{"id":16999,"date":"2023-05-07T05:00:00","date_gmt":"2023-05-07T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=16999"},"modified":"2023-05-06T17:42:45","modified_gmt":"2023-05-06T20:42:45","slug":"america-latina-e-a-politica-externa-feminista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-e-a-politica-externa-feminista\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina e a Pol\u00edtica Externa Feminista"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2014, a Su\u00e9cia foi o primeiro pa\u00eds que anunciou uma Pol\u00edtica Externa Feminista (PEF). Contudo, em outubro de 2022, a coaliza\u00e7\u00e3o de direita venceu as elei\u00e7\u00f5es no pa\u00eds n\u00f3rdico, e, deste ent\u00e3o, aquela que havia sido o espelho para diversos Planos de A\u00e7\u00e3o de Pol\u00edtica Feminista, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2022\/10\/suecia-acaba-com-diplomacia-feminista-e-reduz-papel-do-ministerio-do-meio-ambiente.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">deixou de figurar o seleto grupo de a\u00e7\u00f5es externas de car\u00e1ter nomeadamente feminista<\/a>.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Passados nove anos da inova\u00e7\u00e3o em assumir um paradigma feminista nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, na Am\u00e9rica Latina apenas o M\u00e9xico se lan\u00e7ou ao intento de mudar, pelo menos na nomenclatura, os caminhos que pretende seguir no sistema internacional. O M\u00e9xico, pa\u00eds no qual <a href=\"https:\/\/elpais.com\/mexico\/2022-08-30\/siete-de-cada-10-mujeres-mayores-de-15-anos-en-mexico-han-sido-victimas-de-violencia-machista.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sete em cada 10 meninas menores de 15 anos foram v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero em 2022<\/a>, anunciou que integraria a perspectiva feminista \u00e0s suas articula\u00e7\u00f5es no exterior, ainda que isso gere muitas controv\u00e9rsias. Contudo, os pa\u00edses europeus que tamb\u00e9m declararam a ado\u00e7\u00e3o da PEF t\u00e3o pouco apresentam uma trajet\u00f3ria coerente com perspectivas dos feminismos, como \u00e9 o caso da Fran\u00e7a, Alemanha e, na Am\u00e9rica do Norte, o Canad\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, o principal desafio da PEF na atualidade \u00e9 se desvincular da ideia de que \u00e9 sin\u00f4nimo de pol\u00edticas de igualdade de g\u00eanero, e, principalmente, deixar de ser uma aparente estrat\u00e9gia discursiva de governos. Desta forma, o que se tem a questionar \u00e9 se de fato, nos \u00faltimos nove anos, algum pa\u00eds implementou uma pol\u00edtica externa feminista mais al\u00e9m da adjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cO perigo de uma hist\u00f3ria \u00fanica\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como bem indicou <a href=\"https:\/\/www.ted.com\/talks\/chimamanda_ngozi_adichie_the_danger_of_a_single_story\/transcript?language=pt\">Chimamanda Ngozi Adichie<\/a>, estamos acostumados a escutar apenas uma vers\u00e3o dos fatos e assumi-los como verdades incontest\u00e1veis, principalmente se forem contados por quem det\u00e9m o poder. Ent\u00e3o, quando um pa\u00eds n\u00f3rdico que figura os principais rankings de igualdade de g\u00eanero anunciou um Manual de Pol\u00edtica Externa Feminista, assumimos este caminho, n\u00e3o apenas como poss\u00edvel e necess\u00e1rio, mas, em muitos casos, como \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tentativa de nomear suas pol\u00edticas de feministas, os Estados acabam por adjetivar pol\u00edticas de igualdade de g\u00eanero como feministas. Terminam por realizar, em alguma medida, uma coopta\u00e7\u00e3o dos feminismos em um processo de fomento de a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o hist\u00f3ricas e tradicionais nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, e que, em absolutamente nada, questionam as estruturas de desigualdade entre homens e mulheres, a distribui\u00e7\u00e3o desigual do poder, e a escassez do debate de diversidade sexual e de g\u00eanero, racismo e colonialismo no sistema internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O intuito aqui n\u00e3o \u00e9 negar os evidentes reflexos positivos em aumentar o n\u00famero de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/os-direitos-das-mulheres-retrocedem-no-mundo\/\">mulheres nos Parlamentos, nos Consulados e Embaixadas, bem como em outros postos de poder dos Estados e governos<\/a>. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio ir al\u00e9m.