{"id":1423,"date":"2020-01-08T14:19:45","date_gmt":"2020-01-08T17:19:45","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1423"},"modified":"2023-01-31T19:42:15","modified_gmt":"2023-01-31T22:42:15","slug":"protestos-pelo-mundo-podem-retornar-com-intensidade-igual-ou-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/protestos-pelo-mundo-podem-retornar-com-intensidade-igual-ou-maior\/","title":{"rendered":"2019, entre marchas e conflitos no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"block-82eda566-ebc0-4de1-b2e7-8b9e4d1bc916\">As mobiliza\u00e7\u00f5es e os conflitos que surgiram ao longo de 2019 deixam uma sensa\u00e7\u00e3o de surpresa e perplexidade, surpreendem por sua contund\u00eancia, por seu car\u00e1ter contestat\u00f3rio, por sua viol\u00eancia e radicalismo. Seu surgimento em cascata, em diferentes cidades e regi\u00f5es do mundo, torna a cena global o teatro dos acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos diante de um novo ciclo de intensifica\u00e7\u00e3o da\nglobaliza\u00e7\u00e3o? O radicalismo dos conflitos anuncia a entrada em uma nova fase\nmais intensa de integra\u00e7\u00e3o mundial, apesar das reclama\u00e7\u00f5es dos nacionalismos e\ndo localismo de muitos processos sociopol\u00edticos? Essas express\u00f5es s\u00e3o novas\nformas de resist\u00eancia a algo que ainda n\u00e3o se pode entrever com clareza e que\nessa nova tend\u00eancia expressa?<\/p>\n\n\n\n<p>Se bem que cada conflito obede\u00e7a a conota\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias,\ntodos aparecem como movimentos antissistema, por interpelarem valores,\ninstitui\u00e7\u00f5es e l\u00f3gicas econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas agendas s\u00e3o diferenciadas: em alguns casos, se trata de\numa resist\u00eancia a ajustes econ\u00f4micos (Equador); em outros, de exig\u00eancias de\njusti\u00e7a distributiva (Chile); apelos por autonomia regional (Catalunha); ou\napelos pela transpar\u00eancia no funcionamento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\n(Bol\u00edvia); sua eclos\u00e3o aparece em distintas e distantes latitudes, Hong Kong,\nL\u00edbano, Turquia, Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/globalizacion-economica-y-turbulencia-politica-en-a-l\/\">mobiliza\u00e7\u00f5es<\/a> que aparentemente n\u00e3o s\u00e3o identific\u00e1veis por suas agendas mas sim por suas formas de impugna\u00e7\u00e3o e por seus desenlaces; todos os casos parecem ser conflitos que n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis a curto prazo e que poderiam regressar a estados de lat\u00eancia prolongados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, percebe-se tamb\u00e9m que os protestos poderiam\nretornar com intensidade igual ou maior. \u00c9 prov\u00e1vel que estejamos diante de um\nciclo mundial de mobiliza\u00e7\u00f5es, cujos perfis ainda n\u00e3o somos capazes de\nidentificar com clareza.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A recorr\u00eancia mundial dos conflitos nos traz a necessidade de reconhecer linhas comuns e nos exp\u00f5e a um cen\u00e1rio de mudan\u00e7a de \u00e9poca&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A recorr\u00eancia mundial dos <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-50928765\">conflitos<\/a> nos traz a necessidade de reconhecer linhas comuns e nos exp\u00f5e a um cen\u00e1rio de mudan\u00e7a de \u00e9poca que est\u00e1 fortemente relacionado a realidades emergentes como a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou a gravidade da crise ambiental, que incidem fortemente nessa escala e n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas linhas de reflex\u00e3o se tornam necess\u00e1rias: a primeira\ntrata das determina\u00e7\u00f5es causais, a segunda indaga sobre as motiva\u00e7\u00f5es dos\nagentes, sobre o sentido e a sem\u00e2ntica que se pode derivar dessas mudan\u00e7as de\nestrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>As determina\u00e7\u00f5es causais t\u00eam a ver com transforma\u00e7\u00f5es\ninduzidas por tentativas de conduzir a economia mundial em um contexto de crise\nambiental grave e de transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica colossal, que redefine os\nprocessos produtivos mediante inova\u00e7\u00f5es na automa\u00e7\u00e3o, robotiza\u00e7\u00e3o e\nintelig\u00eancia artificial; uma tens\u00e3o criada pelo ac\u00famulo excessivo de capital\npelo setor financeiro, que encontra s\u00e9rias dificuldades para se enquadrar a\neconomias que caminham com dificuldade rumo \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o dessas novas\ntend\u00eancias; din\u00e2micas que em seu conjunto geraram exclus\u00e3o de amplos setores da\nfor\u00e7a produtiva, ou os condenaram a tarefas