{"id":17431,"date":"2023-05-27T08:00:00","date_gmt":"2023-05-27T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=17431"},"modified":"2023-05-26T13:29:46","modified_gmt":"2023-05-26T16:29:46","slug":"o-ensino-medio-e-o-futuro-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-ensino-medio-e-o-futuro-do-brasil\/","title":{"rendered":"O ensino m\u00e9dio e o futuro do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00e3o in\u00fameras as batalhas que se imp\u00f5em para <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/lula-e-o-desafio-de-governar-para-215-milhoes-de-brasileiros\/\">o governo Lula<\/a>. Nesses cinco primeiros meses de mandato uma se coloca como primordial: a urg\u00eancia em torno da revoga\u00e7\u00e3o do chamado <a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/component\/content\/article?id=40361\">Novo Ensino M\u00e9dio<\/a>, o NEM.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ensino m\u00e9dio \u00e9 uma etapa cr\u00edtica da forma\u00e7\u00e3o escolar que tem m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da consolida\u00e7\u00e3o dos conhecimentos e habilidades b\u00e1sicas adquiridas ao longo dos anos anteriores de trajet\u00f3ria escolar, ele cumpre papel fundamental para as etapas posteriores da vida, pois atua na forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os capazes de engajar-se socialmente e para possibilitar o ingresso tanto no ensino superior quanto no mercado de trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/educacao\/2023\/04\/entenda-o-novo-ensino-medio-e-suas-polemicas-em-8-pontos.shtml\">NEM<\/a> foi institu\u00eddo por medida provis\u00f3ria em 2016, durante o Governo de Michel Temer, sem consulta \u00e0 comunidade. A principal novidade da proposta, que passou a ser implementada em 2021 \u2013 <a href=\"https:\/\/novoensinomedio.educacao.sp.gov.br\/\">caso do Estado de S\u00e3o Paulo<\/a> \u2013 \u00e9 flexibiliza\u00e7\u00e3o curricular, pois permite que a partir do segundo ano o estudante escolha seu itiner\u00e1rio formativo de acordo com seus interesses e voca\u00e7\u00e3o, seriam op\u00e7\u00f5es: ci\u00eancias da natureza; ci\u00eancias humanas; l\u00edngua portuguesa e matem\u00e1tica e, profissionalizante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica o NEM implementou um aumento da carga hor\u00e1ria e reestruturou o curr\u00edculo, incluindo a oferta de forma\u00e7\u00e3o profissionalizante aos alunos. O que pode parecer bom. Um problema central \u00e9 que as escolas p\u00fablicas n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ofertar esses itiner\u00e1rios, por falta de estrutura e de docentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/inep\/pt-br\/areas-de-atuacao\/pesquisas-estatisticas-e-indicadores\/censo-escolar\/resultados\/2022\">Censo Escolar de 2022<\/a>, 87,7 % dos alunos matriculados no ensino m\u00e9dio est\u00e3o na rede p\u00fablica de ensino, a maioria nas escolas estaduais; na rede federal temos apenas 3% das matr\u00edculas. Chamo a aten\u00e7\u00e3o para alguns dados: s\u00e3o cerca de 7,9 milh\u00f5es de alunos matriculados no Ensino M\u00e9dio, em compara\u00e7\u00e3o a 11,9 milh\u00f5es nos \u00faltimos anos do ensino fundamental, ou seja, 92% dos jovens entre 15 e 17 anos est\u00e3o matriculados \u2013 e cerca de 2,5% destes abandonam a escola; 18% dos alunos cursam o ensino m\u00e9dio no per\u00edodo noturno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diversos desafios marcam historicamente essa etapa do ensino no Brasil, dentre eles: a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso, a evas\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de docentes, a infraestrutura das escolas, a quantidade de salas de aula ofertadas e a distribui\u00e7\u00e3o territorial das escolas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia de S\u00e3o Paulo tem demonstrado que o NEM ignorou a realidade de quase 90% dos alunos matriculados nesta etapa do ensino. Destaco dois problemas: por um lado, as dificuldades do poder p\u00fablico em ofertar infraestrutura, e formar, efetivar e capacitar seus docentes de acordo com o exigido pelos itiner\u00e1rios; por parte dos estudantes, a necessidade de trabalhar, o que impede\/dificulta a frequ\u00eancia em per\u00edodo integral, somado a desmotiva\u00e7\u00e3o perante a precariedade na oferta dos itiner\u00e1rios em muitas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa oferta depende da realidade de cada escola, no caso das p\u00fablicas que sofrem com um apag\u00e3o de professores de ci\u00eancias da natureza e humanas, \u00e0s vezes a \u00fanica op\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel aos estudantes \u00e9 o itiner\u00e1rio profissionalizante, que passa a ser ofertado pelo professor que deveria estar ensinando outros conte\u00fados. Observa-se tamb\u00e9m um aumento do tempo ocioso nas escolas, reflexo das dificuldades enfrentadas para ofertar os conte\u00fados dos diversos itiner\u00e1rios e da sobrecarga dos docentes. Trata-se de um arranjo que