{"id":1639,"date":"2020-04-08T06:28:00","date_gmt":"2020-04-08T09:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1639"},"modified":"2023-02-28T17:07:11","modified_gmt":"2023-02-28T20:07:11","slug":"a-irresponsabilidade-da-oms","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-irresponsabilidade-da-oms\/","title":{"rendered":"A (ir)responsabilidade da OMS"},"content":{"rendered":"\n<p>A s\u00e9rie come\u00e7a nos primeiros dias de janeiro. No primeiro epis\u00f3dio, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) reporta que a China vem descobrindo uma sequ\u00eancia de casos de pneumonia \u201cat\u00edpica\u201d na cidade de Wuhan, desde o dia 12 de dezembro de 2019: 59 casos, sete dos quais graves.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da metade do primeiro m\u00eas do ano, o vil\u00e3o j\u00e1 estava identificado (ao menos preliminarmente). Um novo <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/coronavirus-e-o-jogo-da-confianca\/\">coronav\u00edrus<\/a>, desconhecido, sobre o qual ainda n\u00e3o havia indica\u00e7\u00f5es de transmiss\u00e3o de pessoa a pessoa. Por isso, n\u00e3o havia motivo para medo. Ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro reconhecimento surgiu no final de janeiro. A OMS anunciou ter encontrado provas de transmiss\u00e3o entre pessoas, no Vietn\u00e3 e na <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-01-21\/novo-virus-chines-tem-contaminacao-entre-humanos.html\">China<\/a>, mas a descreveu como \u201climitada\u201d, acrescentando que o v\u00edrus produz \u201csintomas leves na maioria da popula\u00e7\u00e3o\u201d, e que apenas \u201c20% dos casos se tornam graves\u201d, o n\u00famero de mortes era \u201cpequeno\u201d e que, pelo menos at\u00e9 aquele momento, o surto constitu\u00eda basicamente \u201cuma emerg\u00eancia chinesa\u201d. Dif\u00edcil compreender por que motivo uma enfermidade leve, com potencial de transmiss\u00e3o limitado e baixa mortalidade, deve ser classificada como \u201cemerg\u00eancia\u201d. Mas isso \u00e9 problema da China. Por enquanto, podem continuar a n\u00e3o sentir medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que a assimetria entre a an\u00e1lise e as recomenda\u00e7\u00f5es dos especialistas da OMS e aquilo que estava acontecendo no mundo real come\u00e7ou a se tornar muito mais not\u00f3ria. Em um artigo que se provou prof\u00e9tico, Yaneer Bar-Yam, do Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, e colegas pesquisadores recomendaram adotar o \u201cprinc\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o\u201d, para lidar com o v\u00edrus. Ou seja, diante do alt\u00edssimo \u201crisco de ru\u00edna\u201d que um processo t\u00e3o complexo e arriscado como o da propaga\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus desconhecido acarreta, vale mais prevenir do que lamentar. Eles advertiram, por exemplo, de que era vital reduzir drasticamente a mobilidade do v\u00edrus, especialmente porque t\u00e3o pouco era sabido sobre ele. O artigo de Bar-Yam foi publicado em&nbsp;26 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 7 de fevereiro, 72 pa\u00edses j\u00e1 haviam implementado alguma forma de controle sobre o transporte, especialmente o internacional. Mesmo assim, at\u00e9 o come\u00e7o de mar\u00e7o a OMS continuou insistindo em que qualquer pa\u00eds que interferisse com o livre tr\u00e2nsito internacional teria de inform\u00e1-la sobre o motivo das medidas dentro de 48 horas, como estabelece o Regulamento Internacional de Sa\u00fade. Ou seja, diante do risco de uma pandemia, o que importa \u00e9 cumprir os tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos. Pior: os especialistas da organiza\u00e7\u00e3o, em entrevistas cujo objetivo era responder a consultas do p\u00fablico e \u201ctravar guerra contra as not\u00edcias falsas\u201d \u2013como a concedida por Carmen Dolea em 10 de fevereiro \u2013 recomendaram \u201cn\u00e3o cancelar viagens\u201d e exortaram as autoridades a \u201cn\u00e3o impor restri\u00e7\u00f5es ao tr\u00e2nsito internacional\u201d, o que inclu\u00eda deslocamentos dentro da China, o epicentro mundial do surto.