{"id":13987,"date":"2022-12-19T08:00:00","date_gmt":"2022-12-19T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=13987"},"modified":"2022-12-19T07:20:09","modified_gmt":"2022-12-19T10:20:09","slug":"o-que-catar-2022-nos-disse-sobre-a-democracia-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-catar-2022-nos-disse-sobre-a-democracia-global\/","title":{"rendered":"O que Catar 2022 nos disse sobre a democracia global?"},"content":{"rendered":"\n<p>O mundial no Catar tem sido marcado por pol\u00eamicas. Desde a controversa adjudica\u00e7\u00e3o do emirado como sede, passando pelas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho dos milhares de trabalhadores migrantes, at\u00e9 as amea\u00e7as aos jogadores no caso de participarem de alguma manifesta\u00e7\u00e3o. Estas marcas no maior evento de futebol interpelam a aceita\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica autorit\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe de Di\u00e1logo Pol\u00edtico refletiu com aten\u00e7\u00e3o sobre isso com sua rede de autores latino-americanos. \u00c9 com esse esp\u00edrito que esta an\u00e1lise especial oferece vis\u00f5es diversas sobre um evento que talvez fique na mem\u00f3ria como o Mundial de protestos silenciosos e silenciados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cart\u00e3o vermelho para a FIFA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Qatar, quase contraditoriamente, quis demonstrar que a liberdade\u00a0 dos que gritam gol \u00e9 poss\u00edvel no pa\u00eds das proibi\u00e7\u00f5es. Na verdade, a FIFA comprou esta ideia: um lugar ex\u00f3tico do Oriente M\u00e9dio como sede do evento mais importante do planeta, por que n\u00e3o? Havia muitas raz\u00f5es pelas quais essa op\u00e7\u00e3o era uma m\u00e1 ideia e agora s\u00e3o mais evidentes: san\u00e7\u00f5es \u00e0 diversidade, restri\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade de express\u00e3o, tutela masculina das mulheres e um sistema laboral pol\u00eamico sustentado principalmente por imigrantes. N\u00e3o esque\u00e7amos a opacidade e as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, aten\u00e7\u00e3o global n\u00e3o foi apenas focada na bola rolando pelo campo, mas tamb\u00e9m no alto custo desses minutos de jogo al\u00e9m da paix\u00e3o futebol\u00edstica. Mas, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Embora a FIFA diga o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O protesto diferente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na manifesta\u00e7\u00e3o esportiva mais globalizada, a sele\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 comoveu ao se negar a cantar o hino nacional de seu pa\u00eds antes de disputar a partida contra a Inglaterra, que perdeu por 6 a 2. Um gesto de reconhecimento silencioso dos protestos em Teer\u00e3 pela morte da jovem curda Mahsa Amini, sob cust\u00f3dia policial por, supostamente, n\u00e3o respeitar a indument\u00e1ria obrigat\u00f3ria das mulheres que o regime de ayatollah Ruhollah Khomeini imp\u00f5e. A den\u00fancia mais eficaz e heroica contra a barb\u00e1rie converteu a goleada no campo em uma grande vit\u00f3ria moral na arena do Catar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Globaliza\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os Mundiais de futebol sempre foram espa\u00e7os de legitima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Muitas vezes, na\u00e7\u00f5es emergentes, perif\u00e9ricas e deslocadas buscam um assento de reconhecimento atrav\u00e9s do \u00eaxito organizacional e esportivo. N\u00e3o \u00e9 mais o fascismo ou a Guerra Fria, mas o mundo do capitalismo p\u00f3s-moderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Enchemos de conte\u00fado e significado estas disputas que, na realidade, s\u00e3o atravessadas pelo marketing, a globaliza\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo e a deslocaliza\u00e7\u00e3o do jogo. A esmagadora maioria dos jogadores, mesmo os do Sul global, s\u00e3o desenvolvidos por clubes transnacionais das ligas espanhola, inglesa, alem\u00e3, italiana ou francesa. O status de dono do clube diz mais sobre uma posi\u00e7\u00e3o dominante na escala global, que no final tenta padronizar-se em valores que n\u00e3o s\u00e3o os democr\u00e1ticos, mas os do marketing.