{"id":17358,"date":"2023-06-02T08:00:00","date_gmt":"2023-06-02T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=17358"},"modified":"2023-05-31T09:38:50","modified_gmt":"2023-05-31T12:38:50","slug":"brasil-e-a-crescente-violencia-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/brasil-e-a-crescente-violencia-nas-escolas\/","title":{"rendered":"Brasil e a crescente viol\u00eancia nas escolas"},"content":{"rendered":"\n<p>O<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/blogs\/sou-ciencia\/2023\/04\/tragedia-nas-escolas-o-que-fazer.shtml\"> crescente n\u00famero de viol\u00eancia \u00e0s escolas<\/a> no Brasil evidencia o desamparo em que as escolas e a comunidade escolar se encontram. Ao buscar ajuda, elas se deparam com uma verdade inc\u00f4moda: o problema \u00e9 multifacetado. Ele tem como uma de suas ra\u00edzes a propaga\u00e7\u00e3o \u2013 na maioria das vezes, online \u2013 de uma ideologia embasada no masculinismo, no individualismo e na suposta superioridade. Al\u00e9m disso, o uso de viol\u00eancia \u00e9 legitimado para o alcance dos objetivos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2023\/04\/e-preciso-separar-onda-de-panico-nas-escolas-do-problema-real-da-violencia-dizem-especialistas.shtml\"> 2023<\/a>, dois eventos chocaram o pa\u00eds, mas se trata de um problema emergencial. Desde o in\u00edcio dos anos 2000 at\u00e9 abril deste ano foram registrados ao menos 24 ataques \u00e0s escolas, sendo que 12 durante o ano de 2022 e o primeiro quadrimestre de 2023, como aponta um <a href=\"https:\/\/soudapaz.org\/o-que-fazemos\/conhecer\/pesquisas\/controle-de-armas\/as-armas-do-crime\/?show=documentos#9574-3\">relat\u00f3rio sobre ataques a escolas no pa\u00eds<\/a>.<a href=\"https:\/\/media.campanha.org.br\/acervo\/documentos\/Relatorio_ExtremismoDeDireitaAtaquesEscolasAlternativasParaAcaoGovernamental_RelatorioTransicao_2022_12_11.pdf\">&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Dois pontos devem ser destacados aqui. Em primeiro lugar, a viol\u00eancia \u00e0s escolas n\u00e3o \u00e9 qualquer viol\u00eancia. Ela faz parte do que se chama de extremismo violento e o componente ideol\u00f3gico \u00e9 uma das chaves para compreend\u00ea-la. Em segundo lugar, a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a e um adolescente. A escola n\u00e3o pode ser voltada, somente, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual e acad\u00eamica, devendo ser tamb\u00e9m um espa\u00e7o para o desenvolvimento de valores.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender o fen\u00f4meno e tentar apresentar solu\u00e7\u00f5es, foi elaborado o<a href=\"https:\/\/media.campanha.org.br\/acervo\/documentos\/guia_violencia__ok.pdf\"> Guia sobre Preven\u00e7\u00e3o e Resposta \u00e0 viol\u00eancia \u00e0s escolas<\/a> que afirma que a viol\u00eancia <em>\u00e0<\/em> escola tem como alvo e local a pr\u00f3pria escola, tanto a sua estrutura f\u00edsica quanto as pessoas que fazem parte da comunidade escolar. Pode-se incluir aqui tamb\u00e9m as creches e institui\u00e7\u00f5es de ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/tv\/direto-na-fonte\/2023\/03\/30\/violencia-premeditada-e-gestada-na-convivencia-toxica\">No caso da viol\u00eancia \u00e0s escolas, h\u00e1 uma forte conex\u00e3o com motiva\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas extremistas e os ataques s\u00e3o planejados<\/a>. Como afirma a pesquisadora Telma Vinha, da Unicamp, n\u00e3o s\u00e3o inesperados, n\u00e3o surgem como rea\u00e7\u00e3o a algo pontual. A pessoa que comete os atos, em geral, do sexo masculino, jovem, branco, heterossexual, passa por um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o em que \u00e9 levado a acreditar que deve buscar sua realiza\u00e7\u00e3o pessoal acima de tudo e que sua express\u00e3o identit\u00e1ria e suas ideias s\u00e3o superiores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras pessoas. \u00c9 esse processo de