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, durante as elei\u00e7\u00f5es de 2022, muito se falou na possibilidade de, finalmente, termos uma mulher \u00e0 frente do Itamaraty. O que n\u00e3o aconteceu. A decep\u00e7\u00e3o de um primeiro momento, deu lugar \u00e0 esperan\u00e7a com <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2023\/01\/maria-laura-da-rocha-se-torna-1a-mulher-secretaria-geral-do-itamaraty-e-promete-atuar-por-diversidade.shtml\">o an\u00fancio de Maria Laura da Rocha, no cargo de Secret\u00e1ria-Geral<\/a>. Apenas em 2023, tivemos a primeira mulher em uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a em nosso sistema de rela\u00e7\u00f5es exteriores. Como dar o passo para uma PEF? Talvez, neste caso, seja importante valorizar a necessidade de mudan\u00e7as estruturais, mas tamb\u00e9m de (re)contar a hist\u00f3ria e as possibilidades do exerc\u00edcio dos feminismos como paradigmas de rela\u00e7\u00f5es exteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo aqui n\u00e3o \u00e9 apresentar \u201ccomo implementar uma PEF em 10 passos\u201d, mas propor uma reflex\u00e3o sobre as contribui\u00e7\u00f5es que podem e devem ser constru\u00eddas desde a experi\u00eancia latino-americana, e, em particular, brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>A historiografia do movimento feminista internacional \u00e9 narrada desde o protagonismo das lutas nos EUA e na Europa, contudo, na Am\u00e9rica Latina \u2013 assim como em outras regi\u00f5es do mundo \u2013 <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-violencia-politica-contra-as-mulheres-na-america-latina\/\">as mulheres foram e s\u00e3o ativas nas lutas por ocupar e se manter nos espa\u00e7os p\u00fablicos de seus territ\u00f3rios<\/a>. O que difere \u00e9, justamente, a maneira como se luta. Ainda que tentando evitar o demasiado academicismo, \u00e9 importante pedir uma ajuda \u00e0s reflex\u00f5es decoloniais no sentido de que houve e ainda h\u00e1 um processo de epistemic\u00eddio na regi\u00e3o, ou seja, uma constante pr\u00e1tica de apagamento das contribui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o produzidas em pa\u00edses centrais, e\/ou, pelas elites. Desta maneira, o que habituamos entender como suficiente para a implementa\u00e7\u00e3o de uma PEF acaba sendo, mais uma vez, uma (re)produ\u00e7\u00e3o dos processos de igualdade de g\u00eanero constitu\u00eddos desde contextos espec\u00edficos e, que, em muitos casos, pouco se assemelham com os nossos.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrutura governamental brasileira \u00e9 resultado de um longo processo de coloniza\u00e7\u00e3o e de colonialismo interno, no qual homens brancos e experientes (no sentido de tempo vivido) definem os caminhos que devemos seguir. N\u00e3o se busca dizer que na Europa \u00e9 diferente, mas, em dado momento, foi percebido que uma pequena dose de direitos sociais poderia contribuir para o projeto de poder vigente. O que n\u00e3o aconteceu aqui. Porque os direitos sociais n\u00e3o favorecem a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, por mais que tenhamos elegido um governo, at\u00e9 certo ponto, progressista, ainda estamos limitados nas estruturas da \u00fanica hist\u00f3ria que conhecemos e (re)contamos sobre igualdade de g\u00eanero. Os \u00faltimos quatro anos n\u00e3o foram apenas de retrocesso, mas de expans\u00e3o, ascens\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o do conservadorismo colonial brasileiro. Isso quer dizer que at\u00e9 mesmo para avan\u00e7ar nas pol\u00edticas de igualdade de g\u00eanero, as estruturas est\u00e3o mais duras e resistentes. Imaginar uma pol\u00edtica externa feminista, ainda que necess\u00e1ria, nesta altura, pode ser utopia, principalmente se for pensada a moda europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o brasileira, em primeiro lugar, deveria ser o desenvolvimento de uma PEF que revise verdadeiramente a estrutura de seu passado e presente colonial. Como tratar de uma pol\u00edtica feminista, em um Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores majoritariamente branco, masculino e heterossexual? Como integrar mulheres a postos de lideran\u00e7as em Consulados e Embaixadas quando a vis\u00e3o de sociedade, em muitos casos, \u00e9 resultado do pr\u00f3prio processo de constru\u00e7\u00e3o da elite brasileira importado da Europa (vide todo o processo de aprova\u00e7\u00e3o do Instituto Rio Branco e a estrutura hier\u00e1rquica do Itamaraty)?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando em debate presidencial, o atual presidente Lula afirmou que n\u00e3o escolheria seus Ministros por ra\u00e7a e g\u00eanero, mas por capacidade, ele revelou o que precisamos revisar antes de implementar uma PEF no Brasil: as nossas ra\u00edzes. Enquanto n\u00e3o assumirmos, ou n\u00e3o pudermos assumir, que n\u00e3o se trata de capacidade, mas de representatividade, inclus\u00e3o e diversidade, as estruturas n\u00e3o ser\u00e3o questionadas, e, ser\u00e1 muito dif\u00edcil ter uma Pol\u00edtica Externa Feminista, para al\u00e9m dos discursos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O principal desafio da pol\u00edtica externa feminista no momento \u00e9 se desvincular da ideia de que \u00e9 sin\u00f4nimo de pol\u00edticas de igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n","protected":false},"author":432,"featured_media":16996,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16896,16753,16896,16753,16782,16782,14494,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-16999","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-lideres-politicos-pt-br","8":"category-politica-exterior-pt-br","11":"category-genero-pt-br","13":"category-politica-externa","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/432"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16999"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16999\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16996"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16999"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=16999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}