{"id":17756,"date":"2023-06-14T08:00:00","date_gmt":"2023-06-14T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=17756"},"modified":"2023-06-14T12:58:58","modified_gmt":"2023-06-14T15:58:58","slug":"a-crescente-distancia-ideacional-entre-a-america-latina-e-a-uniao-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-crescente-distancia-ideacional-entre-a-america-latina-e-a-uniao-europeia\/","title":{"rendered":"A crescente dist\u00e2ncia ideacional entre a Am\u00e9rica Latina e a Uni\u00e3o Europeia"},"content":{"rendered":"\n<p>Na pr\u00f3xima c\u00fapula com a Am\u00e9rica Latina e o Caribe, <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/es\/ue-invertir%C3%A1-10000-millones-de-euros-en-am%C3%A9rica-latina\/a-65896120\">a Uni\u00e3o Europeia (UE) lan\u00e7ar\u00e1 a Rota 2023<\/a> como uma resposta <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-papel-da-china-na-transicao-energetica-da-america-latina\/\">a iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota da China<\/a> e ao plano de infraestrutura, 3BWorld, proposto pelos EUA para a regi\u00e3o. No entanto, Bruxelas dificilmente pode competir com as &#8220;rotas&#8221; idealizadas pela China e pelos EUA para a Am\u00e9rica Latina, pois perdeu sua presen\u00e7a desde a primeira c\u00fapula birregional em 1999, quando a UE era o segundo maior parceiro comercial da regi\u00e3o e seu principal investidor e colaborador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL), apenas 9,8% das exporta\u00e7\u00f5es latino-americanas tiveram como destino a UE em 2020-2021, o que implica uma queda acentuada desde a hist\u00f3rica segunda posi\u00e7\u00e3o, caindo para o quinto lugar, atr\u00e1s dos EUA (42,5%), China (15,4%), Am\u00e9rica Latina (14,5%) e outros pa\u00edses asi\u00e1ticos (10,4%). Esse mesmo quinto lugar \u00e9 ocupado pela UE como regi\u00e3o de origem das importa\u00e7\u00f5es latino-americanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o estoque de capital estrangeiro na Am\u00e9rica Latina venha principalmente da Europa, a China est\u00e1 aumentando seus investimentos na regi\u00e3o e a UE os est\u00e1 diminuindo. Isso se deve ao fato de que, como a maioria dos pa\u00edses latino-americanos pertencem ao grupo de pa\u00edses de renda m\u00e9dia-alta, a UE reduziu suas contribui\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento em compara\u00e7\u00e3o com regi\u00f5es como a \u00c1frica ou a \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>A escassa presen\u00e7a material da UE na Am\u00e9rica Latina e no Caribe contrasta com seu peso ideacional. A grande vantagem da UE em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China e aos Estados Unidos tem sido, at\u00e9 agora, a comunidade de valores que ela tem procurado criar, a partir de uma perspectiva horizontal e inter-regional, com a Am\u00e9rica Latina e o Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a converg\u00eancia de valores tamb\u00e9m est\u00e1 em risco, j\u00e1 que ambas as regi\u00f5es se viram imersas em um novo jogo geopol\u00edtico que exige maior realismo em suas proje\u00e7\u00f5es exteriores e que \u00e9 adverso aos princ\u00edpios liberais, como a democracia, o desenvolvimento ou a paz, que inspiraram uma parceria estrat\u00e9gica europeia-latinoamericana, criada em 1999 no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do di\u00e1logo na d\u00e9cada de 1980, a Am\u00e9rica Latina e a UE compartilham a depend\u00eancia dos EUA e a busca por maior autonomia na pol\u00edtica externa. Ambas as regi\u00f5es s\u00e3o atores fragmentados com uma limitada capacidade de tomada de decis\u00f5es e influ\u00eancia internacional. Apesar dos grandes avan\u00e7os, a UE s\u00f3 age com uma \u00fanica voz no \u00e2mbito comercial, e a Am\u00e9rica Latina raramente se apresenta como unida ou adota posi\u00e7\u00f5es comuns no cen\u00e1rio global.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o regionalismo tem sido bem-sucedido como f\u00f3rmula para buscar uma posi\u00e7\u00e3o internacional mais independente (dos EUA). Isso se tornou mais complexo ap\u00f3s a invas\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia, for\u00e7ando a regi\u00e3o a se posicionar junto aos EUA e a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) ou, ao contr\u00e1rio, junto aos Brics e, portanto, a China e a R\u00fassia. Essa polariza\u00e7\u00e3o internacional for\u00e7a a Am\u00e9rica Latina e a UE a se posicionarem a favor de um lado ou de outro, sem buscar um confronto com a China, que \u00e9 o segundo maior parceiro comercial de ambas as regi\u00f5es. Esse delicado equil\u00edbrio alterou a agenda europeia-latinoamericana: por um lado, causou um distanciamento m\u00fatuo e, por outro, um menor compromisso com a constru\u00e7\u00e3o de uma comunidade de valores.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora esse projeto estivesse em constru\u00e7\u00e3o, desde a guerra na Ucr\u00e2nia ele come\u00e7ou a se desfazer devido a diferen\u00e7as fundamentais. Apesar de apenas quatro pa\u00edses (Bol\u00edvia, Cuba, El Salvador e Nicar\u00e1gua) terem se abstido na vota\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para condenar a invas\u00e3o da R\u00fassia, as interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o divergentes. O Brasil e o M\u00e9xico rejeitaram as san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia e o apoio militar \u00e0 Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>As raz\u00f5es evidentes: as interven\u00e7\u00f5es militares dos EUA e a interfer\u00eancia dos em assuntos internos criaram uma avers\u00e3o quase un\u00e2nime contra essas a\u00e7\u00f5es unilaterais n\u00e3o sancionadas pelo Conselho de Seguran\u00e7a. Outra raz\u00e3o \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da zona de paz na Am\u00e9rica Latina. Um terceiro motivo \u00e9 o distanciamento geogr\u00e1fico, e