{"id":18027,"date":"2023-06-26T08:00:00","date_gmt":"2023-06-26T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=18027"},"modified":"2023-06-26T08:31:51","modified_gmt":"2023-06-26T11:31:51","slug":"a-politica-externa-cubana-na-nova-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-politica-externa-cubana-na-nova-guerra-fria\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica externa cubana na &#8220;nova Guerra Fria&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>No atual contexto internacional, tr\u00eas alternativas poss\u00edveis de pol\u00edtica externa se abrem para a <a href=\"https:\/\/www.cidob.org\/articulos\/anuario_internacional_cidob\/2019\/claves_de_la_politica_exterior_de_cuba_presente_y_futuro_de_una_revolucion_subsidiada\">pol\u00edtica externa cubano<\/a>: o alinhamento com a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2023\/04\/chanceler-da-russia-visitara-cuba-e-venezuela-apos-passar-pelo-brasil.shtml\">R\u00fassia<\/a> e a China; o n\u00e3o alinhamento; e o alinhamento com os <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/relacoes-eua-cuba-a-politica-externa-e-os-seus-descontentamentos\/\">Estados Unidos<\/a>. Entretanto, a terceira \u00e9 a \u00fanica realista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alinhamento com a R\u00fassia e a China<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre as atuais pot\u00eancias globais que enfrentam os Estados Unidos e a extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: o pragmatismo na defesa do interesse nacional desempenhou um papel importante na pol\u00edtica externa sovi\u00e9tica, mas n\u00e3o foi o fator determinante. A Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas tinha uma concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica universalista, segundo a qual todas as pessoas e todos os pa\u00edses, pelas leis hist\u00f3ricas do desenvolvimento socioecon\u00f4mico, estavam caminhando para um \u00fanico destino comum. Por se considerarem os mais avan\u00e7ados nesse caminho, se sentiam eticamente obrigados a ajudar qualquer pessoa que pedisse ajuda para avan\u00e7ar nesse caminho. N\u00e3o importava se o solicitante se encontrava dentro de sua \u00e1rea de influ\u00eancia ou n\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a China de hoje n\u00e3o coloca sua suposta vis\u00e3o ideol\u00f3gica universalista acima de seus interesses nacionais, interpretados de acordo com rigorosos crit\u00e9rios de rentabilidade econ\u00f4mico-financeira. Quanto \u00e0 R\u00fassia, sua ideologia \u00e9 abertamente imperialista. As elites dominantes de ambas as superpot\u00eancias n\u00e3o prop\u00f5em nenhum projeto ou destino comum para o resto da humanidade; buscam apenas se posicionar em uma hierarquia imperialista de poderes globais. Em um prazo imediato, o que elas buscam \u00e9 uma \u00e1rea de influ\u00eancia que seja respeitada pelas demais superpot\u00eancias; na esperan\u00e7a, pelo menos no caso da China, de que em um futuro um pouco mais distante possa sonhar com a hegemonia planet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Esperar, a partir de Cuba, que a R\u00fassia ou a China mantenham uma rela\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 que tiveram com a extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 n\u00e3o entender a profunda diferen\u00e7a entre essa multipolaridade e a que a precedeu. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se pode esperar o mesmo em termos de apoio material, <em>know-how <\/em>ou assist\u00eancia financeira, mas at\u00e9 mesmo em termos de apoio pol\u00edtico e militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Com muita imagina\u00e7\u00e3o, Cuba s\u00f3 poderia esperar um apoio semelhante de qualquer uma das duas superpot\u00eancias globais que desafiam o poder hegem\u00f4nico estadunidense enquanto os Estados Unidos continuarem se recusando a aceitar a divis\u00e3o do mundo em esferas de influ\u00eancia. Uma vez que os Estados Unidos aceitem essa divis\u00e3o, as esferas de influ\u00eancia dos outros ser\u00e3o religiosamente respeitadas &#8211; e, sem d\u00favida, Cuba pertence \u00e0 estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p>Alinhar-se com a R\u00fassia ou a China n\u00e3o garante nada para Cuba, nem mesmo para as elites p\u00f3s-castristas. Mais cedo ou mais tarde, as pot\u00eancias ir\u00e3o negociar com Washington para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a um mundo dividido em tr\u00eas \u00e1reas de influ\u00eancia. Dessa forma, a Cuba s\u00f3 resta ser o &#8220;quintal&#8221; dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O