{"id":18467,"date":"2023-07-18T08:00:00","date_gmt":"2023-07-18T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=18467"},"modified":"2023-07-18T19:57:59","modified_gmt":"2023-07-18T22:57:59","slug":"brasil-pode-criar-legado-de-agenda-latino-americana-no-g20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/brasil-pode-criar-legado-de-agenda-latino-americana-no-g20\/","title":{"rendered":"Brasil pode criar legado de agenda latino-americana no G20"},"content":{"rendered":"\n<p>Em um momento de renovada expectativa a respeito do papel do <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-politica-externa-de-lula-e-o-futuro-do-regionalismo-sul-americano\/\">Brasil na pol\u00edtica internacional<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2023\/04\/brasil-na-presidencia-do-g20-deve-focar-clima-e-divida-de-paises-pobres-diz-secretaria.shtml\">o pa\u00eds presidir\u00e1, em 2024, o grupo das 20 maiores economias do mundo \u2013 o G20<\/a>. A <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/painel\/2023\/03\/brasil-ve-presidencia-do-g20-como-copa-do-mundo-diplomatica.shtml\">presid\u00eancia brasileira ser\u00e1 um momento importante<\/a> para que o pa\u00eds apresente as credenciais do novo governo em um f\u00f3rum econ\u00f4mico de alto n\u00edvel. Tamb\u00e9m pode ser uma oportunidade \u00fanica para levar ao bloco uma agenda regional, que represente a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de proporcionalmente subrepresentada, a regi\u00e3o possui tr\u00eas pa\u00edses no G20: Argentina, Brasil e M\u00e9xico. Historicamente, os tr\u00eas pa\u00edses n\u00e3o coordenaram posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nem articularam uma identidade regional. A pergunta deve ser, portanto, quais os caminhos para que os tr\u00eas pa\u00edses aproveitem a janela de oportunidade da presid\u00eancia brasileira e construam uma agenda latinoamericana para o grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o de ampliar a participa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o nos debates foi traduzida no convite que o Brasil fez a Paraguai e Uruguai para participar do G20 ano que vem. A inclus\u00e3o dos convidados se relaciona com o interesse do governo Lula em ampliar a representa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses em desenvolvimento em f\u00f3runs internacionais e fortalecer o Mercosul. Paraguai e Uruguai assumem a presid\u00eancia pro tempore do Mercosul em 2024 e, ao lado de Brasil e Argentina, garante-se que todos os membros ativos do Mercosul estejam presentes no G20 &#8211; pelo menos por um ano.<\/p>\n\n\n\n<p>O momento para que o G20 possa abra\u00e7ar uma agenda latinoamericana \u00e9 promissor, mas n\u00e3o livre de dificuldades. A regi\u00e3o foi uma das mais afetadas, econ\u00f4mica e socialmente, pela pandemia e pelos efeitos em cascata da guerra da Ucr\u00e2nia, sofrendo acentuadamente com altos \u00edndices de infla\u00e7\u00e3o e d\u00edvida, e aumento de pobreza e inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, h\u00e1 uma baixa coordena\u00e7\u00e3o efetiva entre Argentina, Brasil e M\u00e9xico no G20. Os tr\u00eas possuem pap\u00e9is e prioridades distintas nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, o que levanta d\u00favidas sobre se devem ser analisados enquanto um grupo simplesmente por serem latino-americanos e compartilharem similaridades em suas estrat\u00e9gias de desenvolvimento. Fora do G20, os tr\u00eas pa\u00edses constru\u00edram diferentes identidades pol\u00edticas e econ\u00f4micas. O M\u00e9xico, por exemplo, possui v\u00ednculos s\u00f3lidos com os Estados Unidos, sobretudo devido ao NAFTA, enquanto Brasil e Argentina passaram por projetos de diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria de relacionamento entre eles mostra, entretanto, alguns caminhos poss\u00edveis. Entre 2008 e 2015, quando a regi\u00e3o contou com diversos governos progressistas que enfatizavam a integra\u00e7\u00e3o regional, houve lampejos de boas pr\u00e1ticas. Brasil e Argentina atuaram no G20 como aliados estrat\u00e9gicos, antecipando prioridades, coordenando posi\u00e7\u00f5es e se colocando como vozes latino-americanas. Essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi mera casualidade, mas sim reflexo de uma decis\u00e3o pol\u00edtica de posicionar a integra\u00e7\u00e3o regional como um pilar de suas pol\u00edticas externas. Os dois pa\u00edses, conjuntamente, defenderam a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas anti-c\u00edclicas para conter a crise de 2008, a reforma do FMI, a \u00eanfase na evas\u00e3o de divisas e na regula\u00e7\u00e3o de para\u00edsos fiscais, a conclus\u00e3o da Rodada Doha da OMC de acordo com seu mandato original de &#8220;rodada do desenvolvimento&#8221;, e a necessidade de garantir a sustentabilidade das d\u00edvidas soberanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse mecanismo de coordena\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o inclu\u00eda o M\u00e9xico, uma consequ\u00eancia de sua decis\u00e3o de se alinhar com os EUA em f\u00f3runs econ\u00f4micos. Portanto, a articula\u00e7\u00e3o com o M\u00e9xico era mais pontual e limitada a assuntos espec\u00edficos de interesse m\u00fatuo. Apesar disso, os tr\u00eas participavam ativamente de f\u00f3runs de coordena\u00e7\u00e3o de pa\u00edses em desenvolvimento. A \u00faltima presid\u00eancia mexicana do G20 foi em 2012, e o pa\u00eds incorporou algumas prioridades comuns aos pa\u00edses em desenvolvimento: seguran\u00e7a alimentar,&nbsp; volatilidade do pre\u00e7o das commodities, desenvolvimento sustent\u00e1vel, crescimento verde e mudan\u00e7a do clima.