{"id":17807,"date":"2023-06-17T08:00:00","date_gmt":"2023-06-17T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=17807"},"modified":"2023-06-16T13:55:57","modified_gmt":"2023-06-16T16:55:57","slug":"ideologias-muros-ao-desenvolvimento-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ideologias-muros-ao-desenvolvimento-da-america-latina\/","title":{"rendered":"Ideologias: muros ao desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>As narrativas pol\u00edticas e econ\u00f4micas que t\u00eam caracterizado os debates na Am\u00e9rica Latina t\u00eam sido profundamente contaminadas pelas dicotomias da Guerra Fria e suas ideologias. Com uma simplicidade assombrosa e mesmo depois da queda do Muro de Berlim e do evidente fracasso do radicalismo de esquerda, existem, em praticamente todos os pa\u00edses, grupos que tomam essa vis\u00e3o de mundo como refer\u00eancia para estimular a popula\u00e7\u00e3o e, quando t\u00eam a oportunidade, para tomar decis\u00f5es. H\u00e1 v\u00e1rios casos em que essas narrativas s\u00e3o inspiradas por um cr\u00f4nico anti-norte-americanismo, mas, em outros, por uma convic\u00e7\u00e3o sincera de que o socialismo ou o comunismo t\u00eam as respostas.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja qual for a raz\u00e3o, esses grupos acabam condicionando o debate e dificultando o salto qualitativo para pol\u00edticas baseadas no estudo dos produtos da academia e das trajet\u00f3rias de pa\u00edses bem-sucedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, e tamb\u00e9m com uma superficialidade colossal, em todos os nossos pa\u00edses h\u00e1 l\u00edderes pol\u00edticos e economistas que, inspirados em Friedman e Hayek (ou em seus interesses econ\u00f4micos pessoais), defendem um papel para as for\u00e7as de mercado que ignora a recess\u00e3o e a recupera\u00e7\u00e3o da crise iniciada em 1929, as teorias keynesianas, as an\u00e1lises de Ra\u00fal Prebisch e, sobretudo, as pol\u00edticas praticadas em todos os pa\u00edses exitosos, come\u00e7ando pelos Estados Unidos. Por essa tentativa de ressuscitar propostas extremas do pensamento econ\u00f4mico liberal, que j\u00e1 foram expostas por suas falhas, que denominamos esse tipo de ativismo de neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, experimentamos um consenso econ\u00f4mico ressurgente nos <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a> (EUA), que fortalece a participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia, o protecionismo e a sele\u00e7\u00e3o de \u201cchampions\u201d como sujeitos de subs\u00eddios estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cRessurgente\u201d porque a realidade \u00e9 que a pol\u00edtica econ\u00f4mica desse pa\u00eds sempre distanciou muito o que prega e o que imp\u00f5e ou promove diretamente \u2013 como condi\u00e7\u00e3o para ajuda bilateral ou tratados comerciais \u2013 ou indiretamente a partir de organiza\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o economista noruegu\u00eas Erik Reinert, \u201c(&#8230;) desde os pais fundadores, os Estados Unidos sempre navegaram em dois mundos, o ativismo estatista de Alexander Hamilton e a m\u00e1xima de Thomas Jefferson de que \u2018o governo que governa menos governa melhor\u2019. Com o passar do tempo e o usual pragmatismo americano, essa rivalidade foi resolvida pondo os jeffersonianos a cargo da ret\u00f3rica e os hamiltonianos a cargo das pol\u00edticas\u201d. O protecionismo agr\u00edcola e a participa\u00e7\u00e3o direta do Estado no financiamento e na execu\u00e7\u00e3o de projetos no campo tecnol\u00f3gico, e muitas das pol\u00edticas do New Deal que nunca foram eliminadas, s\u00e3o s\u00f3 exemplos desse permanente hamiltonianismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas desde a resposta \u00e0s dificuldades de 2008, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/de-volta-a-bretton-woods\/\">o intervencionismo do Estado tem se ampliado com for\u00e7a especial<\/a>. Diante dessa crise, bancos e f\u00e1bricas de autom\u00f3veis foram nacionalizados e subsidiados, e a Reserva Federal emitiu 13% do PIB para reativar a economia. A Reserva utilizou como crit\u00e9rio para essa pol\u00edtica monet\u00e1ria a taxa de desemprego, contrariando sua prega\u00e7\u00e3o neoliberal normal &#8211; repetidas como dogma sagrado na maioria dos pa\u00edses latino-americanos &#8211; sobre a inconveni\u00eancia dos bancos centrais considerarem essa vari\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A etapa atual de aprofundamento do intervencionismo do Estado resulta do protecionismo nacionalista da direita Republicana e dos compromissos sociais e ambientais dos Democratas. A suposta amea\u00e7a chinesa alimenta ainda mais esse tipo de pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia desse neointervencionismo busca uma reforma econ\u00f4mica profunda por meio da interven\u00e7\u00e3o do Estado, utilizando todo o arsenal de ferramentas \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, dirigidas a certos setores industriais, certas empresas e certas atividades econ\u00f4micas, tudo selecionado por entidades estatais, e n\u00e3o pelas for\u00e7as do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a que se observa n\u00e3o \u00e9 qualitativa, esse ativismo governamental caracterizou o extraordin\u00e1rio desenvolvimento dos EUA e de todos os pa\u00edses exitosos. O