{"id":1612,"date":"2020-03-25T08:32:00","date_gmt":"2020-03-25T11:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1612"},"modified":"2024-06-21T08:11:10","modified_gmt":"2024-06-21T11:11:10","slug":"a-estrutura-racial-das-sociedades-latino-americanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-estrutura-racial-das-sociedades-latino-americanas\/","title":{"rendered":"A estrutura racial das sociedades da A.L."},"content":{"rendered":"\n<p>Uma pergunta recorrente entre aqueles que analisam a Am\u00e9rica\nLatina \u00e9: quais s\u00e3o as semelhan\u00e7as entre seus pa\u00edses? No meu caso, estou cada\nvez mais convicto de que o racismo \u00e9 o elemento que melhor explica uma s\u00e9rie de\nfen\u00f4menos pol\u00edticos, sociais e econ\u00f4micos, por estar presente em todos pa\u00edses,\ncontinentais ou insulares, grandes e pequenos, do rio Bravo, no M\u00e9xico, ao cabo\nde Hornos, no Chile, sem que importe o idioma ou se os pa\u00edses t\u00eam ra\u00edzes\nantigas ou s\u00e3o jovens como a Guiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Se bem seja uma caracter\u00edstica bastante frequente e com\npresen\u00e7a em outros pa\u00edses, na regi\u00e3o o racismo \u00e9 um tra\u00e7o compartilhado com\norigem na coloniza\u00e7\u00e3o, que as elites de cada pa\u00eds mantiveram e cultivaram com\nesmero. O processo de domina\u00e7\u00e3o estrangeira, em alguns casos iniciado h\u00e1 500\nanos, registrou diferen\u00e7as substanciais devido \u00e0s diferen\u00e7as entre os\ncolonizadores, \u00e0s migra\u00e7\u00f5es e aos sistemas econ\u00f4micos, entre outras coisas.\nParte-se assim de um fato comum cujos matizes dificultam generalizar sobre seus\nefeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo \u00e9 um atraso colonial que se baseia na\ndesumaniza\u00e7\u00e3o e na suposta inferioridade dos ind\u00edgenas e escravos para\njustificar sua submiss\u00e3o. Mas s\u00e9culos depois do momento de funda\u00e7\u00e3o, o racismo\nainda se mant\u00e9m, fortalecido e sofisticado pelos benef\u00edcios que gerou e ainda\ngera para as elites e as classes m\u00e9dias latino-americanas. Ainda que a\ndefini\u00e7\u00e3o mais simples de racismo seria que se trata de um sistema de\ndiferencia\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas fisiol\u00f3gicas e \u00e9tnicas, o relevante\n\u00e9 que se trata de um mecanismo de poder que serve para discriminar,\ndificultando ou favorecendo o acesso a todo tipo de recurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do fato biol\u00f3gico, no racismo existe al\u00e9m disso um\nproblema de identidade: quando as identidades s\u00e3o constru\u00eddas em oposi\u00e7\u00e3o a um\n\u201coutro\u201d simb\u00f3lico, certas caracter\u00edsticas do sujeito s\u00e3o ocultadas ou\nsublimadas a fim de acentuar as diferen\u00e7as. Por isso s\u00e3o insustent\u00e1veis os\nargumentos que minimizam a import\u00e2ncia do racismo ao afirmar que a regi\u00e3o toda\n\u00e9 mesti\u00e7a, ou que n\u00e3o entendem como se pode perceber como \u201cbrancas\u201d pessoas em\ncujos tra\u00e7os se percebe que seus av\u00f3s n\u00e3o vieram da Europa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00e9 \u00fatil a ideia de \u201cfronteira \u00e9tnica\u201d proposta por Andr\u00e9s Guerrero, entendida como uma esp\u00e9cie de artefato simb\u00f3lico de domina\u00e7\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para compreender esse fato, \u00e9 \u00fatil a ideia de \u201cfronteira\n\u00e9tnica\u201d proposta por Andr\u00e9s Guerrero, entendida como uma esp\u00e9cie de artefato\nsimb\u00f3lico de domina\u00e7\u00e3o no qual as rela\u00e7\u00f5es cotidianas produzem e reproduzem, de\nforma simult\u00e2nea, o \u201cind\u00edgena\u201d e o \u201cbranco mesti\u00e7o\u201d (argumento facilmente\nadapt\u00e1vel a regi\u00f5es onde vivem afrodescendentes). \u00c9 uma estrutura elementar de\ndomina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica que instaura uma dicotomia prim\u00e1ria entre o \u00edndio ou negro e o\nn\u00e3o \u00edndio ou negro, que organiza e justifica as posi\u00e7\u00f5es que as pessoas ocupam\nna sociedade, assim como as rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfrentamento ocorrido na Bol\u00edvia depois que Evo Morales\n\u201crenunciou\u201d por sugest\u00e3o do general Kalim\u00e1n mostrou as caras mais brutais do\nracismo. O mesmo