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2016, no entanto, os governos conservadores e de orienta\u00e7\u00e3o de direita engendraram um contexto regional de competi\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o. Quando a Argentina assumiu a presid\u00eancia do bloco, em 2018, o pa\u00eds estava em um momento de particular fraqueza de sua vis\u00e3o regional. Havia a expectativa de que houvesse uma plataforma comum. O contexto pol\u00edtico n\u00e3o favoreceu. Por um lado, f\u00f3runs multilaterais passavam pelo constante ataque de Donald Trump. Por outro, quest\u00f5es internas dificultaram o engajamento dos tr\u00eas pa\u00edses latinos. O M\u00e9xico tentou estimular debates sobre a quest\u00e3o migrat\u00f3ria, a Argentina passava pela persistente crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica, e o Brasil, ainda sob o governo Temer, mas j\u00e1 tendo eleito Bolsonaro, enviava mensagens claras de que a regi\u00e3o n\u00e3o era prioridade. Como pano de fundo, o espa\u00e7o para debates sobre a Am\u00e9rica Latina era, constantemente, resumido \u00e0 crise na Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o momento de nossos representantes estarem prontos para representar concretamente as necessidades e expectativas regionais na agenda do G20. A oportunidade internacional converge com realinhamentos dom\u00e9sticos no Brasil que d\u00e3o destaque \u00e0 agenda regional. Ao assumir a presid\u00eancia da Rep\u00fablica em seu terceiro mandato, Lula apontou como prioridades de pol\u00edtica externa a agenda global de erradica\u00e7\u00e3o da fome e combate \u00e0 pobreza, a reconex\u00e3o com os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e a lideran\u00e7a no combate \u00e0 mudan\u00e7a global do clima.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto aos pa\u00edses da Pan-Amaz\u00f4nia, o Brasil sedia a C\u00fapula de Bel\u00e9m, com o objetivo de promover maior integra\u00e7\u00e3o regional na redu\u00e7\u00e3o de desmatamento e promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento sustent\u00e1vel na regi\u00e3o, fortalecendo a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado de Coopera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nica (OTCA); na Conven\u00e7\u00e3o sobre Mudan\u00e7a do Clima, o pa\u00eds tem negociado em bloco com Argentina e Uruguai, isso para citar alguns exemplos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 temas de interesse coletivo que nos unem, como os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e as oportunidades de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, a necessidade de defender a comercializa\u00e7\u00e3o justa de mat\u00e9rias-primas, planejamento integrado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de minerais estrat\u00e9gicos aqui presentes, a reforma do sistema financeiro internacional e a institucionaliza\u00e7\u00e3o de mecanismos de transfer\u00eancia de recursos e tecnologia para pa\u00edses do Sul Global. A presid\u00eancia brasileira significa, portanto, uma ineg\u00e1vel janela de oportunidade para unir todas essas prioridades, agendas caras \u00e0 regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, para alcan\u00e7ar esse resultado, \u00e9 necess\u00e1rio dar um passo atr\u00e1s. Argentina, Brasil e M\u00e9xico precisam, antes de tudo, acordar e reconhecer a import\u00e2ncia de avan\u00e7ar uma agenda compartilhada. Devem, ainda, definir prioridades e decidir, conjuntamente, sobre mecanismos e objetivos pol\u00edticos. Caso percamos essa oportunidade, a Am\u00e9rica Latina volta ficar\u00e1 novamente a reboque de&nbsp; decis\u00f5es tomadas por outros, e seremos sempre um pa\u00eds e uma regi\u00e3o \u201cdo futuro\u201d, que nunca chega. Como diz a m\u00e1xima, quem n\u00e3o se senta \u00e0 mesa, est\u00e1 no menu.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cintya Feitosa, assessora de rela\u00e7\u00f5es internacionais do Instituto Clima e Sociedade (iCS)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautora Cintya Feitosa<br \/>\nEm um momento de renovadas expectativas sobre o papel do Brasil na pol\u00edtica internacional, o pa\u00eds presidir\u00e1, em 2024, o grupo das 20 principais economias do mundo: o G20. <\/p>\n","protected":false},"author":37,"featured_media":18487,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17126,17126,16728,16728,16762,16762,14441,14507,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-18467","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-g20-pt-br","9":"category-brasil-pt-br","11":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","13":"category-integracao-regional","14":"category-relacoes-internacionais","15":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/37"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18467"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18467\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18467"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=18467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}