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o presidente da FIFA, Gianni Infantino, disse que se sentia como \u201ccatari, mulher, trabalhador imigrante, africano, gay\u201d, ele foi eloquente: ser tudo sem ser nada \u00e9, talvez, a express\u00e3o mais completa do nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O futebol como motivo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1952, Alan Turing foi condenado por homossexualidade e castrado quimicamente sob a lei inglesa. Em 1958, em Bruxelas, a atual capital da UE, aconteceu a Exposi\u00e7\u00e3o Internacional e Universal e ali se apresentou o \u00faltimo de v\u00e1rios <em>zool\u00f3gicos humanos<\/em> que eram comuns na Europa at\u00e9 bem no s\u00e9culo XX para mostrar pessoas \u201cex\u00f3ticas\u201d. E at\u00e9 1956, a segrega\u00e7\u00e3o racial era vigente de maneira legal nos Estados Unidos, onde \u201ccidad\u00e3os de segunda classe\u201d recebiam um tratamento injustamente desigual, apenas pela cor de sua pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Persegui\u00e7\u00e3o e castigo por causa da identidade sexual; tratamento degradante e humilhante a quem nascia e lugares desconhecidos; segrega\u00e7\u00e3o pela cor da pele. Visto em perspectiva hist\u00f3rica, os marcos morais que os cidad\u00e3os do Ocidente moderno viviam ainda na segunda metade do s\u00e9culo XX s\u00e3o abomin\u00e1veis e profundamente contr\u00e1rios aos direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>As normas morais mudam lentamente e s\u00f3 atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da reflex\u00e3o conjunta \u2013 e n\u00e3o da imposi\u00e7\u00e3o \u2013 que as sociedades ocidentais transformaram seus valores; e a partir da\u00ed reconhecem e protegem os direitos fundamentais dos seres humanos. Chegar at\u00e9 aqui requereu toler\u00e2ncia e di\u00e1logo. Se o Ocidente quer acompanhar os cidad\u00e3os cataris em seu caminho para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade com mais direitos, ent\u00e3o deve-se aproveitar todas as oportunidades \u2013 longe de boicotes ou amea\u00e7as \u2013 para cimentar as bases de um di\u00e1logo plural, aberto e livre. A Copa do Mundo \u00e9 uma dessas oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cuidar da redonda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de It\u00e1lia 1934 e Argentina 1978, Catar 2022 \u00e9 <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/futebol-e-politica-meandros-da-polarizacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o terceiro Mundial organizado em um pa\u00eds ditatorial<\/a>. N\u00e3o contando R\u00fassia (2018), onde s\u00e3o celebradas elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, mas longe dos padr\u00f5es internacionais de transpar\u00eancia, pluralismo e competi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 um evento hist\u00f3rico que exp\u00f5e a dist\u00e2ncia entre o futebol e a democracia. O que rege o a bola s\u00e3o os n\u00fameros, os lucros, o neg\u00f3cio. \u00c9 claro que, desde que n\u00e3o produzam rentabilidade exorbitante, a liberdade de express\u00e3o, os direitos das mulheres e a diversidade sexual n\u00e3o s\u00e3o prioridades para a FIFA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deixa-se passar uma oportunidade incr\u00edvel para fazer pedagogia a partir do esporte mais popular do planeta. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que, assim como os grandes autoritarismos usaram o futebol como m\u00e1quina de propaganda de seus regimes, os sistemas abertos devem associar o futebol a valores nobres como liberdade e igualdade. Ou seja: cuidar do futebol, n\u00e3o o manchar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Defesa da democracia e do pluralismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta Copa do Mundo reuniu os grandes debates do nosso tempo. Desde o abuso dos direitos humanos dos trabalhadores contratados para as obras do Mundial, a proibi\u00e7\u00e3o da bra\u00e7adeira One Love, at\u00e9 o assassinato brutal de Mahsa Amini e os protestos das mulheres iranianas. Com o Mundial como pano de fundo, temos uma tela