{"id":17944,"date":"2023-06-23T15:00:00","date_gmt":"2023-06-23T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=17944"},"modified":"2023-06-22T18:52:17","modified_gmt":"2023-06-22T21:52:17","slug":"china-a-proxima-dona-do-interruptor-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/china-a-proxima-dona-do-interruptor-na-america-latina\/","title":{"rendered":"China, a pr\u00f3xima dona do interruptor na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>De todas as empresas que a China comprou, inteira ou parcialmente, na Am\u00e9rica Latina entre 2017 e 2021 (por 44,4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares), <strong>71% s\u00e3o do setor de eletricidade<\/strong>. O dado, que fala por si s\u00f3, pertence ao Centro de Pol\u00edticas de Desenvolvimento Global da Universidade de Boston (BU). E aten\u00e7\u00e3o: a diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao interesse que as corpora\u00e7\u00f5es do resto dos pa\u00edses tinham no setor, que foi s\u00f3 de 7%, \u00e9 abismal.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova aposta da China neste lado do mundo \u00e9 bastante clara: tornar-se a dona da luz. Uma parte importante desse caminho j\u00e1 foi pavimentada gra\u00e7as a gastos multimilion\u00e1rios, pois, mais do que construir plantas ou redes do zero, os chineses preferem entrar com ativos consolidados. Para isso, aproveitaram os espa\u00e7os deixados pelas empresas europeias \u2013 que agora priorizam outros mercados \u2013 e o decl\u00ednio de empresas vinculadas ao esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o da Lava Jato.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a pot\u00eancia asi\u00e1tica transformou suas empresas estatais em compradores vorazes. Segundo a base de dados da BU, a China entrou no setor de eletricidade chileno com dez opera\u00e7\u00f5es de M&amp;A, outras dez no mexicano, tr\u00eas no peruano e nada menos que 112 no brasileiro. Isso apenas no setor de gera\u00e7\u00e3o (a grande maioria \u00e9 hidrel\u00e9trica). Outra hist\u00f3ria \u2013 a mais recente \u2013 est\u00e1 sendo escrita no \u00faltimo elo da cadeia: a distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O neg\u00f3cio el\u00e9trico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o el\u00e9trica \u00e9, em termos simples, o neg\u00f3cio de conectar a luz ao usu\u00e1rio final. Est\u00e1 a cargo de empresas que compram energia de geradores e depois cobram a conta dos consumidores. No Chile, uma estatal chinesa comprou h\u00e1 tr\u00eas anos as opera\u00e7\u00f5es de Chilquinta Distribui\u00e7\u00e3o e depois da <em>Compa\u00f1\u00eda General de Electricidad<\/em> (CGE), a principal empresa do setor em seu pa\u00eds. Com isso, passou a controlar mais da metade da distribui\u00e7\u00e3o no mercado do sul. No Brasil, que tem um potencial el\u00e9trico gigantesco, estima-se que a participa\u00e7\u00e3o chinesa em transmiss\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o tenha avan\u00e7ado para 12%.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que parece ser uma estrat\u00e9gia aplicada como espelho em distintos pa\u00edses do continente chegou ao Peru em seu auge, em abril. L\u00e1, a estatal China Southern Power Grid anunciou a compra dos ativos da italiana Enel Distribui\u00e7\u00e3o, o que significa 100% da distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade na regi\u00e3o metropolitana de Lima (10 milh\u00f5es de habitantes) e mais da metade do territ\u00f3rio do pa\u00eds estar\u00e1 nas m\u00e3os de empresas controladas pelo Partido Comunista Chin\u00eas (PCCh). O outro distribuidor da capital peruana, Luz del Sur, pertence \u00e0 estatal chinesa Yangtze Power desde 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 por tr\u00e1s desse \u201capetite energ\u00e9tico\u201d? Primeiro, uma inteligente vis\u00e3o financeira. Na maioria dos pa\u00edses, o neg\u00f3cio de fornecer eletricidade aos lares e pequenas empresas (conhecido como mercado regulado) \u00e9 rent\u00e1vel quase que por natureza. N\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia para a venda final, porque as zonas de distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o separadas, e o pre\u00e7o \u00e9 definido pelo \u00f3rg\u00e3o supervisor para garantir uma margem de lucro para a empresa. Raramente as pessoas consomem menos eletricidade do que antes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apetite energ\u00e9tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, faz todo o sentido que os empr\u00e9stimos de Governo a Governo (a estrat\u00e9gia que a China vinha usando para ampliar sua influ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina) tenham passado para segundo plano frente aos investimentos diretos em empresas de eletricidade. Esses oferecem um panorama de retorno mais do que duvidoso. De fato, muitos pa\u00edses do sul global est\u00e3o em risco de <em>default<\/em> e a China \u00e9 seu primeiro credor. Por outro lado, em agosto de 2022, as a\u00e7\u00f5es de empresas de eletricidade no Peru eram uma das poucas alternativas de investimento financeiro (4 de 267) que rendiam mais do que a infla\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os investimentos em eletricidade n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis. Para comprar uma represa ou uma distribuidora, \u00e9 necess\u00e1rio muito dinheiro que as estatais chinesas acumularam durante anos de bonan\u00e7a econ\u00f4mica. O ponto \u00e9 que, depois de pagamentos de dez d\u00edgitos em d\u00f3lares, dificilmente estar\u00e3o dispostas a s\u00f3 sentar e esperar que os lucros cheguem. No Peru, especificamente, h\u00e1 riscos claros no m\u00e9dio prazo. Quem poder\u00e1 dizer n\u00e3o a uma exig\u00eancia da pot\u00eancia asi\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Yangtze Power comprou Luz del Sur, o regulador peruano de concorr\u00eancia, Indecopi, p\u00f4s como condi\u00e7\u00e3o que a distribuidora n\u00e3o poderia comprar energia de geradoras vinculadas ao seu grupo econ\u00f4mico sem uma licita\u00e7\u00e3o supervisionada. Isso porque sua matriz, a China Three Gorges, tamb\u00e9m \u00e9 dona da terceira maior usina hidrel\u00e9trica do pa\u00eds (Chaglla) e de outras menores. Provavelmente, Indecopi colocar\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o similar para a compra da Enel. O detalhe? Essa proibi\u00e7\u00e3o se aplica somente at\u00e9 2030.