um quarto \u00e9 a crescente coopera\u00e7\u00e3o com a China, que alega neutralidade e apresentou um plano de paz que alguns pa\u00edses apoiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Contr\u00e1rio \u00e0 leitura de que a China \u00e9 apenas um ator econ\u00f4mico na regi\u00e3o, sua ascens\u00e3o tamb\u00e9m implicou em maior afinidade pol\u00edtica. A Am\u00e9rica do Sul, com o Brasil \u00e0 frente, concentra suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com a China como efeito dos Brics e da coopera\u00e7\u00e3o sul-sul promovida pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, entre outras coisas, para obter um assento permanente no Conselho de Seguran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A C\u00fapula Celac-China, prevista para 2024, afirmaria uma crescente presen\u00e7a e influ\u00eancia pol\u00edtica e cultural do pa\u00eds asi\u00e1tico em uma regi\u00e3o tradicionalmente dependente dos EUA. Desde 2006, foram criados institutos Conf\u00facio em 23 pa\u00edses latino-americanos, e o presidente Xi Jinping fez 13 visitas \u00e0 regi\u00e3o. Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela (pa\u00edses sancionados pelos EUA) t\u00eam tido a China e a R\u00fassia como seus principais aliados.<\/p>\n\n\n\n<p>A R\u00fassia mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es estreitas com Cuba e Venezuela, mas, al\u00e9m do grupo de pa\u00edses &#8220;rebeldes&#8221;, o Brasil e at\u00e9 mesmo o M\u00e9xico demonstraram alguma afinidade com a China e mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia de Vladimir Putin.<\/p>\n\n\n\n<p>A estreita coopera\u00e7\u00e3o entre a Am\u00e9rica do Sul e a China contrasta com uma vis\u00e3o muito mais distante por parte da UE, que mant\u00e9m o di\u00e1logo e a coopera\u00e7\u00e3o com a China, pa\u00eds o qual a presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Ursula von der Leyen, descreveu como um &#8220;rival sistem\u00e1tico e concorrente econ\u00f4mico&#8221;, mas tamb\u00e9m como um parceiro de coopera\u00e7\u00e3o do qual n\u00e3o se deve &#8220;desvincular&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua contrasta com a aberta hostilidade entre a UE e a R\u00fassia, e as rela\u00e7\u00f5es, antes descritas como estrat\u00e9gicas, que mereciam duas c\u00fapulas anuais, est\u00e3o em um ponto zero, pois foram marcadas pelas san\u00e7\u00f5es e pela amea\u00e7a nuclear do Presidente Putin frente \u00e0 OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconstruir o consenso em temas internacionais nos quais antes existia maior converg\u00eancia seria um objetivo importante da C\u00fapula UE-AL-Caribe em 2023. A guerra na Ucr\u00e2nia for\u00e7ou uma leitura mais &#8220;realista&#8221; da pol\u00edtica externa da UE, o que ficou evidente no apelo de Josep Borrell para que a UE aprenda o jogo do hard power.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado latino-americano, a cria\u00e7\u00e3o dos Brics e seu desenvolvimento subsequente nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas mudaram o posicionamento geopol\u00edtico da regi\u00e3o, o que, devido \u00e0s interdepend\u00eancias econ\u00f4micas, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas com a China e a um maior compromisso pol\u00edtico com a R\u00fassia, levou a um maior distanciamento da Europa e dos EUA. A comunidade de valores liberais continua, mas ficou debilitada frente aos novos desafios internacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Reativar o consenso em torno do soft power e dos valores liberais, fortalecendo o multilateralismo, a busca pela paz entre a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia, o desenvolvimento sustent\u00e1vel ou a cria\u00e7\u00e3o de blocos regionais, \u00e9 uma necessidade para recuperar as bases das rela\u00e7\u00f5es entre a Am\u00e9rica Latina e a Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>A c\u00fapula de 2023 deve fornecer algumas respostas a esse desafio. Isso implica uma mudan\u00e7a de perspectiva por parte da UE que, em vez de ver a Am\u00e9rica Latina como um assunto espanhol ou um receptor de fundos, deve perceber o peso de 33 pa\u00edses com os quais se pode construir consensos muito mais dif\u00edceis de alcan\u00e7ar do que com outras regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente um di\u00e1logo mais sincero, que reconhe\u00e7a as diferen\u00e7as e tente construir consensos poder\u00e1 evitar o decl\u00ednio da afinidade tradicional de valores que marcava a diferen\u00e7a da Am\u00e9rica com outras regi\u00f5es, como a \u00c1frica ou a \u00c1sia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pr\u00f3xima c\u00fapula com a Am\u00e9rica Latina, a Uni\u00e3o Europeia lan\u00e7ar\u00e1 o Rota 2023 como uma resposta aos planos de infraestrutura propostos pelos EUA e pela China para a regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":233,"featured_media":17779,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16832,16753,16832,16762,16762,16753,14507,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-17756","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-union-europea-es-pt-br","8":"category-politica-exterior-pt-br","10":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","13":"category-relacoes-internacionais","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17756","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/233"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17756"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17756\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17779"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17756"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17756"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17756"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=17756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}