dividida onde atrav\u00e9s do esporte vemos a aus\u00eancia de liberdades sofridas por alguns, enquanto outros aproveitam para expressar sua solidariedade com causas pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cA bola n\u00e3o se mancha\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Catar n\u00e3o nos diz nada sobre a defesa da democracia e do pluralismo. Anexar inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 competi\u00e7\u00e3o global de futebol ou usar as sele\u00e7\u00f5es nacionais e seus jogadores para passar mensagens pol\u00edticas \u00e9 um erro. Atenta contra o esp\u00edrito do jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou de acordo com a FIFA quando pro\u00edbe qualquer slogan pol\u00edtico ou de protesto usando a tela que proporciona o jogo durante pouco mais de 90 minutos. O grande Diego Armando Maradona j\u00e1 havia dito isso diante de uma Bombonera lotada, em uma de suas muitas tentativas de se tornar novamente o dez do Boca. Disse: \u201cA bola n\u00e3o se mancha\u201d. E com cinco palavras ele resumiu o que o futebol deveria ser, um jogo, um simples jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Democracia, pluralismo, respeito aos direitos humanos, \u00e0s minorias e todos os etc\u00e9teras n\u00e3o \u00e9 coisa do futebol. N\u00e3o tem nada a ver com isso. \u00c9 algo da pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A transpar\u00eancia imprescind\u00edvel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A transpar\u00eancia \u00e9 inimiga das autocracias. Qualquer tipo de informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passe pelo controle e eventual censura do governo torna-se uma amea\u00e7a. Especialmente se o pa\u00eds busca manter uma imagem amig\u00e1vel e positiva no cen\u00e1rio internacional apesar de dentro de suas fronteiras os direitos mais fundamentais n\u00e3o serem respeitados. O problema para estes Estados surge quando a visibilidade \u00e9 enorme, pois perdem o controle sobre o fluxo de informa\u00e7\u00f5es. E este \u00e9 o caso quando se celebra uma Copa do Mundo como a do Catar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas vozes consideraram um erro entregar a organiza\u00e7\u00e3o a um pa\u00eds onde n\u00e3o existe o Estado de direito, chegando inclusive a promover um boicote ao torneio. Entretanto, como a representante da Transpar\u00eancia Internacional, Sylvia Schenk, explicou na televis\u00e3o alem\u00e3, a visibilidade inerente a uma Copa do Mundo pode obrigar o Catar a melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida de seus habitantes, assim como aumentar o respeito aos direitos humanos. Uma postura que poucos compartilham, mas que guarda uma quota importante de realismo e otimismo. Talvez este evento esportivo seja o ponto de partida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Insustent\u00e1vel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Catar sugere uma bolha removida da realidade de tantos. O povo da Ucr\u00e2nia enfrenta um inverno terr\u00edvel. Milh\u00f5es de migrantes sobem em barca\u00e7as para se afogar no Mare Nostrum e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica faz-se notar cada vez mais com eventos extremos. Em contraste, o Catar utiliza est\u00e1dios climatizados, sistemas de transporte que muitos pa\u00edses desejariam e exibe um luxo sem igual com total falta de pudor e celebrado por jornalistas em prol de uma nota exclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez algu\u00e9m calcule a pegada de carbono desta Copa do Mundo. Talvez algu\u00e9m reflita sobre seus custos energ\u00e9ticos e, portanto, clim\u00e1ticos. No domingo, a festa terminou e, com ela, o sonho de Copa de muitos. Persistir\u00e3o as consequ\u00eancias e talvez algu\u00e9m nos pergunte em algum momento o que est\u00e1vamos pensando quando grit\u00e1vamos gol e admir\u00e1vamos pal\u00e1cios constru\u00eddos sobre po\u00e7os de petr\u00f3leo. Definitivamente, insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Texto originalmente publicado em Di\u00e1logo Pol\u00edtico<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundial tem sido marcado por pol\u00eamicas. 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