destaque s\u00e3o outros aspectos. Em primeiro lugar, a dimens\u00e3o fiscal (cerca de US$ 2 trilh\u00f5es); em segundo lugar, a expans\u00e3o dos setores impactados por esse neointervencionismo; e, em terceiro lugar, o questionamento aberto do neoliberalismo e a disposi\u00e7\u00e3o de defender o modelo de distor\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de mercado por parte de atores proeminentes do establishment dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que o hamiltonianismo agora tamb\u00e9m est\u00e1 a cargo da ret\u00f3rica. No final de abril, ningu\u00e9m menos que Jake Sullivan, o Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional do governo, indicou que n\u00e3o se pode seguir ignorando \u201cque as depend\u00eancias econ\u00f4micas geradas durante d\u00e9cadas de liberaliza\u00e7\u00e3o haviam se tornado perigosas\u201d. E acrescentou que as pol\u00edticas \u201cque haviam energizado o projeto Americano nos anos do p\u00f3s-guerra \u2013 e, de fato, em muito da nossa hist\u00f3ria \u2013 haviam desaparecido. Haviam sucumbido a ideias que promoviam cortes de impostos, desregula\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o e livre com\u00e9rcio como fins em si mesmos. Havia uma suposi\u00e7\u00e3o no fundo de todas essas pol\u00edticas: que os mercados eram sempre melhores para a efici\u00eancia e a aloca\u00e7\u00e3o de recursos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas palavras resumem o novo Consenso de Washington. A essa altura da partida, quando em termos de crescimento econ\u00f4mico sustentado ou desenvolvimento social, a prega\u00e7\u00e3o neoliberal carece de logros na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 necess\u00e1rio que aqueles viciados em mimar os serm\u00f5es ditados pelo Norte percebam o Consenso prevalecendo hoje nessas latitudes. Isso facilitaria muito o debate e a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de desenvolvimento em nossos pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O certo \u00e9 que toda economia exitosa, seja ela de longa data ou a de Cingapura, Israel, Taiwan ou Rep\u00fablica da Coreia, p\u00f4s em pr\u00e1tica pol\u00edticas pragm\u00e1ticas, flex\u00edveis e ecl\u00e9ticas, e seus l\u00edderes n\u00e3o foram cegados pelos dogmas da esquerda radical ou da direita neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/china\/\">China<\/a>, embora tenha dado enorme espa\u00e7o \u00e0 propriedade privada e ao mercado, mant\u00e9m a presen\u00e7a do Estado em setores estrat\u00e9gicos e utiliza profundamente de incentivos de todo o tipo para atingir seus objetivos econ\u00f4micos e sociais. Pode ser destacado, em alguns c\u00edrculos interessados em geopol\u00edtica e economia, pelo forte papel do Estado na condu\u00e7\u00e3o do desenvolvimento, mas n\u00e3o por ser um fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, muitas das pol\u00edticas protecionistas das administra\u00e7\u00f5es Trump e Biden buscam combater os \u00eaxitos chin\u00eas, n\u00e3o ampliando o papel das for\u00e7as de mercado, mas intensificando o papel do Estado. Trata-se, apesar da ret\u00f3rica, de um reconhecimento do papel do ativismo governamental. Em suma, os Estados Unidos decidiram competir com a China desconfiando, em algumas \u00e1reas, da \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d do mercado e confiando na \u201cm\u00e3o vis\u00edvel\u201d do Estado, precisamente a que \u00e9 mais vis\u00edvel na China. Que paradoxo!<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja um exagero referir-se \u00e0 converg\u00eancia na pol\u00edtica econ\u00f4mica das duas pot\u00eancias como o <a href=\"https:\/\/www.nacion.com\/opinion\/columnistas\/politica-economica-consenso-washington-pekin\/L6PNEAWAXRB2RF2JQHACCHTZO4\/story\/\">Consenso Washington-Pequim<\/a>, mas tamb\u00e9m seria errado ignorar que, para competir com a China \u201cestatista\u201d, os Estados Unidos decidiram ampliar o papel do Estado em sua economia.<\/p>\n\n\n\n<p>As li\u00e7\u00f5es para nossos pa\u00edses s\u00e3o gigantescas e s\u00e3o os neoliberais daqui que devem aprend\u00ea-las primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, que a esquerda radical e o neoliberalismo deixem espa\u00e7o para uma discuss\u00e3o adulta sobre as melhores pol\u00edticas de desenvolvimento, uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que a Am\u00e9rica Latina d\u00ea o salto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, vivemos um consenso econ\u00f4mico ressurgente nos Estados Unidos, que fortalece a participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia e o protecionismo.<\/p>\n","protected":false},"author":451,"featured_media":17798,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16754,16747,16747,16716,16716,16754,14382],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-17807","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desarrollo-pt-br","8":"category-ideologia-pt-br","10":"category-desigualdad-es-pt-br","13":"category-desenvolvimento"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/451"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17807"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17807\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17807"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=17807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}