{"id":18201,"date":"2023-07-06T08:00:00","date_gmt":"2023-07-06T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=18201"},"modified":"2023-07-05T18:19:25","modified_gmt":"2023-07-05T21:19:25","slug":"o-dia-em-que-a-internet-parou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-dia-em-que-a-internet-parou\/","title":{"rendered":"O dia em que a internet parou"},"content":{"rendered":"\n<p>Foram necess\u00e1rios pouco mais de vinte anos para que a <em>world wide web<\/em>, inventada por Tim Berners-Lee em 1989 e aberta ao mundo em 1991, alcan\u00e7asse um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o do planeta, chegando a quase dois bilh\u00f5es e meio de usu\u00e1rios interconectados em 2012. No dia 18 de janeiro daquele ano, no entanto, a internet parou de funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p>A interrup\u00e7\u00e3o da rede mundial de computadores n\u00e3o foi causada por qualquer problema t\u00e9cnico; tratava-se, na verdade, de um ato pol\u00edtico, mobilizado por milhares de plataformas digitais que apagaram ou interromperam temporariamente seu conte\u00fado <em>online<\/em>, em protesto contra duas propostas de lei em tr\u00e2mite no Congresso dos Estados Unidos. Quem tentou visitar alguns dos <em>websites<\/em> mais populares da \u00e9poca, naquele 18 de janeiro, se deparou com mensagens que se opunham a tais projetos: o Stop Online Piracy Act (SOPA) e o Protect Intellectual Property Act (PIPA) \u2013 respectivamente, Pare a Pirataria Online e Proteja a Propriedade Intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Tais propostas legislativas representavam a bala de prata da ind\u00fastria cultural norte-americana contra o que chamavam de \u201cpirataria digital\u201d, categoria que inclu\u00eda o acesso n\u00e3o pago a bens culturais na internet, mesmo que para consumo pr\u00f3prio. Apoiados com m\u00e3o de ferro por associa\u00e7\u00f5es das ind\u00fastrias cinematogr\u00e1fica e fonogr\u00e1fica, tais projetos, se aprovados, expandiriam a capacidade da aplica\u00e7\u00e3o das leis de <em>copyright<\/em> dos EUA para incluir o <em>download<\/em> e o <em>streaming<\/em> de conte\u00fado protegido por direitos autorais.<\/p>\n\n\n\n<p>A mar\u00e9, por\u00e9m, soprava a favor dos navios piratas, com a bandeira da livre circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e cultura sendo hasteada pelo pr\u00f3prio Berners-Lee, capit\u00e3o de mar e guerra do movimento. Ao lado do inventor da rede mundial de computadores, se encontravam perfilados a Wikipedia brit\u00e2nica e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-lucrativas de direitos digitais, como a Fight for the Future e a Electronic Frontier Foundation.<\/p>\n\n\n\n<p>Surfando na onda dos piratas defensores da cultura livre, destacava-se um grupo de empresas comerciais, em sua maioria rec\u00e9m-fundadas por jovens brancos oriundos de prestigiosas universidades norte-americanas. Os novos cors\u00e1rios da internet logo ficariam conhecidos pela alcunha de <em>big tech<\/em>: corpora\u00e7\u00f5es de tecnologia em ascens\u00e3o cujos recursos financeiros j\u00e1 faziam frente, em 2012, aos dobr\u00f5es investidos pelas velhas ind\u00fastrias culturais no legalizado mercado de <em>lobbies<\/em> do Congresso dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais evidente do que a disputa econ\u00f4mica nos corredores de Washington, entretanto, foi a batalha travada no campo da \u00e9tica. Contra a maximiza\u00e7\u00e3o dos direitos de propriedade intelectual reivindicados por antigas corpora\u00e7\u00f5es como Warner, Disney, Universal e Sony, as novas empresas da internet recorreram ao tar\u00f4 dos valores humanos universais para puxar as cartas da liberdade de express\u00e3o e do direito de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, personificando a figura de paladinos guardi\u00f5es da arte, da cultura e da diversidade. Tal persona, antes da chegada dos forasteiros digitais, era encarnada justamente pelas ind\u00fastrias cinematogr\u00e1fica e fonogr\u00e1fica, que gozavam de enorme prest\u00edgio e proemin\u00eancia desde a conquista do <em>wild west<\/em> norte-americano, arrebatando cora\u00e7\u00f5es, mentes e bolsos com seus filmes e discos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse caso de amor, no entanto, come\u00e7a a sofrer turbul\u00eancias com o desenvolvimento da tecnologia digital, que permite o aprimoramento do que Walter Benjamin chamou de reprodutibilidade t\u00e9cnica da obra de arte. As novas possibilidades de c\u00f3pia, reprodu\u00e7\u00e3o e compartilhamento de conte\u00fado cultural e informativo pela internet se tornam, no s\u00e9culo XXI, uma amea\u00e7a aos modelos de neg\u00f3cio constru\u00eddos em torno da explora\u00e7\u00e3o de direitos autorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os defensores do livre tr\u00e2nsito