altamente prec\u00e1rias e tendentes \u00e0\nelimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o as classes m\u00e9dias mundiais as principais afetadas;\nsetores que registram n\u00edveis relativamente elevados de preparo profissional,\nmas n\u00e3o encontram canais de inser\u00e7\u00e3o em mercados de trabalho que tamb\u00e9m tendem\na se redefinir radicalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nos campos da informa\u00e7\u00e3o e da\ncomunica\u00e7\u00e3o funciona como \u201cdin\u00e2mica estruturante\u201d dessa nova globaliza\u00e7\u00e3o, e \u00e9\no motor das demais inova\u00e7\u00f5es; n\u00e3o s\u00f3 torna mais eficientes os processos\nprodutivos como acelera os fluxos de \u201cpoliticidade\u201d e de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda linha de reflex\u00e3o nos leva a pensar como essa\ntransforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica est\u00e1 sendo enfrentada, consumida, assimilada; aqui\nnos deparamos com uma enorme ambival\u00eancia; o agente social se encontra em uma\nnova plataforma comunicacional que condiciona suas din\u00e2micas de percep\u00e7\u00e3o e\nelabora\u00e7\u00e3o discursiva; vive a comunica\u00e7\u00e3o como um efeito de imediatismo e de\nacelera\u00e7\u00e3o que lhe permite \u201cestar com os outros\u201d, compartilhar percep\u00e7\u00f5es,\nemo\u00e7\u00f5es, mas ao mesmo tempo exacerba seu narcisismo, uma tens\u00e3o que contrasta\ncom a simula\u00e7\u00e3o de comunidade que as redes sociais anunciam e que termina por\nproduzir insatisfa\u00e7\u00e3o e desencanto; o conflito derivado da alta exposi\u00e7\u00e3o \u00e0\ncomunica\u00e7\u00e3o tecnologicamente induzida emerge como indisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o,\nno exato momento em que a comunica\u00e7\u00e3o com o outro finalmente pareceria estar ao\nalcance, o que produz um efeito de \u201cretorno \u00e0s ruas\u201d, ao cen\u00e1rio do contato\nefetivo e real, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o na \u201ccomunidade efetiva\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As redes sociais s\u00e3o agora o principal meio de comunica\u00e7\u00e3o,\nde mobiliza\u00e7\u00e3o, de cria\u00e7\u00e3o de narrativas, de falsifica\u00e7\u00e3o de verdades; as \u201cfake\nnews\u201d s\u00e3o armas midi\u00e1ticas de atemoriza\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio, pequenas escaramu\u00e7as\nde terrorismo online; s\u00e3o o ponto m\u00e1ximo da virtualiza\u00e7\u00e3o do discurso, porque\nse sustentam sobre apoios prec\u00e1rios de verossimilhan\u00e7a mas, mesmo assim,\nproduzem efeitos reais, de transforma\u00e7\u00e3o nas formas de percep\u00e7\u00e3o, de elabora\u00e7\u00e3o\ne de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova globaliza\u00e7\u00e3o torna patente aquilo que j\u00e1 se via: uma\nimagem de futuro imprecisa e amea\u00e7adora e uma necessidade de regressar ao\npassado, de viver em suas certezas e em suas sem\u00e2nticas. A din\u00e2mica de conflito\nparece n\u00e3o conseguir desnudar passado e futuro, e, por n\u00e3o faz\u00ea-lo, o presente\nemerge como gerador de mal-estar e desassossego. Boa parte da revolta e do\nconflito reflete esse n\u00e3o querer permanecer em uma condi\u00e7\u00e3o de extrema\nincerteza.<\/p>\n\n\n\n<p>O paradoxo contempor\u00e2neo poderia ser expresso assim: a\nracionalidade econ\u00f4mica, os equil\u00edbrios macrofiscais ou a necessidade de\nenfrentar a crise aparecem como geradores de inequidade e exclus\u00e3o, quando poderiam\nser geradores de um novo pacto social, que conduza \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da pobreza e da\ninequidade, que promova novas condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento sustent\u00e1vel do\nplaneta.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica do antagonismo n\u00e3o \u00e9 suficiente, e tampouco a da\nhegemonia ou da autonomia que entram em jogo no conflituoso cen\u00e1rio\ncontempor\u00e2neo; estas pareceriam ser formas \u00e0s quais acorreram os movimentos\nsociais que caracterizaram fases anteriores da globaliza\u00e7\u00e3o; a a\u00e7\u00e3o coletiva\nter\u00e1 capacidade de incid\u00eancia nessa nova fase, e ser\u00e1 formada por movimentos de\nmassa, pac\u00edficos mas intransigentes em sua capacidade de impacto, e isso passa\npor depurar suas formas de impugna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Saharauiak en Foter.com \/ CC BY-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es e os conflitos que surgiram ao longo de 2019 deixam uma sensa\u00e7\u00e3o de surpresa e perplexidade, surpreendem por sua contund\u00eancia, por seu car\u00e1ter contestat\u00f3rio, viol\u00eancia e radicalismo. 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