{"id":17744,"date":"2023-06-13T08:00:00","date_gmt":"2023-06-13T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=17744"},"modified":"2023-06-12T14:38:20","modified_gmt":"2023-06-12T17:38:20","slug":"a-desigualdade-no-ensino-superior-nao-acaba-com-a-gratuidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-desigualdade-no-ensino-superior-nao-acaba-com-a-gratuidade\/","title":{"rendered":"A desigualdade no ensino superior n\u00e3o acaba com a gratuidade"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/www.oecd-ilibrary.org\/education\/la-educacion-superior-en-chile_9789264054189-es\">O ensino superior no Chile<\/a> experimentou um processo de crescimento durante as \u00faltimas d\u00e9cadas e duplicou as matr\u00edculas entre 1990 e 2020. O ensino superior nunca foi t\u00e3o grande e diverso como \u00e9 atualmente: abriga cerca de 1,3 milh\u00e3o de estudantes em 132 institui\u00e7\u00f5es vigentes, onde 7 em cada 10 alunos correspondem \u00e0 primeira gera\u00e7\u00e3o de suas fam\u00edlias com acesso \u00e0 universidade. Embora esses n\u00fameros mostrem uma hist\u00f3ria de \u00eaxito, seu outro lado s\u00e3o os indicadores de perman\u00eancia e gradua\u00e7\u00e3o. A taxa de evas\u00e3o no primeiro \u00e9 de quase 30%, a dura\u00e7\u00e3o real dos programas excede em 2 a 4 semestres sua dura\u00e7\u00e3o nominal (em m\u00e9dia) e 20% menos alunos se formam hoje do que antes da pandemia da COVID-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dados nos convidam a pensar em que medida as pol\u00edticas p\u00fablicas para aumentar o ensino superior t\u00eam sido efetivas em reduzir a desigualdade nesse n\u00edvel educacional. O Chile sustentou a amplia\u00e7\u00e3o do ensino superior em pol\u00edticas p\u00fablicas de financiamento, cujo objetivo era debilitar (ou eliminar) as barreiras econ\u00f4micas de acesso e perman\u00eancia, relegando outras limita\u00e7\u00f5es a serem resolvidas atrav\u00e9s do m\u00e9rito e do esfor\u00e7o pessoal. Dessa maneira, com a reforma de 1981, buscou-se aumentar a oferta de ensino superior atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um \u201cmercado educacional\u201d: era poss\u00edvel aumentar rapidamente a matr\u00edcula mediante o ingresso de provedores privados, sem comprometer o gasto p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um segundo momento, na d\u00e9cada de 1990, e com a oferta assegurada, o objetivo era fidelizar a demanda por ensino superior. A estrat\u00e9gia eleita foi a cria\u00e7\u00e3o do sistema de bolsas e cr\u00e9ditos estudantis, com o protagonismo do Fundo Solid\u00e1rio e do cr\u00e9dito com o aval do Estado. Posteriormente, quando as matr\u00edculas chegaram a um milh\u00e3o e a oferta e a demanda pareciam seguras, foi promulgada a pol\u00edtica de gratuidade para cobrir os custos de matr\u00edcula e taxas de 60% de alunos provenientes de lares mais vulner\u00e1veis do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/somos-uma-regiao-desigual-e-discriminatoria\/\">o debate sobre a desigualdade<\/a> no ensino superior ficou preso no econ\u00f4mico ou na abstra\u00e7\u00e3o da necessidade de melhorar a qualidade. Embora seja ineg\u00e1vel que as pol\u00edticas de financiamento tenham gerado novas oportunidades para grupos historicamente exclu\u00eddos do ensino superior, elas n\u00e3o foram exitosas na redu\u00e7\u00e3o da desigualdade por origem social. Se antes vir de um lar socioeconomicamente desfavorecido implicava uma forte probabilidade de n\u00e3o ingressar no ensino superior, hoje \u00e9 mais prov\u00e1vel ingressar, mas as possibilidades se abrem s\u00f3 para um certo tipo de ensino superior. Por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>A evid\u00eancia recente mostra que a desigualdade de acesso se manteve est\u00e1vel ou at\u00e9 aumentou se considerarmos o tipo de programa ou institui\u00e7\u00e3o em que se ingressa. No Chile, a origem social (ou seja, as caracter\u00edsticas socioecon\u00f4micas do lar de origem) influencia significativamente nas oportunidades educacionais \u00e0s quais temos acesso. Al\u00e9m disso, as origens sociais importam tanto antes quanto depois da aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura sobre estratifica\u00e7\u00e3o educacional mostra que as pol\u00edticas de crescimento tiveram um diferencial sobre a origem