radicaliza\u00e7\u00e3o que pode levar ao<a href=\"https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000247764\"> extremismo violento<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os discursos masculinistas, racistas, supremacistas, xenof\u00f3bicos, de intoler\u00e2ncia religiosa e antidemocr\u00e1ticos permeiam os pensamentos e validam os comportamentos desses jovens que est\u00e3o sendo radicalizados. S\u00e3o discursos de \u00f3dio a todo grupo minorizado, os quais, \u00e0 medida que avan\u00e7am na conquista de seus direitos, s\u00e3o percebidos como amea\u00e7as para os que est\u00e3o envoltos no ambiente de promo\u00e7\u00e3o do extremismo violento.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 nesses jovens um sentimento de injusti\u00e7a social sobre si mesmo e tamb\u00e9m uma aus\u00eancia de pertencimento. A<a href=\"https:\/\/media.campanha.org.br\/acervo\/documentos\/Relatorio_ExtremismoDeDireitaAtaquesEscolasAlternativasParaAcaoGovernamental_RelatorioTransicao_2022_12_11.pdf\"> escola \u00e9, por vezes, associada a esses sentimentos<\/a>. Al\u00e9m disso, ela representa uma institui\u00e7\u00e3o importante na sociedade, dando visibilidade \u00e0 ideologia que se quer promover. Por isso, frequentemente, a escola \u00e9 alvo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 na busca por solu\u00e7\u00e3o dos problemas que eles entendem causar os seus sentimentos de injusti\u00e7a social e n\u00e3o pertencimento, que os jovens podem ser envolvidos pelo \u00f3dio, especialmente os que est\u00e3o inseridos em ambientes familiares autorit\u00e1rios ou que foram v\u00edtimas de <em>bullying<\/em> &#8211; condi\u00e7\u00f5es que os tornam mais vulner\u00e1veis a se engajarem no extremismo violento. Este fen\u00f4meno \u00e9 potencializado por fatores como rela\u00e7\u00f5es interpessoais j\u00e1 contaminadas pelo discurso de \u00f3dio ou por um cen\u00e1rio pol\u00edtico que estimula a descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e nos valores de um estado democr\u00e1tico de direito, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma d\u00e9cada de radicaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, n\u00e3o se pode dissociar essa radicaliza\u00e7\u00e3o e o extremismo violento do avan\u00e7o da extrema-direita. Em<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/11\/protestos-de-2013-foram-o-11-de-setembro-da-direita-brasileira.shtml\"> 2013<\/a>, os protestos iniciais contra o aumento da tarifa de \u00f4nibus, em pouco tempo foram ganhando outras motiva\u00e7\u00f5es e grupos mais ligados \u00e0 direita se fortaleceram, como no caso do Movimento Brasil Livre (MBL). Nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, sob o clima de esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, o discurso de \u00f3dio come\u00e7ou a ser mais expl\u00edcito, principalmente contra os grupos favorecidos por pol\u00edticas afirmativas dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), como a popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena, com as cotas raciais nas universidades, e a popula\u00e7\u00e3o de classe baixa, com o Programa Bolsa Fam\u00edlia. \u00c9 importante destacar que o machismo institucional se fez presente durante todo o mandato da ex presidenta Dilma Rousseff (2010 &#8211; 2016), contribuindo, assim, para o<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-violencia-politica-contra-as-mulheres-na-america-latina\/\"> machismo contra ela e outras mulheres<\/a> \u2013 da vida p\u00fablica ou n\u00e3o \u2013 nas esferas interpessoais tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a defesa de uma moral que poderia ser corrompida por mais um mandato de esquerda, iniciativas como o Movimento Escola Sem Partido, ativo entre 2004 e 2019, ganharam tamb\u00e9m visibilidade. Segundo <em>Human Rights Watch<\/em>, estas iniciativas deixaram um<a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/pt\/report\/2022\/05\/12\/381942\"> legado