{"id":15169,"date":"2023-02-11T08:00:00","date_gmt":"2023-02-11T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=15169"},"modified":"2023-02-11T09:50:54","modified_gmt":"2023-02-11T12:50:54","slug":"o-regresso-a-um-mundo-dividido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-regresso-a-um-mundo-dividido\/","title":{"rendered":"O regresso a um mundo dividido"},"content":{"rendered":"\n<p>O fim da Guerra Fria foi saudado com grande otimismo pela comunidade internacional e, em particular, pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que anunciou ao mundo os grandes dividendos da paz. D\u00e9cadas de um mundo dividido e enfrentado em grandes blocos tinham sido deixadas para tr\u00e1s, e se dava um passo para uma nova oportunidade para o desenvolvimento e a democracia globais. Este otimismo, inclusive, levou alguns a acreditar que se tinha chegado ao fim da Hist\u00f3ria. As d\u00e9cadas que se seguiram aos anos 1990 mostraram rapidamente que os conflitos n\u00e3o tinham desaparecido de cena e que o sistema unipolar emergente n\u00e3o estava isento de grandes riscos. Longe de ter chegado \u00e0 sua conclus\u00e3o, a Hist\u00f3ria s\u00f3 continuava no seu caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os vinte anos que se seguiram ao fim da Guerra Fria mostraram um cen\u00e1rio com novas turbul\u00eancias (a mais grave, a emerg\u00eancia do terrorismo internacional como uma amea\u00e7a mundial), mas onde a esperan\u00e7a de um mundo menos dividido e polarizado permaneceu. De fato, em 2010 parecia que a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) e a Federa\u00e7\u00e3o Russa estavam dispostas a celebrar algum tipo de matrim\u00f4nio por interesse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, as desaven\u00e7as do matrim\u00f4nio logo chegaram. A crise em torno da posi\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia tornou-se evidente em 2013 e desde ent\u00e3o at\u00e9 a eclos\u00e3o da guerra, nove anos mais tarde, a comunidade internacional n\u00e3o foi capaz de impedir a amea\u00e7a de invas\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Russa a seu pa\u00eds vizinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, h\u00e1 a coincid\u00eancia de a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/guerra-da-ucrania\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">guerra na Ucr\u00e2nia<\/a> n\u00e3o ser apenas um acontecimento atroz, mas tamb\u00e9m um sintoma de um processo global: o estabelecimento das bases de um novo mundo que est\u00e1 sendo formado, uma situa\u00e7\u00e3o que foi vista como correspondente a uma nova armadilha de Tuc\u00eddides; isto \u00e9, o surgimento de um centro emergente de poder mundial que pode (ou n\u00e3o) deslocar o velho centro em decad\u00eancia, algo que com frequ\u00eancia tem sido resolvido mediante guerras.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O livro&nbsp; <em>Destined For War<\/em> do Professor Graham T. Allison mostra que isto j\u00e1 aconteceu v\u00e1rias vezes ao longo da Hist\u00f3ria mundial. \u00c9 verdade que esta possibilidade tem na atualidade um filtro importante: nos encontramos na era nuclear. O cen\u00e1rio da guerra mundial do s\u00e9culo passado j\u00e1 n\u00e3o se pode repetir, a menos que os concorrentes queiram morrer na tentativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas al\u00e9m das formas que se possa assumir esse hipot\u00e9tico conflito militar, o que parece ineg\u00e1vel \u00e9 que o mundo atual que est\u00e1 sendo formado parece regressar \u00e0 divis\u00e3o que pens\u00e1vamos ter ultrapassado. Tudo indica que est\u00e1 sendo estabelecida uma competi\u00e7\u00e3o crescente entre dois p\u00f3los: uma alian\u00e7a entre duas pot\u00eancias nucleares, China e R\u00fassia, com uma orienta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, frente a um Ocidente, tamb\u00e9m nuclear, onde a democracia busca defender-se de seus inimigos internos e externos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que, como no passado, este conflito bipolar n\u00e3o descarta a exist\u00eancia de um conjunto de pa\u00edses emergentes, cujo maior exemplo \u00e9 a \u00cdndia, que jogam numa posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, da mesma forma que tamb\u00e9m fez no s\u00e9culo passado o movimento dos n\u00e3o alinhados. Tamb\u00e9m podem ficar (em uma posi\u00e7\u00e3o entre os dois blocos) uma boa quantidade de pa\u00edses latino-americanos. No