social. Por um lado, foram capazes de reduzir o efeito dos recursos econ\u00f4micos no acesso geral ao ensino superior (por exemplo, renda familiar ou bens). Entretanto, grande parte desse efeito se concentra nas institui\u00e7\u00f5es menos seletivas (universidades privadas, institutos profissionalizantes e cursos t\u00e9cnicos), sem afetar majoritariamente as universidades de maior prest\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, essas pol\u00edticas n\u00e3o foram capazes de reduzir o efeito dos recursos socioculturais (por exemplo, o n\u00edvel educacional dos pais) no acesso, se considerarmos tanto o acesso geral quanto a diferentes tipos de institui\u00e7\u00f5es. Assim, as novas oportunidades de acesso se estratificam ou hierarquizam de acordo com o n\u00edvel educacional do chefe de fam\u00edlia, o conhecimento em primeira m\u00e3o do sistema universit\u00e1rio e as redes de contatos. Todas essas s\u00e3o lacunas dif\u00edceis de serem preenchidas s\u00f3 atrav\u00e9s de m\u00e9rito e esfor\u00e7o pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora seja poss\u00edvel argumentar que as pol\u00edticas de financiamento tenham sido efetivas em cumprir seu objetivo de reduzir as barreiras econ\u00f4micas ao ingresso, esse efeito \u00e9 limitado e de curto prazo. As taxas de deser\u00e7\u00e3o e gradua\u00e7\u00e3o atestam seu esgotamento. Entretanto, o debate em torno da desigualdade no ensino superior segue se concentrando no financiamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem desmerecer a import\u00e2ncia de resolver problemas como o endividamento estudantil, \u00e9 necess\u00e1rio pensar em pol\u00edticas p\u00fablicas que n\u00e3o busquem s\u00f3 reverter a reforma de 1981, mas tamb\u00e9m abordar as transforma\u00e7\u00f5es posteriores. O debate p\u00fablico sobre as lacunas acumuladas nos n\u00edveis inferiores de educa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se limitam aos resultados de provas padronizadas, aponta nessa dire\u00e7\u00e3o. Essas diferen\u00e7as v\u00e3o de redes sociais mais fortes entre os mais privilegiados, baixas expectativas entre quem \u00e9 de grupos mais vulner\u00e1veis e onde as diferen\u00e7as no desempenho acad\u00eamico s\u00e3o legitimadas como sucesso ou fracasso individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Para finalizar, o debate pol\u00edtico e acad\u00eamico sobre desigualdade no ensino superior n\u00e3o deve se limitar a quest\u00f5es econ\u00f4micas, e depositar a solu\u00e7\u00e3o em medidas como a gratuidade. \u00c9 preciso debater as ferramentas de apoio docente e bem-estar estudantil, \u00e1reas cuja gest\u00e3o atualmente \u00e9 deixada a cargo de cada institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o necess\u00e1rias mais e melhores pesquisas que n\u00e3o se reduzam a desigualdade em diferen\u00e7as num\u00e9ricas, mas que tamb\u00e9m considerem as experi\u00eancias e percep\u00e7\u00f5es de desigualdade de quem transita por esse novo cen\u00e1rio no ensino superior. S\u00e3o necess\u00e1rios dados que nos permitam entender melhor n\u00e3o s\u00f3 as lacunas gerais, mas tamb\u00e9m as lacunas institucionais, setoriais, de g\u00eanero e regionais que se (re)produzem no ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p>A desigualdade no ensino superior n\u00e3o acaba com a gratuidade; menos ainda s\u00f3 com o m\u00e9rito e o esfor\u00e7o individual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ensino superior no Chile nunca foi t\u00e3o grande e diverso como na atualidade, mas a desigualdade de acesso se manteve est\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"author":449,"featured_media":17735,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16791,16716,16765,16719,14384,14395,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-17744","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-educacion-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"category-chile-es-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-desigualdade","12":"category-educacao","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/449"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17744\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17744"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=17744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}