acontece no Brasil para deslegitimar a pol\u00edtica social dos\ngovernos do PT. Mas n\u00e3o se trata de fen\u00f4menos pr\u00f3prios de zonas de alta\npopula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena \u2013 Andes, Mesoam\u00e9rica, Cuenca del Plata \u2013 ou passado\nescravagista, e sim de um tra\u00e7o que cruza todos os pa\u00edses com formas distintas\nde identidade e express\u00e3o. Aos sinais mais vis\u00edveis de racismo, como o uso\ndesdenhoso ou insultuoso dos termos \u201c\u00edndio\u201d e \u201cnegro\u201d, se somam formas sutis:\nmicrorracismos, para dar um nome \u00e0 coisa. Ser\u00e1 que \u201cnaco\u201d, no M\u00e9xico; \u201ccholo\u201d,\nem diversos pa\u00edses; \u201ccanario\u201d, no Uruguai; ou os argentinismos \u201cvillero\u201d,\n\u201cgrasa\u201d ou o \u201ccabecita\u201d peronista n\u00e3o costumam adquirir conota\u00e7\u00f5es pejorativas\ne etnossociais? A prova est\u00e1 na abund\u00e2ncia de villeros, nacos e cholos loiros e\nde olhos claros.<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo tamb\u00e9m \u00e9 desigualdade econ\u00f4mica \u2013a organiza\u00e7\u00e3o\nassistencial Oxfam demonstrou a clara correla\u00e7\u00e3o entre renda e \u201cra\u00e7a\u201d, no\nM\u00e9xico\u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 culpa das elites estrangeiras, mas das elites e classes\nm\u00e9dias de cada pa\u00eds. Ademais, isso limita a mobilidade social, o que acentua as\ndiferen\u00e7as de classe e de status, gerando frustra\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica a um s\u00f3\ntempo. O argumento \u00e9 simples: se os espa\u00e7os de poder e ascens\u00e3o social e\necon\u00f4mica est\u00e3o muito relacionados \u00e0s caracter\u00edsticas raciais, e ademais os\nmecanismos cl\u00e1ssicos de mobilidade, como a educa\u00e7\u00e3o ou a carreira profissional,\ndeixam de funcionar, de que serve a um ind\u00edgena ou afrodescendente se esfor\u00e7ar\nno estudo ou trabalho, se certas posi\u00e7\u00f5es na pr\u00e1tica lhe estar\u00e3o vedadas? A\ncoisa \u00e9 ainda mais bruta quando, mesmo para trabalhos que requerem menos\nqualifica\u00e7\u00e3o, e sobretudo para mulheres, \u00e9 comum pedir \u201cboa apar\u00eancia\u201d,\neufemismo que encobre c\u00e2nones fisiol\u00f3gicos e est\u00e9ticos branco-mesti\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, por exemplo, vemos como no Chile, M\u00e9xico e Venezuela as pessoas que descendem em segunda ou terceira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes europeus ou \u00e1rabes conseguiram galgar posi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas com mais facilidade devido \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o dessas sociedades \u00e0s suas pr\u00f3prias origens. Elas tiveram acesso a recursos vedados aos cidad\u00e3os de origem local ainda que, em um primeiro momento, suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas talvez fossem iguais \u00e0s dos nativos. A diferen\u00e7a substancial entre os dois grupos existe em termos de status. Mas um dos piores defeitos do racismo \u00e9 a fraqueza da democracia, da cidadania e do Estado de Direito. Como sistemas que partem da ideia de igualdade podem funcionar em sociedades nas quais as pessoas t\u00eam direitos desiguais em fun\u00e7\u00e3o da cor de sua pele?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Secretar\u00eda de Cultura CDMX en Foter.com \/ CC BY-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pergunta recorrente entre aqueles que analisam a Am\u00e9rica Latina \u00e9: quais s\u00e3o as semelhan\u00e7as entre seus pa\u00edses? No meu caso, estou cada vez mais convicto de que o racismo \u00e9 o elemento que melhor explica uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos pol\u00edticos, sociais e econ\u00f4micos, por estar presente em todos pa\u00edses.<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":1599,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16786,14435,546],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-1612","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-racismo-pt-br","8":"category-indigena","9":"category-sociedad-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1612\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1612"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=1612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}