{"id":16049,"date":"2023-03-22T08:00:00","date_gmt":"2023-03-22T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=16049"},"modified":"2023-03-21T09:56:37","modified_gmt":"2023-03-21T12:56:37","slug":"lula-entre-cenarios-de-mudanca-e-equivocos-na-politica-externa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/lula-entre-cenarios-de-mudanca-e-equivocos-na-politica-externa\/","title":{"rendered":"Lula: entre cen\u00e1rios de mudan\u00e7a e equ\u00edvocos na pol\u00edtica externa"},"content":{"rendered":"\n<p>O retorno de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/lula\/\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a> \u00e0 presid\u00eancia do Brasil suscitou grandes expectativas. Entretanto, as circunst\u00e2ncias internacionais e nacionais mudaram em rela\u00e7\u00e3o aos seus dois mandatos anteriores. O pr\u00f3prio Lula parece diferente. Seu desempenho em pol\u00edtica externa come\u00e7ou com graves descuidos acerca da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/guerra-da-ucrania\/\">guerra na Ucr\u00e2nia,<\/a> onde pretende agora se oferecer como mediador de paz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em 2002 e 2006, Lula gozou de uma situa\u00e7\u00e3o muito favor\u00e1vel&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar ao poder em 2003, Lula pode beneficiar-se de um contexto internacional favor\u00e1vel. Os altos pre\u00e7os internacionais das <em>commodities<\/em> garantiram enormes recursos para sua pol\u00edtica social e exterior. Outros l\u00edderes da regi\u00e3o compartilharam sua vis\u00e3o de mundo. Juntos, conformaram uma frente progressista que proporcionou esperan\u00e7a a um continente em busca de progresso social e econ\u00f4mico e de um papel internacional mais proeminente. A relativa retirada dos Estados Unidos do continente, juntamente com a ascens\u00e3o da China e de outras pot\u00eancias emergentes, abriram espa\u00e7os para a Am\u00e9rica Latina e seus dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em n\u00edvel nacional, Lula venceu a disputa eleitoral, com mais de 60% dos votos nos pleitos de 2002 e 2006. Nessas elei\u00e7\u00f5es, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) obrigou os partidos pol\u00edticos com candidatos presidenci\u00e1veis a n\u00e3o formar coaliz\u00f5es com partidos rivais nas concomitantes elei\u00e7\u00f5es legislativas e de governadores. Isto fortaleceu a governabilidade em n\u00edvel federal. Lula tinha naquele momento um mandato claro e pr\u00f3-ativo: fortalecer a agenda social, combater a pobreza e a desigualdade e acompanhar o pa\u00eds em dire\u00e7\u00e3o a um papel mais central em \u00e2mbito global.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Lula e seu Partido dos Trabalhadores (PT) se apresentaram como algo novo. Isto apesar do fato de Lula estar concorrendo \u00e0 presid\u00eancia pela quarta vez em 2002. O mandat\u00e1rio se apresentava como um campe\u00e3o do povo e dos marginalizados. Ao mesmo tempo, falava e atuava com pragmatismo para n\u00e3o alienar setores nacionais e internacionais e contribuir para uma imagem de modera\u00e7\u00e3o e credibilidade do governo e do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em 2023 os cen\u00e1rios s\u00e3o muito diferentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente. No plano internacional, a bonan\u00e7a das commodities acabou limitando a possibilidade de gastos sociais. A pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucr\u00e2nia est\u00e3o mudando o rumo pol\u00edtico e econ\u00f4mico das grandes pot\u00eancias. As alian\u00e7as internacionais se tornar\u00e3o cada vez mais estrat\u00e9gicas e menos contingentes. O espa\u00e7o para aventuras internacionais ser\u00e1 restrito.<\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/america-latina\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a> est\u00e1 profundamente dividida em temas econ\u00f4micos, de entendimento da democracia, direitos humanos, Estado de direito e modelos de desenvolvimento. \u00c9 razo\u00e1vel perguntar se a Am\u00e9rica Latina ainda constitui uma comunidade de valores compartilhados. N\u00e3o haver\u00e1 facilmente outra mar\u00e9 progressista, apesar das elei\u00e7\u00f5es no Chile e na Col\u00f4mbia e do futuro resultado na Argentina e no Paraguai.<\/p>\n\n\n\n<p>Na frente interna, Lula venceu as elei\u00e7\u00f5es de 2022 com menos de 51% dos votos, tem uma maioria de governadores contr\u00e1rios em estados-chave e n\u00e3o controla o Congresso. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social \u00e9 dif\u00edcil. O Brasil ainda n\u00e3o havia se recuperado da grave recess\u00e3o de 2015 e 2016, e a economia caiu outra vez em 2020 por causa da pandemia. O ataque ao Congresso, que ocorreu em janeiro deste ano, demonstrou a for\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o al\u00e9m do bolsonarismo e que h\u00e1 uma metade do pa\u00eds contr\u00e1ria ao lulismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O pr\u00f3prio Lula mudou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Lula, aos 77 anos de idade, parece ter menos energia, o que seria natural e compreens\u00edvel. Sua figura e sua proposta pol\u00edtica n\u00e3o s\u00e3o algo novo, mas uma volta ao passado. Mais do que uma agenda propositiva, o Lula atual se concentra em uma agenda conflitiva. Em 2003, quando tomou posse pela primeira vez, ele tentou tranquilizar os c\u00e9ticos e aqueles que n\u00e3o haviam votado nele. Em 2023, em sua posse, prometeu um governo para 215 milh\u00f5es de brasileiros, mas ao mesmo tempo se concentrou na cr\u00edtica ao governo anterior. Lula o rotulou duramente de &#8220;projeto de destrui\u00e7\u00e3o nacional&#8221; e o fez em um Congresso onde a maioria \u00e9 partid\u00e1ria do ex-presidente, e a maior bancada \u00e9 a bolsonarista.