{"id":1827,"date":"2020-06-14T07:40:46","date_gmt":"2020-06-14T10:40:46","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1827"},"modified":"2024-06-25T06:45:11","modified_gmt":"2024-06-25T09:45:11","slug":"ler-a-globalidade-para-entender-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ler-a-globalidade-para-entender-a-pandemia\/","title":{"rendered":"Ler a globalidade para entender a pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 11 de mar\u00e7o, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) anunciou que a Covid-19 era oficialmente uma pandemia: a \u201cpropaga\u00e7\u00e3o mundial\u201d da nova enfermidade havia sido alcan\u00e7ada. O v\u00edrus, surgido da mescla de fluidos animais em um mercado de Wuhan, foi transmitido por sabe-se l\u00e1 que bicho a provavelmente um comerciante, e deste a outro, ou a um fregu\u00eas, ou talvez a um fornecedor, e de l\u00e1 se espalhou rapidamente por todo canto da cidade chinesa. Em seu rastro, o novo v\u00edrus deixou uma esteira de enfermos, que transmitiram a enfermidade a novos enfermos, que por sua vez se espalharam da metr\u00f3pole por toda a superf\u00edcie da Terra, em \u00f4nibus, trens e barcos. Mas foi o avi\u00e3o \u2013 o aut\u00eantico agente globalizador do v\u00edrus \u2013 que em um abrir e fechar de olhos polinizou todo o planeta com o coronav\u00edrus. Em poucas semanas, a enfermidade apareceu em pequenas aldeias da selva amaz\u00f4nica, no deserto do Saara ou na tundra siberiana. No entanto, o v\u00edrus n\u00e3o avan\u00e7ava pelo mundo de maneira homog\u00eanea. Como se estiv\u00e9ssemos diante de uma suposi\u00e7\u00e3o cartogr\u00e1fica, o mapa da pandemia reproduzia em suas linhas gerais a geografia da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o estrutural com a globalidade \u00e9 uma boa forma de entender a pandemia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno que se baseia no aumento cont\u00ednuo da interconex\u00e3o entre pa\u00edses, regi\u00f5es e cidades do planeta. E o avan\u00e7o desse processo \u2013 em constru\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 medido pelo \u00cdndice de Globaliza\u00e7\u00e3o de KOF, da Escola Polit\u00e9cnica Federal de Zurique, que avalia as dimens\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais da globaliza\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus reflete em alguma medida a dimens\u00e3o social da globaliza\u00e7\u00e3o, cujas principais caracter\u00edsticas s\u00e3o a mobilidade e a densidade populacional. E se bem que exista uma infinidade de fatores que alteram o comportamento da propaga\u00e7\u00e3o, como as pol\u00edticas p\u00fablicas, a infraestrutura, as formas de vida, a economia, o clima, a geografia ou o azar, prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o estrutural com a globalidade \u00e9 uma boa forma de entender a pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>A B\u00e9lgica, por exemplo, a l\u00edder absoluta em \u00edndice de mortalidade da Covid-19, com 83,9 mortes por 100 mil habitantes, \u00e9 presen\u00e7a constante nas posi\u00e7\u00f5es mais altas do ranking de pa\u00edses mais globalizados. Os cinco pa\u00edses mais globalizados do planeta \u2013 Su\u00ed\u00e7a, Holanda, B\u00e9lgica, Su\u00e9cia e Reino Unido -, se encontram, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, atualizados em 7 de junho, entre os 10 pa\u00edses com \u00edndices mais elevados de mortalidade. Ou, observando por outro ponto de vista, os 10 pa\u00edses com \u00edndices mais elevados de mortalidade est\u00e3o entre os 23 mais globalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o, mesmo assim, ainda que seja um fen\u00f4meno que atinge os pa\u00edses em seu conjunto, \u00e9 um processo que afeta particularmente os grandes centros urbanos. Os Estados Unidos, por exemplo, com extens\u00e3o continental e uma popula\u00e7\u00e3o de mais de 300 milh\u00f5es de habitantes, apresentam uma enorme heterogeneidade interna que se v\u00ea refletida na incid\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o, e portanto na propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Os estados de Nova York e Nova Jersey registram mais de 40% das mortes por coronav\u00edrus nos Estados Unidos, embora respondam por menos de 10% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Isso se deve ao fato de que a cidade mais globalizada do planeta (de acordo como Global Cities Index da ATKearney), Nova York e sua \u00e1rea metropolitana, que se estende por ambos os estados, se tornou o maior foco do v\u00edrus no plano mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um artigo da revista m\u00e9dica The