{"id":1670,"date":"2020-04-22T05:34:00","date_gmt":"2020-04-22T08:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1670"},"modified":"2023-02-28T13:02:57","modified_gmt":"2023-02-28T16:02:57","slug":"e-as-ruas-se-esvaziaram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/e-as-ruas-se-esvaziaram\/","title":{"rendered":"Covid-19 e populismo: E as ruas se esvaziaram"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dos ensinamentos que a crise de 2008 ofereceu foi a irrup\u00e7\u00e3o do populismo, que, em diferentes configura\u00e7\u00f5es, varreu o planeta. Do italiano Matteo Salvini ao filipino Rodrigo Duterte, passando pelo h\u00fangaro Viktor Orban, de Trump a Bolsonaro, da ascens\u00e3o do Alternativa para a Alemanha ao Vox, do Syriza ao Podemos. A sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar fincou ra\u00edzes e foi se estendendo por toda parte*.  A Covid-19 tamb\u00e9m ensinou uma grande li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O mal-estar social foi se expressando com a presen\u00e7a de movimentos de protesto em um clima de conflito generalizado, sob um ambiente de polariza\u00e7\u00e3o e radicaliza\u00e7\u00e3o de narrativas, n\u00e3o necessariamente pol\u00edticas. O descontentamento tinha por origem a manuten\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de exclus\u00e3o social, com pautas muito deficientes de distribui\u00e7\u00e3o de riqueza, assim como a corrup\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, cuja visibilidade a tornava ainda mais insuport\u00e1vel. O imp\u00e9rio cultural do neoliberalismo, que potencializa respostas individuais e ego\u00edstas, contribuiu ao contrariar formas de a\u00e7\u00e3o coletiva e l\u00f3gicas de solidariedade tradicionais, em sociedades cada vez mais l\u00edquidas.<\/p>\n\n\n\n<p>2019 foi um anjo emblem\u00e1tico, quando tudo isso se cristalizou em mobiliza\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter distinto, e as ruas de muitas cidades se encheram de pessoas protestando. Culminava assim uma d\u00e9cada de protestos que, na arena espanhola, teve sua epifania no movimento dos indignados em maio de 2011. Os contextos eram muito diferentes: Porto Rico, Haiti, Hong Kong, Catalunha, Equador, Chile, Col\u00f4mbia, Bol\u00edvia&#8230; As reivindica\u00e7\u00f5es eram variadas, dificilmente reduz\u00edveis a um \u00fanico fator, ou mesmo a um denominador comum. Eram resultado de uma complicada combina\u00e7\u00e3o de elementos nos quais o ordenamento de identidades surgia como algo perempt\u00f3rio, ou em que se buscava algo aparentemente t\u00e3o simples como o reconhecimento; em outros casos, havia rela\u00e7\u00e3o com a (des)igualdade, assim como com o desejo de administrar a gest\u00e3o da desconfian\u00e7a, amplamente estendida entre os indiv\u00edduos e para com as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso se gestava em um breve lapso de desenvolvimento da nova ordem mundial digital. Imediatamente, a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/e-o-estado-estupido\/\">arena pol\u00edtica<\/a>, cujas regras de jogo se manifestavam como antiquadas e deixavam evidente sua incapacidade de realizar as tarefas que lhe cabem, pareceu entrar em um estado de fadiga democr\u00e1tica. Na pr\u00e1tico, o resultado foi um vazio de representa\u00e7\u00e3o, e seu correlato \u00e9 o descr\u00e9dito da intermedia\u00e7\u00e3o, o desencanto e a desafei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Era esse o diagn\u00f3stico do cen\u00e1rio, com ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e governantes encurralados como nunca, no instante em que o calend\u00e1rio mostrava a chegada de um novo ano.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A pandemia gerada pela Covid-19 em poucas semanas, e com capacidade in\u00e9dita de atingir todos os quadrantes do planeta, mudou drasticamente a agenda das coisas&#8221; <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A pandemia gerada pela Covid-19 em poucas semanas, e com capacidade in\u00e9dita de atingir todos os quadrantes do planeta, mudou drasticamente a agenda das coisas. De uma perspectiva latino-americana, ela torna poss\u00edvel realizar um exerc\u00edcio de introspec\u00e7\u00e3o regional, isolando a realidade da regi\u00e3o do resto do mundo. H\u00e1 tr\u00eas aspectos que requerem considera\u00e7\u00e3o por haverem conflu\u00eddo em uma hora de esvaziamento das ruas e, de alguma forma, de desativa\u00e7\u00e3o da press\u00e3o pol\u00edtica que estava em alta, principalmente no segundo semestre de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, os tra\u00e7os cl\u00e1ssicos do presidencialismo se tornaram patentes. O poder presidencial se robusteceu, e os mecanismos de controle por parte de outras institui\u00e7\u00f5es foram cerceados; a centraliza\u00e7\u00e3o foi refor\u00e7ada e a fraqueza dos partidos tornou-se evidente uma vez mais. Os presidentes, n\u00e3o importa qual seja seu seu estilo de lideran\u00e7a, encontraram uma linha de argumenta\u00e7\u00e3o para construir o relato de seu mandato. Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, do Chile, reagiu timidamente \u00e0 queda em seus \u00edndices de popularidade. Os bisonhos Lu\u00eds Lacalle Pou (Uruguai), Alberto Fern\u00e1ndez (Argentina), Alejandro Giammatei (Guatemala), Laurentino Cortizo (Panam\u00e1), Nayib Bukele (El Salvador), e a interina Jeanine A\u00f1ez (Bol\u00edvia) escaparam \u00e0 urg\u00eancia de desenvolver um programa (ou des\u00edgnio) pr\u00f3prio (o mesmo se aplica a Mart\u00edn Vizcarra, do Peru, e a Iv\u00e1n Duque, da Col\u00f4mbia). Agora, o uso da bandeira nacional, os apelos \u00e0 uni\u00e3o, a ret\u00f3rica b\u00e9lica e a ostenta\u00e7\u00e3o das virtudes vern\u00e1culas s\u00e3o os sortil\u00e9gios ran\u00e7osos que caracterizam o discurso oficial. \u00c9 curioso que, at\u00e9 o momento, Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador, dotado de um ide\u00e1rio mais original, venha sendo o \u00faltimo a mudar timidamente o passo, enquanto <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/04\/01\/mobilizacoes-no-brasil-e-no-mundo-marcam-um-ano-da-prisao-politica-de-lula\">Bolsonaro<\/a> manteve um pulso inaudito com seu ministro da sa\u00fade at\u00e9 sua cessa\u00e7\u00e3o. Daniel Ortega (Nicar\u00e1gua) nada sabe e nada contesta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, mecanismos de controle jamais vistos foram impostos sobre as sociedades, e se tornou mais clara que nunca a precariedade crescente dos sistemas de sa\u00fade, que, assim como a educa\u00e7\u00e3o, constituem um dos pilares b\u00e1sicos da pol\u00edtica. Trata-se de pa\u00edses nos quais a cobertura de sa\u00fade \u00e9 deficit\u00e1ria, e foi mercantilizada a tal ponto que existe um rombo enorme entre a esfera privada e a p\u00fablica, em detrimento desta \u00faltima. A porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) destinada \u00e0 sa\u00fade \u00e9 irris\u00f3ria, e n\u00e3o est\u00e1 nem perto de ser suficiente para confrontar uma pandemia. Por outro lado, s\u00e3o sociedades nas quais a desigualdade desloca milh\u00f5es de pessoas para a marginalidade. A metade da popula\u00e7\u00e3o que trabalha informalmente, na m\u00e9dia desses pa\u00edses, foi deixada no limbo, e, para os 25% que vivem em condi\u00e7\u00f5es habitacionais prec\u00e1rias, a mensagem oficial de permanecer em casa \u00e9 atrabili\u00e1ria. Os programas de assist\u00eancia social implementados parecem ser mais artif\u00edcios de propaganda do que outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o p\u00e2nico diante da pior recess\u00e3o econ\u00f4mica em 50 anos por causa do Covid-19, com consequ\u00eancias devastadoras para setores majorit\u00e1rios da popula\u00e7\u00e3o, gera um panorama de m\u00e1xima incerteza que ser\u00e1 traum\u00e1tico pelas consequ\u00eancias do mesmo covid-19. O formid\u00e1vel endividamento de Estados raqu\u00edticos, com pol\u00edticas fiscais improvisadas e economias fortemente dependentes do mercado externo, baseadas na explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais n\u00e3o renov\u00e1veis e no saque ao meio ambiente, prefigura um panorama de precariedade que, al\u00e9m disso, alimentar\u00e1 tanto respostas autorit\u00e1rias quanto o ressurgimento das mobiliza\u00e7\u00f5es sociais, em m\u00e9dio prazo e apesar das restri\u00e7\u00f5es devido ao mesmo Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>*Alfredo Joignant demonstrou faro ao convocar um semin\u00e1rio sobre o assunto no Chile em 2016. O resultado foi um volume, compilado com a ajuda de Claudio Fuentes e Mauricio Morales (\u201cMalaise in Representation in Latin American Countries. Chile, Argentina and Uruguay\u201d, Palgrave Macmillan, Nova York).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Charly Amato em Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia gerada pela Covid-19 com capacidade in\u00e9dita de atingir todos os quadrantes do planeta, mudou drasticamente a agenda das coisas. 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