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esta n\u00e3o seja a forma mais apropriada de reunir e apaziguar uma sociedade polarizada. As poss\u00edveis medidas econ\u00f4micas do governo preocupam os investidores internacionais que temem uma instabilidade exacerbada e uma not\u00f3ria agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Al\u00e9m disso, os esc\u00e2ndalos e a experi\u00eancia judicial com o encarceramento prejudicaram a credibilidade de Lula aos olhos de uma grande parte do eleitorado. O uso pol\u00edtico do poder judici\u00e1rio, de uma forma ou de outra, n\u00e3o ajuda a estabilidade do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um desempenho question\u00e1vel na guerra na Ucr\u00e2nia&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-politica-externa-de-lula-e-o-futuro-do-regionalismo-sul-americano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lula tem gerado grandes expectativas, especialmente na pol\u00edtica externa<\/a>. Seus apoiadores esperam um relan\u00e7amento da integra\u00e7\u00e3o latino-americana, um renascimento do sul global e um papel internacional protagonista para o Brasil. Isto ser\u00e1 complicado porque as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o as de 2003 ou 2007. A agenda internacional est\u00e1 voltada para a guerra na Ucr\u00e2nia. Lula est\u00e1 tentando se envolver neste assunto para relan\u00e7ar as ambi\u00e7\u00f5es internacionais do Brasil, mas seu desempenho at\u00e9 agora e os antecedentes exigem cautela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como candidato em maio de 2022, ele declarou que o presidente da Ucr\u00e2nia, Volod\u00edmir Zelensky, &#8220;foi t\u00e3o respons\u00e1vel quanto Vladimir Putin pela guerra&#8221;. E acrescentou que o Presidente Joe Biden e a Uni\u00e3o Europeia eram igualmente culpados por n\u00e3o negociarem o suficiente com Putin. Esta \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o muito ideol\u00f3gica e equivocada. Se um n\u00e3o quer, n\u00e3o se pode negociar. Mas o mandat\u00e1rio brasileiro, ap\u00f3s um ano de guerra e atrocidades, comentou: &#8220;Se um n\u00e3o quer, dois n\u00e3o podem lutar&#8221;. Isto n\u00e3o \u00e9 verdade. Se h\u00e1 um agressor, dois podem lutar, mesmo que a v\u00edtima n\u00e3o queira. Bem deveria saber disso o presidente de um pa\u00eds que ocupa a 15\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 195 pa\u00edses do mundo por homic\u00eddios intencionais e a quarta por roubos violentos, segundo o Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).<\/p>\n\n\n\n<p>Com tais declara\u00e7\u00f5es como credenciais, agora <a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2023-03-02\/los-presidentes-zelenski-y-lula-mantienen-su-primera-conversacion.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lula pretende ser mediador da paz na Ucr\u00e2nia<\/a>. Sua proposta incluiria a \u00cdndia, China e Indon\u00e9sia para integrar um grupo de mediadores e pedir a cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades. A proposta, assim como a da China, n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre agressor e agressor. N\u00e3o \u00e9 de surpreender que a R\u00fassia tenha reagido positivamente. Entretanto, uma cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades sem concess\u00f5es por parte da R\u00fassia seria tolerar a agress\u00e3o de Moscou. Tamb\u00e9m valeria a pena recordar o fracasso da tentativa de media\u00e7\u00e3o do Brasil, junto a Turquia em 2010, sobre o enriquecimento de ur\u00e2nio do Ir\u00e3. Envolver-se em quest\u00f5es muito grandes e medi\u00e1ticas sem o adequado status e respaldo pode ser um tiro pela culatra e afetar o consenso. Nesse aventureirismo, sim: Lula permanece o mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A volta de Lula da Silva \u00e0 presid\u00eancia suscitou grandes expectativas, mas as circunst\u00e2ncias mudaram em rela\u00e7\u00e3o aos seus mandatos anteriores.<\/p>\n","protected":false},"author":332,"featured_media":16047,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16768,16753,16728,16719,14494,14507,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-16049","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-lula-da-silva-pt-br","8":"category-politica-exterior-pt-br","9":"category-brasil-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-politica-externa","12":"category-relacoes-internacionais","13":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/332"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16049"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16049\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16047"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16049"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=16049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}