de leis e amea\u00e7as aos professores a partir do suposto combate \u00e0 \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2014, emergiu tamb\u00e9m com for\u00e7a a discuss\u00e3o em torno da &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;. Assim, a extrema-direita, acolhendo pautas conservadoras e o sentimento anti-<em>establishment<\/em>, se fortaleceu e passou a ser uma op\u00e7\u00e3o para parte da popula\u00e7\u00e3o insatisfeita com o cen\u00e1rio vigente. A falta de regulamenta\u00e7\u00e3o da internet e a apropria\u00e7\u00e3o dos recursos digitais oferecidos pelas m\u00eddias e redes sociais permitiram que a dissemina\u00e7\u00e3o da ideologia de extrema-direita alcan\u00e7asse propor\u00e7\u00f5es gigantescas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Promovendo paz a partir da educa\u00e7\u00e3o em direitos humanos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Contra uma cultura de \u00f3dio e viol\u00eancia \u00e9 preciso a\u00e7\u00e3o a partir do que sugere a educa\u00e7\u00e3o em direitos humanos e a cultura de paz. A educa\u00e7\u00e3o em direitos humanos, enquanto pol\u00edtica p\u00fablica no Brasil, sugere que educar sobre, com e para os direitos humanos nos aponta para um caminho de respeito \u00e0s diferen\u00e7as, em que se pode conviver em um ambiente democr\u00e1tico e em que todas as pessoas vivem com dignidade. A cultura de paz, por sua vez, pode ser compreendida como um conjunto de a\u00e7\u00f5es que reconhece e acolhe conflitos, buscando transform\u00e1-los a partir do di\u00e1logo e da n\u00e3o-viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas escolas, a promo\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia em espa\u00e7os heterog\u00eaneos \u00e9 fundamental na constru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias que erradiquem, mitiguem e previnam a radicaliza\u00e7\u00e3o de jovens. \u00c9 simplista e n\u00e3o duradouro buscar solu\u00e7\u00f5es para a viol\u00eancia \u00e0s escolas a partir da militariza\u00e7\u00e3o ou de mecanismos de seguran\u00e7a como nos EUA, pa\u00eds com enorme n\u00famero de ataques armados \u00e0s escolas. A constru\u00e7\u00e3o de paz embasada nos direitos humanos e empenhada em acolher conflitos, gerenciar emo\u00e7\u00f5es e dialogar, tem mais chances de perdurar, pois coloca as pessoas no centro da an\u00e1lise e da busca por solu\u00e7\u00f5es. E a escola, se amparada pelo Estado, pelas fam\u00edlias e pela sociedade, tem potencial para ser lugar de ref\u00fagio e n\u00e3o alvo.<\/p>\n\n\n\n<p><sub>*Este texto faz parte do projeto (Re)conectar: aproximando pessoas para superar a viol\u00eancia \u00e0s escolas, realizado pelo Instituto Aurora, com apoio institucional do L21. Para apoiar a iniciativa, acesse:<a href=\"https:\/\/apoia.se\/reconectar_escolas\"> https:\/\/apoia.se\/reconectar_escolas<\/a><\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crescente viol\u00eancia escolar se deve principalmente \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o de uma ideologia baseada na masculinidade, no individualismo e em uma suposta superioridade que legitima o uso da viol\u00eancia para alcan\u00e7ar objetivos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n","protected":false},"author":441,"featured_media":17343,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16901,16901,16728,16728,17098,17098,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-17358","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-crisis-social-pt-br","9":"category-brasil-pt-br","11":"category-jovenes-pt-br","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/441"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17358"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17358\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17358"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=17358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}