passado, contudo, isto n\u00e3o diminuiu a divis\u00e3o do mundo que determinou a Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<p>O<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/pelosi-em-taiwan-um-gesto-politico-e-uma-resposta-desproporcional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> choque ideol\u00f3gico e cultural entre estes dois campos emergentes<\/a> tem tamb\u00e9m relatos justificativos. Do Ocidente, h\u00e1 uma refer\u00eancia \u00e0 necessidade de for\u00e7ar o outro bloco a abandonar as a\u00e7\u00f5es do poder sem regras, enquanto a China e a R\u00fassia concordam em exigir o desaparecimento definitivo do mundo unipolar que surgiu em 1990 e a conquista de uma multipolaridade livremente escolhida. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio o esfor\u00e7o de comprovar at\u00e9 que ponto este quadro internacional pode ser entendido como uma nova guerra fria, mas o que \u00e9 ineg\u00e1vel \u00e9 que um mundo novamente dividido est\u00e1 sendo formulado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta divis\u00e3o global se retroalimenta da profunda polariza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-cultural que experimenta a maioria dos pa\u00edses ocidentais, algo que tamb\u00e9m se evidencia em muitos pa\u00edses latino-americanos. A vit\u00f3ria estreita de algumas for\u00e7as progressistas na regi\u00e3o levou alguns a acreditar que estamos na presen\u00e7a de uma nova onda rosa. No entanto, a verdade \u00e9 que, ao contr\u00e1rio da primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo, n\u00e3o houve uma mudan\u00e7a do eleitorado para candidatos de esquerda, mas sim governos progressistas em sociedades que est\u00e3o praticamente divididas ao meio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta divis\u00e3o s\u00f3cio-cultural, que tamb\u00e9m afeta a Europa, serve de base em alguns pa\u00edses para uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica exacerbada que, com frequ\u00eancia, \u00e9 um terreno f\u00e9rtil para ofertas populistas de distinta orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O prolongamento da guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 um sintoma de que o horizonte de um mundo dividido pode prolongar-se durante boa parte do s\u00e9culo XXI. Do mesmo modo, um fim precoce da guerra na Ucr\u00e2nia seria um sinal de que a comunidade internacional \u00e9 capaz de inverter este regresso a um mundo dividido. \u00c9 por isso que propostas como a do Presidente <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2023\/02\/lula-vai-apresentar-a-biden-ideia-de-clube-da-paz-para-ucrania-com-participacao-da-china.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva para acabar com a guerra<\/a> o mais depressa poss\u00edvel s\u00e3o t\u00e3o relevantes. N\u00e3o s\u00f3 mostra que os pa\u00edses interm\u00e9dios t\u00eam a coragem de sair da ret\u00f3rica do confronto e fazer boas propostas, mas que, se de fato favorecerem uma deten\u00e7\u00e3o da guerra, contribuir\u00e3o para que nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas se possa desenvolver um mundo menos dividido.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9 muito prov\u00e1vel que as partes em conflito levem a s\u00e9rio as propostas pacificadoras, mas \u00e9 saud\u00e1vel que saibam que nem todo o mundo se alinha com algum dos blocos que est\u00e3o sendo formados, e que muitos n\u00e3o est\u00e3o dispostos a olhar de lado um enfrentamento b\u00e9lico que causa tanta destrui\u00e7\u00e3o e morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 apenas um fato terr\u00edvel, mas tamb\u00e9m um sintoma de um processo de transforma\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n","protected":false},"author":300,"featured_media":15139,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16757,16757,16949,16761,16949,16761,14414,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-15169","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-eeuu-pt-br","9":"category-politica-internacional-pt-br","10":"category-china-es-pt-br","13":"category-eua","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/300"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15169"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15169\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15169"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=15169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}