador.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, de forma esperada, Cristina Kirchner voltou a acusar o Poder Judici\u00e1rio de estar contra ela. Vale recordar que o pr\u00f3prio peronismo manipulou o mesmo Poder Judici\u00e1rio durante os governos de Carlos Menem, N\u00e9stor Kirchner e a pr\u00f3pria Cristina Kirchner (2007-2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, a vice-presidente n\u00e3o foi capaz de explicar o enorme aumento de seu patrim\u00f4nio ap\u00f3s uma vida inteira dedicada \u00e0 fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Vale recordar que inexplicavelmente sua filha tinha mais de quatro milh\u00f5es e meio de d\u00f3lares em dois cofres de seguran\u00e7a em Buenos Aires. A isto se soma o fato de que um amigo de seu marido, um funcion\u00e1rio banc\u00e1rio sem antecedentes empresariais, tornou-se do dia para a noite em um empres\u00e1rio de sucesso e magnata das obras p\u00fablicas na Patag\u00f4nia durante os anos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desta realidade, muitos argentinos acreditam convincentemente que o problema da corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusivo do peronismo ou dos Kirchners, e vinculam o caso a outros da regi\u00e3o. N\u00e3o estou de acordo com os argumentos sobre as supostas semelhan\u00e7as entre este julgamento e outros casos na Am\u00e9rica Latina. Talvez o caso mais pr\u00f3ximo a este seja o de Donald Trump, no sentido de que, assim como no Partido Republicano, muitos peronistas se alegram silenciosamente com a queda de um \u00edcone populista por corrup\u00e7\u00e3o.<br>Ser\u00e1 este julgamento o in\u00edcio de uma investiga\u00e7\u00e3o mais ampla e mais s\u00e9ria sobre a corrup\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica argentina, um problema que transcende o peronismo? Este tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o caso. Somente o tempo dir\u00e1 se esta acusa\u00e7\u00e3o \u00e0 vice-presidente tem <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-sentenca-de-cristina-abre-um-novo-capitulo-da-politica-argentina\/\">consequ\u00eancias pol\u00edticas significativas ou se \u00e9 apenas mais um caso de &#8220;muito barulho por nada&#8221;<\/a> na longa hist\u00f3ria de corrup\u00e7\u00e3o na Argentina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que um ex-presidente \u00e9 condenado na Argentina, mas tamb\u00e9m h\u00e1 diferen\u00e7as significativas com casos anteriores.<\/p>\n","protected":false},"author":77,"featured_media":13794,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16752,17042,16714,16719,14371,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-13808","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cristina-kirchner-pt-br","8":"category-sistema-judicial-pt-br","9":"category-corrupcion-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-corrupcao","12":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/77"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13808\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13808"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=13808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}