desestrutura a carreira do docente, agora obrigado a dar aulas em v\u00e1rias escolas para fechar o hor\u00e1rio e manter o sal\u00e1rio, ao mesmo tempo que desobriga os governos de realizarem novos concursos, pois a carga hor\u00e1ria das disciplinas que fundamentavam o ensino m\u00e9dio foi extremamente reduzida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das dificuldades de universaliza\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dio \u00e9 justamente a inser\u00e7\u00e3o precoce dos estudantes no mercado de trabalho, o que tamb\u00e9m os leva a questionar por quais raz\u00f5es seguir estudando. Para essa pergunta, temos ao menos duas respostas pr\u00e1ticas que t\u00eam a ver com poder sonhar o futuro: a possibilidade de aumento de renda em fun\u00e7\u00e3o da escolariza\u00e7\u00e3o e, a de cursar o ensino superior, com maior oportunidade de ascens\u00e3o e mobilidade social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tais possibilidades dependem de uma economia est\u00e1vel, de um mercado de trabalho que seja capaz de gerar oportunidades de emprego qualificados, da amplia\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o da rede de ensino superior. Seria l\u00f3gico buscar melhorar a qualidade da forma\u00e7\u00e3o escolar e, ao mesmo tempo, investir no desenvolvimento econ\u00f4mico social, visando como futuro um pa\u00eds que seja economicamente independente, uma sociedade capaz de gerar riqueza e conhecimento, livrando-se da depend\u00eancia produtiva e tecnol\u00f3gica que hoje aprofunda a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, as desigualdades e vulnerabilidades da popula\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que temos \u00e9 o inverso. O NEM precariza a forma\u00e7\u00e3o escolar e aprofunda as desigualdades, pois substitui a consolida\u00e7\u00e3o de conhecimentos b\u00e1sicos pela oferta de uma profissionaliza\u00e7\u00e3o precarizada, pautada pelo mito do empreendedorismo e voltada para um mercado de trabalho \u201cuberizado\u201d. Vemos escolas ensinando nossos jovens produzirem brigadeiros gourmet, ou como se \u201ctornarem milion\u00e1rios\u201d. Nada contra ambos, mas tais habilidades n\u00e3o garantir\u00e3o nem o ingresso no ensino superior, nem no mercado de trabalho acompanhado do incremento de renda e mobilidade social. N\u00e3o formar\u00e3o trabalhadores capacitados a impulsionar a mudan\u00e7a necess\u00e1ria para que o Brasil possa vir a ser um pa\u00eds economicamente independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os itiner\u00e1rios profissionalizantes pautados pela forma\u00e7\u00e3o do auto empreendedor de si mesmo, com um tom de discurso coach, s\u00e3o um reflexo do nosso atual mercado de trabalho, mas da falta de um quantitativo de docentes necess\u00e1rio para ofertar nas escolas, principalmente nas p\u00fablicas, toda a gama de possibilidades previstas pelos itiner\u00e1rios formativos. Na pr\u00e1tica, aprofunda-se o abismo j\u00e1 existente entre as escolas p\u00fablicas e as particulares, essas sim t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ofertar a seus alunos os poss\u00edveis itiner\u00e1rios sem precisar reduzir a carga hor\u00e1ria de conhecimentos b\u00e1sicos necess\u00e1rios para uma forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 cr\u00edtica e qualificada.<\/p>\n\n\n\n<p>O NEM tem efeitos perversos: desmotiva e aumenta a evas\u00e3o escolar, precariza acentuadamente a forma\u00e7\u00e3o dos jovens que est\u00e3o na rede p\u00fablica, elitiza ainda mais o acesso ao ensino superior, produz um desmonte paulatino do sistema educacional ao desestruturar a carreira docente, e forma m\u00e3o de obra pouco qualificada para um pa\u00eds com um mercado de trabalho precarizado e economicamente dependente aprofundando as desigualdades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tarefa hist\u00f3rica do governo Lula reverter esse processo e ouvir a sociedade, a comunidade escolar e democraticamente discutir qual ensino m\u00e9dio e qual futuro queremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em teoria, o chamado Novo Ensino M\u00e9dio pode parecer bom, mas o problema \u00e9 que as escolas p\u00fablicas n\u00e3o podem cumprir as exig\u00eancias devido \u00e0 falta de estrutura e de professores.<\/p>\n","protected":false},"author":166,"featured_media":17417,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16550,16487,16669,14395,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-17431","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-educacion","8":"category-brasil","9":"category-jovenes","10":"category-educacao","11":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17431","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/166"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17431\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17417"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17431"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=17431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}