{"id":14076,"date":"2022-12-23T08:00:00","date_gmt":"2022-12-23T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=14076"},"modified":"2022-12-23T07:30:56","modified_gmt":"2022-12-23T10:30:56","slug":"cinismo-sexismo-e-racismo-nos-discursos-sobre-francia-marquez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/cinismo-sexismo-e-racismo-nos-discursos-sobre-francia-marquez\/","title":{"rendered":"Cinismo, sexismo e racismo nos discursos sobre Francia M\u00e1rquez"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Coautora<\/strong> <strong>Allison B. Wolf<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com o triunfo do primeiro governo de esquerda na Col\u00f4mbia, as atitudes c\u00ednicas se aliaram ao racismo, classicismo, sexismo e outras formas de discurso intolerante no pa\u00eds. Embora fosse de se esperar que <a href=\"https:\/\/www.elespectador.com\/opinion\/columnistas\/rodolfo-arango\/el-cinismo-aumenta-en-colombia-column-165431\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a desconfian\u00e7a e o cinismo se exacerbassem<\/a> nos setores de direita, tal coopera\u00e7\u00e3o entre o discurso c\u00ednico e o discriminat\u00f3rio \u00e9 um fen\u00f4meno novo e alarmante. E esta alian\u00e7a \u00e9 observada com \u00eanfase especial nas respostas de jornalistas, figuras p\u00fablicas e cidad\u00e3os comuns aos discursos e a\u00e7\u00f5es da vice-presidente Francia M\u00e1rquez (mulher afro-colombiana, l\u00edder social, ativista ambiental, feminista e defensora dos direitos humanos) nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa e nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O cinismo contempor\u00e2neo \u00e9, sem d\u00favida, um fen\u00f4meno multifacetado e dif\u00edcil de entender. Nos anos oitenta, o termo come\u00e7ou a ser usado, <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/10.5749\/j.ctttsn9t\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sobretudo nos EUA<\/a>, para designar uma esp\u00e9cie de pessimismo end\u00eamico fundado na decepcionante constata\u00e7\u00e3o por parte dos cidad\u00e3os de que o debate pol\u00edtico e as institui\u00e7\u00f5es estatais haviam se tornado o cen\u00e1rio de disputas entre interesses pessoais ou de grupos econ\u00f4micos em benef\u00edcio dos ricos urbanos e em detrimento dos pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, esta atitude c\u00ednica era considerada como uma de intelig\u00eancia, desconfian\u00e7a saud\u00e1vel e frieza sofisticada; um sinal de que n\u00e3o se pode simplesmente ser enganado. Durante os anos noventa, o cinismo se estendeu a todas os \u00e2mbitos da vida social e tornou-se a convic\u00e7\u00e3o generalizada (talvez por causa da l\u00f3gica capitalista) de que as \u00fanicas fontes de motiva\u00e7\u00e3o humana s\u00e3o os interesses econ\u00f4micos. Assim, o realismo sofisticado de alguns, a decep\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel que deu lugar a uma vis\u00e3o cr\u00edtica da atividade pol\u00edtica, transformou-se em uma atitude de total desconfian\u00e7a nas inten\u00e7\u00f5es das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XXI, este novo cinismo come\u00e7ou a se proclamar como uma esp\u00e9cie de \u201crealismo pol\u00edtico\u201d, ou seja, como uma vis\u00e3o clara do mundo <em>como \u00e9<\/em>. Mas, apesar desta autodefini\u00e7\u00e3o parecer inofensiva, o cinismo \u00e9 o melhor terreno f\u00e9rtil para o extremismo pol\u00edtico tanto de direita como de esquerda. E isto \u00e9 evidente na esfera p\u00fablica colombiana mediante o apoio a atitudes de intoler\u00e2ncia social, como classicismo, racismo, sexismo e xenofobia contra a vice-presidente colombiana, Francia M\u00e1rquez.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta alian\u00e7a entre c\u00ednicos e fac\u00e7\u00f5es supremacistas, racistas e sexistas no pa\u00eds \u00e9 muito vis\u00edvel em v\u00e1rios coment\u00e1rios deste car\u00e1ter sobre a mandat\u00e1ria, que s\u00e3o expressos sem a menor vergonha nas redes sociais e nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, como a revista <em>Semana<\/em>. Um cidad\u00e3o, por exemplo, escreveu no <a href=\"https:\/\/mobile.twitter.com\/franciamarquezm\/status\/1563620129031716864\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Twitter<\/a>: \u201cJ\u00e1 come\u00e7ou o show. Agora ser\u00e1 \u2018ser rico \u00e9 mau\u2019 (para os outros, n\u00e3o para eles)\u201d, \u201cOs de minha cor foram oprimidos\u201d, \u201cDevemos ajudar os mais pobres\u201d, \u201cIgualdade para todos\u201d, \u201cSa\u00fade gratuita para todos\u201d (para eles, cl\u00ednicas privadas), \u201cEduca\u00e7\u00e3o gratuita\u201d (para eles, universidades privadas)\u201d. Neste tweet, os preconceitos de classe social s\u00e3o expressos mediante o slogan da desconfian\u00e7a c\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/colombia-entre-a-esperanca-e-a-expectativa-por-uma-mudanca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">As reivindica\u00e7\u00f5es sociais de esquerda<\/a>, como \u201cigualdade para todos\u201d, \u201csa\u00fade gratuita para