n\u00e3o alinhamento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Guerra Fria ocorreu em um contexto altamente ideologizado, no qual os dois grandes centros de poder aceitaram os princ\u00edpios de conviv\u00eancia internacional de Woodrow Wilson: a inviolabilidade das fronteiras e, pelo menos em teoria, a soberania e a independ\u00eancia dos Estados dentro delas. No final das contas, eram, mais do que dois Estados lutando pelo poder mundial, duas concep\u00e7\u00f5es de sociedade e economia que disputavam entre si os cora\u00e7\u00f5es e as vontades de todos os seres humanos, a quem, portanto, deveriam permitir uma certa capacidade de decis\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O novo contexto das rela\u00e7\u00f5es internacionais proposto abertamente por Moscou, mas tamb\u00e9m por Pequim, \u00e9 muito diferente. \u00c9 improv\u00e1vel que as atuais superpot\u00eancias v\u00e3o al\u00e9m disso em um curto prazo, at\u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia ou um massivo deslocamento das fronteiras. Em primeiro lugar, devido ao peso das tradi\u00e7\u00f5es de respeito \u00e0 soberania nacional herdadas do s\u00e9culo XX, mas, acima de tudo, porque tanto a R\u00fassia quanto a China s\u00e3o unidades etnicamente muito homog\u00eaneas e com muito interesse em permanecer assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, em suas \u00e1reas de influ\u00eancia, ou no que consideram como tal, nem essas superpot\u00eancias nem os Estados Unidos ser\u00e3o t\u00e3o permissivos quanto foram as superpot\u00eancias da anterior Guerra Fria. Estados como o Brasil ou a \u00cdndia, sem d\u00favida, manter\u00e3o um forte grau de independ\u00eancia pol\u00edtica e econ\u00f4mica, mas esse n\u00e3o ser\u00e1 o caso de pequenos Estados como Cuba, Belarus ou Birm\u00e2nia, localizados pr\u00f3ximos \u00e0s superpot\u00eancias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Falamos sobre o abandono do idealismo e o retorno ao realismo pol\u00edtico nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. O retorno da velha pol\u00edtica do s\u00e9culo XIX, na qual simplesmente interv\u00ednhamos diretamente com base em um interesse nacional que n\u00e3o era disfar\u00e7ado por declara\u00e7\u00f5es idealistas. Do retorno do direito \u00e0 for\u00e7a, sem pretens\u00f5es. Porque o que prop\u00f5em os atuais desafiantes da hegemonia dos Estados Unidos, ou mesmo um setor importante dentro da pr\u00f3pria pol\u00edtica americana, nada mais \u00e9 do que um acordo de divis\u00e3o do mundo entre os fortes, no qual a opini\u00e3o dos d\u00e9beis n\u00e3o importa.<\/p>\n\n\n\n<p>E, nesse contexto, pensar que o n\u00e3o alinhamento pode ser usado, pelo menos para aqueles Estados que claramente fazem parte da \u00e1rea estrat\u00e9gica das grandes pot\u00eancias, n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo caso, o fato de Cuba conseguir ou n\u00e3o seguir uma pol\u00edtica de n\u00e3o-alinhamento depender\u00e1 da boa vontade dos Estados Unidos e de sua determina\u00e7\u00e3o em manter o compromisso com os princ\u00edpios internacionais de Woodrow Wilson. Se os Estados Unidos finalmente aceitarem a ideia de zonas de influ\u00eancia, a independ\u00eancia cubana n\u00e3o passar\u00e1 de uma fantasia. Mas mesmo que os Estados Unidos contrariem as tend\u00eancias da \u00e9poca, sua proximidade geogr\u00e1fica e demogr\u00e1fica com Cuba n\u00e3o permitiria que aceitassem uma Cuba n\u00e3o aliada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alinhamento com os Estados Unidos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 que a Cuba s\u00f3 resta alinhar-se com os Estados Unidos e, inclusive, n\u00e3o permanecer em um simples alinhamento diplom\u00e1tico, mas sim buscar aproximar-se econ\u00f4mica ou politicamente o m\u00e1ximo poss\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A economia, a cultura, a demografia, sua hist\u00f3ria, tudo leva Cuba a se alinhar com os Estados Unidos. Essa tend\u00eancia \u00e9 t\u00e3o forte que existe a possibilidade de que o pr\u00f3prio regime de Castro, ap\u00f3s o desaparecimento dos \u00faltimos remanescentes da gera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, se deixe arrastar por ela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No atual contexto internacional, tr\u00eas alternativas poss\u00edveis de pol\u00edtica externa se abrem para a pol\u00edtica externa cubano: o alinhamento com a R\u00fassia e a China; o n\u00e3o alinhamento; e o alinhamento com os Estados Unidos. Entretanto, a terceira \u00e9 a \u00fanica realista. 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