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ent\u00e3o ao epis\u00f3dio t\u00edpico no qual os protagonistas recordam o passado em \u201cflashbacks\u201d. Em um momento que hoje pode ser compreendido como um instante de ironia monumental, a OMS tuitou em 3 de fevereiro sobre um estudo conduzido em setembro de 2019 cuja conclus\u00e3o era a seguinte: \u201cO mundo n\u00e3o est\u00e1 preparado para uma pandemia respirat\u00f3ria global, que poderia matar at\u00e9 80 milh\u00f5es de pessoas, devastar economias e criar caos social\u201d. Nem o mundo, nem a OMS, evidentemente. Em 11 de mar\u00e7o, o problema foi classificado como pandemia, quando dois dias antes, no dia 9, n\u00e3o o era, porque quatro pa\u00edses respondiam por 93% dos casos registrados. O que mudou em dois dias? S\u00f3 os especialistas da OMS sabem. Ah, sim: e s\u00f3 no final de mar\u00e7o a organiza\u00e7\u00e3o \u2013 por meio do Twitter \u2013 exortou a uma suspens\u00e3o das viagens internacionais. S\u00f3 ent\u00e3o chegou o momento de dizer: sim, tenham medo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Mas os especialistas t\u00eam uma responsabilidade para com o p\u00fablico &#8216;n\u00e3o especializado&#8217; Fingir certeza quando ela n\u00e3o existe \u00e9 perigos\u00edssimo&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Estava evidente que o Covid-19, enfim batizado, \u00e9 um v\u00edrus cujas caracter\u00edsticas est\u00e3o sendo descobertas e atualizadas dia a dia. \u00c9 imposs\u00edvel determinar com certeza, at\u00e9 o momento, que recomenda\u00e7\u00f5es espec\u00edficas fazer sobre como combat\u00ea-lo. E sobre o futuro, nem Nostradamus. Somado a isso existe a tend\u00eancia natural dos organismos internacionais de buscar \u201cmanter a calma\u201d, para que as pessoas n\u00e3o entrem em p\u00e2nico, porque isso pode ser pior que a enfermidade em si. Mas os especialistas t\u00eam uma responsabilidade para com o p\u00fablico \u201cn\u00e3o especializado\u201d Fingir certeza quando ela n\u00e3o existe \u00e9 perigos\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso acontece basicamente por duas raz\u00f5es. A primeira, e mais evidente, \u00e9 a perda de credibilidade (existe uma entrevista excelente da revista espanhola El Confidencial com o cientista italiano Sergio Romagnani, na qual ele conta como as autoridades conseguiram deter o v\u00edrus no V\u00eaneto ao ignorar diretamente as recomenda\u00e7\u00f5es da OMS). E em um contexto de crise sist\u00eamica como o atual, perder a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 nefasto para a ordem democr\u00e1tica. Mas a segunda, e mais importante, raz\u00e3o, em minha perspectiva, porque representa uma parte vital do controle da pandemia, \u00e9 o comportamento humano. Por exemplo: \u00e9 necess\u00e1rio que as pessoas compreendam que o distanciamento social \u00e9 chave, n\u00e3o s\u00f3 para evitar que o ritmo de cont\u00e1gio se acelere como para n\u00e3o sobrecarregar os sistemas de sa\u00fade e evitar gerar riscos derivados, em pacientes e potenciais pacientes, diferentes daqueles que s\u00e3o ocasionados diretamente pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a OMS por um lado indicava que o v\u00edrus produzia sintomas leves, como os de um resfriado, e era perigoso para os idosos, os portadores de defici\u00eancias imunol\u00f3gicas e pessoas com comorbidade; por outro, a doen\u00e7a era \u201cuma emerg\u00eancia na China\u201d, e a It\u00e1lia havia decidido adotar medidas de confinamento de alcance nacional. Quem \u00e9 capaz de processar racionalmente esses dois \u201cfatos\u201d ao mesmo tempo? N\u00e3o deve surpreender, portanto, que a tomada de decis\u00f5es pelas pessoas se manifeste em um espectro no qual predominam os extremos: ou bem se trata de uma gripezinha, porque n\u00e3o estou sendo obrigado a ficar em casa, ou vivemos um momento de salve-se quem puder e acabou o papel higi\u00eanica nos supermercados.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da ignor\u00e2ncia sobre um evento de tamanha magnitude, \u00e9 melhor \u2013 e eu diria at\u00e9 que \u00e9 racional \u2013 pecar por excesso de precau\u00e7\u00e3o. E os especialistas da OMS fazem mal em fingir ter certezas e em oferecer recomenda\u00e7\u00f5es que, em sua forma mais extrema, s\u00e3o contraproducentes (a hesita\u00e7\u00e3o quanto a recomendar a suspens\u00e3o das viagens internacionais e a campanha recente da organiza\u00e7\u00e3o contra o uso de m\u00e1scaras s\u00e3o dois exemplos). A s\u00e9rie ainda n\u00e3o chegou ao seu epis\u00f3dio final. Espero que termine com um final feliz, ou pelo menos respons\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de fotosinteresantes em Foter.com \/ CC BY<\/em><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A s\u00e9rie come\u00e7a nos primeiros dias de janeiro. No primeiro epis\u00f3dio, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) reporta que a China vem descobrindo uma sequ\u00eancia de casos de pneumonia \u201cat\u00edpica\u201d na cidade de Wuhan, desde o dia 12 de dezembro de 2019: 59 casos, sete dos quais graves. 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