todos\u201d, etc., s\u00e3o postas entre aspas para indicar que M\u00e1rquez as sustenta falsamente e que o que lhe interessa \u00e9 obter os privil\u00e9gios que as elites t\u00eam gozado para sua classe social. Assim, sentimentos antidemocr\u00e1ticos e intolerantes s\u00e3o escondidos sob o manto da \u201cinteligente e sofisticada\u201d desconfian\u00e7a c\u00ednica, do \u201crealismo pol\u00edtico\u201d que considera os ideais de justi\u00e7a social como falsos slogans de setores sociais que, na realidade, n\u00e3o t\u00eam direito a qualquer reivindica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m formas onde o cinismo permite a express\u00e3o do racismo e do sexismo, e mediante um tom conciliador, desvia a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico das ofensas diretas que M\u00e1rquez sofreu por ser negra e mulher. Por exemplo, a revista <a href=\"https:\/\/www.semana.com\/politica\/articulo\/luis-ernesto-gomez-pide-a-francia-marquez-conciliar-con-quien-la-insulto-la-paz-total-esta-en-las-pequenas-cosas\/202225\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Semana<\/em><\/a> dedica mais de um artigo ao <a href=\"https:\/\/www.elinformador.com.co\/index.php\/judiciales\/72-judiciales-nacional\/285067-abren-investigacion-a-mujer-que-llamo-simio-a-francia-marquez\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">coment\u00e1rio de uma cidad\u00e3<\/a> sobre M\u00e1rquez durante uma marcha de protesto contra o governo: \u201cE aquele s\u00edmio, por ter dado um milh\u00e3o de votos, se considera a corajosa da caminhada? Pobre s\u00edmio, os s\u00edmios governando (&#8230;) \u00c9 um s\u00edmio&#8230; Que educa\u00e7\u00e3o pode ter um negro? Os negros roubam, roubam, assaltam e matam, que educa\u00e7\u00e3o pode ter um negro?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A revista em quest\u00e3o, ao inv\u00e9s de criticar o discurso intolerante desta mulher, relatou com indigna\u00e7\u00e3o a resposta p\u00fablica de Francia M\u00e1rquez \u00e0 ofensa depois que afirmou que n\u00e3o toleraria o racismo e, em consequ\u00eancia, denunciaria a mulher na justi\u00e7a. A resposta do meio foi a publica\u00e7\u00e3o de testemunhos de pol\u00edticos cr\u00edticos \u00e0 decis\u00e3o de M\u00e1rquez. Entre eles, o ex-secret\u00e1rio de governo de Bogot\u00e1, <a href=\"https:\/\/www.semana.com\/politica\/articulo\/luis-ernesto-gomez-pide-a-francia-marquez-conciliar-con-quien-la-insulto-la-paz-total-esta-en-las-pequenas-cosas\/202225\/\">Luis Ernesto G\u00f3mez<\/a>, que disse: \u201cO racismo da senhora uribista descreve perfeitamente o ditado popular: \u2018a ignor\u00e2ncia \u00e9 atrevida\u2019. Prezada Francia M\u00e1rquez, reconsidere sua decis\u00e3o de n\u00e3o conciliar. Pode dar uma li\u00e7\u00e3o \u00e0 senhora Luz Fabiola e para todo um pa\u00eds que deseja a reconcilia\u00e7\u00e3o (&#8230;)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O coment\u00e1rio de G\u00f3mez minimiza a intoler\u00e2ncia das express\u00f5es de racismo contra a vice-presidente do pa\u00eds e as explica como mera \u201cignor\u00e2ncia\u201d: um mal menor, ao que parece, e que devemos tolerar. Por sua sofistica\u00e7\u00e3o c\u00ednica e condescend\u00eancia, solicita <em>\u00e0 v\u00edtima<\/em> que se concilie com <em>a perpetradora<\/em>, ou seja, que por vontade pr\u00f3pria, e em virtude de um fim coletivo maior (reconcilia\u00e7\u00e3o nacional), n\u00e3o utilize os canais do Estado para denunci\u00e1-la e permita o tratamento ofensivo e abertamente racista.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que o homem branco privilegiado, partindo de seu reconhecimento c\u00ednico de que os interesses ego\u00edstas s\u00e3o os que imperam, pede \u00e0 mandat\u00e1ria que evite o&nbsp; conflito e permita a continua\u00e7\u00e3o de um <em>status quo<\/em> racista, porque, na realidade, a ofensa da qual foi v\u00edtima n\u00e3o \u00e9 importante. Estamos diante de um c\u00ednico que justifica o racismo e o sexismo atrav\u00e9s de discursos que parecem ser \u201cbem-intencionados\u201d, mas que, no final, n\u00e3o propagam a verdadeira reconcilia\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, este novo cinismo que se alia \u00e0 intoler\u00e2ncia para alimentar o extremismo pol\u00edtico deve ser denunciado. Nossa anu\u00eancia \u00e0 fria desconfian\u00e7a do c\u00ednico permitiu que o cinismo oculte e perpetue a opress\u00e3o dos grupos marginalizados, desviando, com isso, a aten\u00e7\u00e3o do que \u00e9 realmente importante. Isto, atrav\u00e9s do slogan que, em uma sociedade onde s\u00f3 imperam os interesses econ\u00f4micos pessoais, as reivindica\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o desnecess\u00e1rias e quem as expressam s\u00e3o desonestos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Allison B. Wolf \u00e9 professora associada e pesquisadora do Centro de Estudos Migrat\u00f3rios da Universidad de los Andes, Col\u00f4mbia. Doutora pela Universidade Estadual de Michigan.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautora Allison B. 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