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Investimentos gigantescos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 l\u00e1, duas coisas acontecer\u00e3o: expirar\u00e3o alguns acordos de fornecimento que Luz del Sur tem com geradoras para obter a energia que distribui ao mercado regulado e tamb\u00e9m os contratos de mais de 1.500 <em>clientes livres<\/em> com distintos provedores de eletricidade. No Peru, os clientes livres s\u00e3o empresas de alto consumo (mineradoras, f\u00e1bricas de cimento, f\u00e1bricas, shoppings, etc.) que n\u00e3o s\u00e3o obrigadas a se conectar \u00e0 rede geral. Podem comprar energia, se lhes for conveniente, diretamente das geradoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso \u2013 como detalhou a revista <em>Semana Econ\u00f4mica \u2013<\/em> Three Gorges e Yangtze Power t\u00eam um forte plano a curto prazo para aumentar sua capacidade de gera\u00e7\u00e3o e triplicar sua participa\u00e7\u00e3o nesse segmento. E espera-se que grandes empresas concorrentes, como Kallpa, vendam e saiam do pa\u00eds. Uma reconfigura\u00e7\u00e3o do setor est\u00e1 chegando e os chineses t\u00eam as fichas bem posicionadas para aproveit\u00e1-la. Eles t\u00eam uma aspira\u00e7\u00e3o monopolista?<\/p>\n\n\n\n<p>O grande risco \u00e9 que, a partir de 2030, Luz del Sur compre sem filtros das hidrel\u00e9tricas chinesas e, assim, feche parte do mercado regulado \u00e0s demais geradoras. Se decidir se unir com a nova dona da Enel (cuja matriz, no fim, \u00e9 controlada pelo pr\u00f3prio Governo), o fechamento seria extremo. Isso tamb\u00e9m lhes daria uma posi\u00e7\u00e3o muito mais forte para \u201croubar\u201d os clientes livres. No pior dos casos, isso poderia desaparecer com as fontes de gera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que n\u00e3o est\u00e3o em m\u00e3os chinesas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atores do mercado de eletricidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para evitar esses riscos, que s\u00e3o graves, o mercado de eletricidade \u00e9 separado entre quem produz a energia, quem a transporta e quem a conectam ao usu\u00e1rio. A opera\u00e7\u00e3o de empresas chinesas, tanto na gera\u00e7\u00e3o quanto na distribui\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo que n\u00e3o se deveria permitir desde o in\u00edcio no Peru. E hoje que o Indecopi tem o poder de impedir que a China Southern Power Grid adquira a Enel, deve faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a realidade \u00e9 que o planejamento centralizado, com concorr\u00eancia \u201cde mentirinha\u201d e tratamento favor\u00e1vel \u00e0s empresas estatais, est\u00e1 no DNA das empresas p\u00fablicas chinesas. Embora a China n\u00e3o opere um sistema econ\u00f4mico comunista no sentido acad\u00eamico do termo, no final do dia, as matrizes e suas subsidi\u00e1rias se alinham \u2013 porque s\u00e3o as mesmas \u2013 com a estrat\u00e9gia do PCCh. E, assim como nos s\u00e9culos passados as corpora\u00e7\u00f5es brit\u00e2nicas e estadunidenses exportaram o capitalismo para o mundo, \u00e9 de se esperar que as empresas da pot\u00eancia asi\u00e1tica tamb\u00e9m tentem operar na Am\u00e9rica Latina com sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, padr\u00f5es e pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, o grande risco \u00e9 acabar cedendo o controle quase total do interruptor de luz a uma pot\u00eancia global, cujas empresas estatais operam hoje como carros-chefe de seu modelo econ\u00f4mico e de suas ambi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas. Que capacidade de negocia\u00e7\u00e3o ter\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses latino em tal cen\u00e1rio \u2013 que n\u00e3o parece t\u00e3o distante, se olharmos o Peru como um paradigma da regi\u00e3o \u2013 para defender seus interesses nacionais ou enfrentar a China?<\/p>\n\n\n\n<p><em><sup>*Este texto foi publicado originalmente no Di\u00e1logo Pol\u00edtico.<\/sup><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De todas as empresas que a China comprou, integral ou parcialmente, na Am\u00e9rica Latina entre 2017 e 2021, 71% est\u00e3o no setor de eletricidade.<\/p>\n","protected":false},"author":455,"featured_media":17934,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16949,17112,16761,16719],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-17944","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-internacional-pt-br","8":"category-energia-pt-br","9":"category-china-es-pt-br","10":"category-debates-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17944","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/455"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17944"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17944\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17944"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=17944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}