Lancet, em 24 de abril as maiores taxas de mortalidade acumuladas nos 30 dias iniciais da epidemia foram registradas em Nova York (81,2 mortes para cada 100 mil habitantes), Madri (77 mortes), na Lombardia, onde fica a cidade de Mil\u00e3o, fortemente globalizada, com 41,4, \u00cele de France, que abriga a Grande Paris, com 26,9, e Grande Londres, com 23 mortos para cada 100 mil habitantes. Entre essas metr\u00f3poles se encontram as tr\u00eas cidades mais globalizadas do planeta: Nova York, Londres e Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma compara\u00e7\u00e3o mais ampla, o coronav\u00edrus tra\u00e7ou uma fronteira sanit\u00e1ria entre os pa\u00edses da Europa Ocidental e os da Europa central e oriental, que apresentam interconex\u00f5es consideravelmente mais fracas e foram muito menos afetados pelo v\u00edrus. J\u00e1 a \u00c1frica, a regi\u00e3o menos preparada para conter a pandemia, tinha forte probabilidade de ser devastada pela enfermidade. Ainda assim, de acordo o Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as da Uni\u00e3o Africana, no continente menos globalizado do planeta os n\u00fameros do dia 8 de junho apontavam para cerca de cinco mil mortes e 200 mil cont\u00e1gios \u2013 n\u00fameros semelhantes aos do Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da \u00c1frica, a estrutura demogr\u00e1fica do continente \u00e9 um dos fatores invocados para explicar a presen\u00e7a contida do v\u00edrus at\u00e9 o momento; outro fator seria uma maior resist\u00eancia devido \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a v\u00edrus semelhantes. Mas existem mais fatores que influem na propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, tais como a ordem cronol\u00f3gica da pandemia, que deu mais tempo aos governos de pa\u00edses menos globalizados para que implementassem pol\u00edticas p\u00fablicas. Enquanto a n\u00e3o lideran\u00e7a dos governantes populistas que negam a enfermidade, como Trump e Bolsonaro, provavelmente facilitou a dispers\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina, com uma enorme heterogeneidade social se encontra em uma situa\u00e7\u00e3o na qual, em um pa\u00eds como o Brasil, coexistem tribos amaz\u00f4nicas ainda n\u00e3o contatadas e uma megal\u00f3pole como S\u00e3o Paulo, uma das 42 cidades mais globalizadas do planeta. As enormes desigualdades socioecon\u00f4micas da regi\u00e3o, que se traduzem em \u00edndices de conectividade drasticamente diferentes entre os territ\u00f3rios, fazem da Am\u00e9rica Latina uma das regi\u00f5es mais imprevis\u00edveis, do ponto de vista da circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, a situa\u00e7\u00e3o atual reafirma as tend\u00eancias globalistas do coronav\u00edrus na Am\u00e9rica Latina. As megal\u00f3poles como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Cidade do M\u00e9xico, Buenos Aires, Lima ou Bogot\u00e1, com altos \u00edndices de globaliza\u00e7\u00e3o, representam os principais focos da pandemia na regi\u00e3o. E Guayaquil, a primeira cidade latino-americana avassalada pela doen\u00e7a, embora n\u00e3o esteja entre as cidades mais globalizadas \u00e9 o segundo maior porto da costa pac\u00edfica e a regi\u00e3o urbana mais densamente povoada do Equador, pa\u00eds de origem da maior comunidade de emigrantes latino-americanos da Espanha, um dos principais focos mundiais da doen\u00e7a e pa\u00eds com qual o Equador mant\u00e9m enorme tr\u00e2nsito de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O coronav\u00edrus n\u00e3o \u00e9 um indicador matem\u00e1tico, e simplesmente se movimenta com as pessoas, o que em certa medida faz com que represente a mobilidade humana, um dos indicadores da globaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que, com o tempo, novos focos podem superar os existentes, A \u00c1frica poderia vir a sofrer o desastre prognosticado, e a regi\u00e3o amaz\u00f4nica, que j\u00e1 est\u00e1 entre as mais afetadas da Am\u00e9rica Latina e entre as menos conectadas, talvez venha a se converter no epicentro mundial do v\u00edrus. Ainda assim, a ordem cronol\u00f3gica da expans\u00e3o do v\u00edrus Sars-CoV2 \u00e9 inalter\u00e1vel e continuar\u00e1 presente para que recordemos a import\u00e2ncia de ler a globalidade para entender a pandemia.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de fneitzke em Foter.com \/ CC BY-NC-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em poucas semanas, a enfermidade apareceu em pequenas aldeias da selva amaz\u00f4nica ou no deserto do Saara. No entanto, o v\u00edrus n\u00e3o avan\u00e7ava pelo mundo de maneira homog\u00eanea. 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