de informa\u00e7\u00e3o na rede, tais modelos representam a imobilidade, a petrifica\u00e7\u00e3o, o estrangulamento circulat\u00f3rio; no limite, a morte da cultura. No discurso da ind\u00fastria cultural, no entanto, ressaltam-se os danos alegadamente sofridos por milh\u00f5es de pessoas que s\u00e3o empregadas direta ou indiretamente nas cadeias produtivas do setor, atribuindo a alcunha de piratas (uma categoria com grande peso moral) a todos os que copiam, compartilham ou disponibilizam c\u00f3pias digitais dos conte\u00fados protegidos por leis de propriedade intelectual e de direitos autorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da ofensiva moral, associa\u00e7\u00f5es das ind\u00fastrias fonogr\u00e1fica e cinematogr\u00e1fica passaram a adotar a\u00e7\u00f5es legais contra consumidores de m\u00fasicas e filmes pela pr\u00e1tica de <em>download<\/em>, processando milhares de pessoas nos anos 2000, o que contribuiu para desgastar a imagem p\u00fablica das gravadoras e est\u00fadios de Hollywood e minar o apoio popular aos projetos de lei antipirataria de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>Derrotadas, ainda que temporariamente (como a hist\u00f3ria haveria de mostrar nos posteriores acordos entre a ind\u00fastria cultural e plataformas de <em>streaming<\/em> como Netflix, Spotify e o pioneiro YouTube), as associa\u00e7\u00f5es das ind\u00fastrias da m\u00fasica e do cinema acusaram as empresas da internet de usarem suas plataformas para incitar a opini\u00e3o p\u00fablica contra os projetos de lei nos EUA. No dia em que a internet parou, a p\u00e1gina inicial do Google, por exemplo, exibia uma grande barra de censura tampando toda a sua conhecida logomarca; ao clicar nela, os visitantes eram levados a um outro <em>website<\/em> contendo informa\u00e7\u00f5es e a tal peti\u00e7\u00e3o contra SOPA e PIPA. Naquela \u00e9poca, os movimentos defensores da livre circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e cultura n\u00e3o viram problema nisso, pois a causa era nobre: tratava-se de defender a liberdade na internet.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1scara ideol\u00f3gica das <em>big tech<\/em> cai quando, passados 11 anos de recrudescimento de discursos de \u00f3dio, desinforma\u00e7\u00e3o e negacionismo ambiental e cient\u00edfico nas redes digitais, \u00e9 finalmente agendada no Brasil a vota\u00e7\u00e3o da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transpar\u00eancia da Internet (<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2023\/05\/pl-das-fake-news-preve-ampla-regulamentacao-posterior-a-cargo-de-orgao-ainda-indefinido.shtml\">PL2630<\/a>). \u00c0s v\u00e9speras da vota\u00e7\u00e3o, em maio de 2023, o <em>modus operandi<\/em> de 2012 se repete: a p\u00e1gina inicial do Google exibe a frase \u201co PL2630 pode aumentar a confus\u00e3o sobre o que \u00e9 verdade ou mentira no Brasil\u201d; o Spotify veicula uma propaganda com a mesma frase, em \u00e1udio; o YouTube divulga desinforma\u00e7\u00e3o sobre o PL para criadores de conte\u00fado da plataforma, promovendo, inclusive, uma <em>hashtag<\/em> contr\u00e1ria ao projeto; e o Telegram envia para seus milh\u00f5es de usu\u00e1rios brasileiros uma mensagem dizendo que \u201co Brasil est\u00e1 prestes a provar uma lei que ir\u00e1 acabar com a liberdade de express\u00e3o\u201d.A hist\u00f3ria mostra que, seja no passado ou no presente, a motiva\u00e7\u00e3o das <em>big tech<\/em> permanece a mesma: nunca foi sobre <em>liberdade<\/em>, e sim sobre <em>liberalismo<\/em>; nunca foi sobre a defesa da livre comunica\u00e7\u00e3o e troca de informa\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos, e sim sobre a defesa de modelos de neg\u00f3cios <em>livres<\/em> de qualquer tipo de regula\u00e7\u00e3o ou fiscaliza\u00e7\u00e3o. Em 2012, isso ainda n\u00e3o estava claro para muita gente; em 2023, n\u00e3o h\u00e1 mais como esconder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A interrup\u00e7\u00e3o da rede mundial em 18 de janeiro de 2012 n\u00e3o foi causada por um problema t\u00e9cnico, mas por um ato pol\u00edtico conduzido por milhares de plataformas digitais.<\/p>\n","protected":false},"author":443,"featured_media":18191,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16947,16947,16728,16728,16777,16777,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-18201","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-internet-es-pt-br","9":"category-brasil-pt-br","11":"category-globalizacion-pt-br","13":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/443"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18201"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18201\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18201"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=18201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}