{"id":18684,"date":"2023-07-30T05:00:00","date_gmt":"2023-07-30T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=18684"},"modified":"2023-07-28T15:23:52","modified_gmt":"2023-07-28T18:23:52","slug":"o-efeito-eureca-e-as-relacoes-entre-a-uniao-europeia-a-america-latina-e-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-efeito-eureca-e-as-relacoes-entre-a-uniao-europeia-a-america-latina-e-a-china\/","title":{"rendered":"O efeito eureca e as rela\u00e7\u00f5es entre a Uni\u00e3o Europeia, a Am\u00e9rica Latina e a China"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautora Pamela Ar\u00f3stica<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o do renovado poder chin\u00eas no mundo mobiliza recursos, desperta vontades, reconfigura alian\u00e7as, inquieta l\u00edderes ocidentais, redireciona estrat\u00e9gias e modifica percep\u00e7\u00f5es por parte de personalidades e entidades estatais, comunidades empresariais e at\u00e9 mesmo molda a opini\u00e3o p\u00fablica mundial, dividindo vozes a favor ou contra. Assim, particularmente na Europa e nos Estados Unidos, houve um efeito eureca, que mostra que o poder da China n\u00e3o \u00e9 neutro em escala pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica, e amea\u00e7a seus interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe (ALC),<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/as-relacoes-entre-china-e-america-latina-em-retrospectiva\/\"> a presen\u00e7a da China<\/a>, por meio de empresas, institutos de forma\u00e7\u00e3o, redes acad\u00eamicas e meios de comunica\u00e7\u00e3o, incrementou sua influ\u00eancia nos \u00e2mbitos p\u00fablico e privado (em escala regional), provocando uma profunda atra\u00e7\u00e3o sobre sua exitosa trajet\u00f3ria econ\u00f4mica, que se baseia em um r\u00edgido sistema pol\u00edtico unipartidarista e no epicentro de uma ordem &#8220;helioc\u00eantrica&#8221; em torno da qual giram as na\u00e7\u00f5es desenvolvidas e em desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob essa perspectiva, a III C\u00fapula de Chefes de Estado e de Governo da Uni\u00e3o Europeia (UE) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada em Bruxelas nos dias 17 e 18 de julho de 2023 (ap\u00f3s um intervalo de oito anos), \u00e9 um indicador claro da simultaneidade dos efeitos eureca que a China produziu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2023\/07\/china-nao-e-a-unica-opcao-para-america-latina-como-mostra-a-cupula-ue-celac.shtml\">a pr\u00f3pria Europa mudou seu posicionamento mundial e sobre a China<\/a>; a Europa comunit\u00e1ria parece querer recuperar um perdido status de &#8220;ator global&#8221; depois de ter passado por profundas crises econ\u00f4micas, divis\u00f5es como o <em>Brexit<\/em> e, atualmente, a guerra na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;despertar europeu&#8221; foi (e est\u00e1 sendo) traum\u00e1tico; Ap\u00f3s d\u00e9cadas de tentativas de um <em>modus vivendi<\/em> com a R\u00fassia de Vladimir Putin, a permissividade de seu avan\u00e7o para o oeste (a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia e a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia) demonstrou claramente o fracasso da &#8220;estrat\u00e9gia de apaziguamento&#8221;, expondo a vulnerabilidade e a depend\u00eancia europeia em rela\u00e7\u00e3o a governantes autocr\u00e1ticos, que, em repetidas ocasi\u00f5es e pela voz de estrategistas e intelectuais, expuseram tanto uma &#8220;pot\u00eancia emergente&#8221; \u00e1vida por restaura\u00e7\u00e3o (como parte do imagin\u00e1rio chin\u00eas) quanto o &#8220;enfraquecimento da Europa comunit\u00e1ria&#8221;, ou seja, a OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>O epicentro desse efeito parece ser a Alemanha. A primeira pot\u00eancia econ\u00f4mica europeia e o principal parceiro comercial da China na UE parece estar acordando de sua longa letargia e reconhecendo, por meio da publica\u00e7\u00e3o de sua <em>strategy on China<\/em>, a necessidade de combinar prud\u00eancia estrat\u00e9gica e garantias de seguran\u00e7a (alimentos e energia) por meio de uma pragm\u00e1tica gest\u00e3o comercial com o drag\u00e3o asi\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma abordagem que reafirma as estrat\u00e9gias de &#8220;<em>de-risking<\/em>&#8221; (a elimina\u00e7\u00e3o do risco por meio da restri\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos com determinadas contrapartes, em vez de gerenciar o risco), mas n\u00e3o de &#8220;<em>de-linking<\/em>&#8221; (a dissocia\u00e7\u00e3o consiste em desvincular um par\u00e2metro de outro). Para a Alemanha p\u00f3s-\u00c2ngela Merkel, a China \u00e9 agora um competidor sist\u00eamico e um s\u00f3cio comercial importante, em rela\u00e7\u00e3o ao qual uma nova estrat\u00e9gia precisa ser adotada para preservar sua &#8220;seguran\u00e7a econ\u00f4mica&#8221;. A China mudou; portanto, a vis\u00e3o sobre a China tamb\u00e9m deve mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros pa\u00edses europeus compartilham dessa vis\u00e3o. Eles perceberam (como um efeito eureca) que a China se tornou mais poderosa e assertiva na pol\u00edtica externa, controla setores estrat\u00e9gicos em suas economias por meio de alian\u00e7as, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es (Gr\u00e3-Bretanha) de empresas, circuitos log\u00edsticos cr\u00edticos sob o amparo da BRI (Gr\u00e9cia) e, devido \u00e0 sua competitividade, amea\u00e7a seus <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/china-a-proxima-dona-do-interruptor-na-america-latina\/\">interesses estrat\u00e9gicos na ALC<\/a>. Esse ponto de vista \u00e9 complementado pela perspectiva norte-americana, que fala de uma &#8220;<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/china-se-envolve-com-a-america-latina-distorcendo-o-desenvolvimento-e-a-democracia\/\">amea\u00e7a chinesa<\/a>&#8221; ainda mais intimidadora ao contar com a alian\u00e7a &#8220;ilimitada&#8221; com a R\u00fassia, integrando assim uma coaliz\u00e3o de &#8220;Estados autorit\u00e1rios&#8221; antiocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2023\/07\/europa-anuncia-r-242-bilhoes-de-investimentos-na-america-latina-e-caribe.shtml\">A rea\u00e7\u00e3o europeia e sua revitaliza\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os com a ALC<\/a> podem ser interpretadas de v\u00e1rios \u00e2ngulos. A revaloriza\u00e7\u00e3o do interesse da Europa na ALC como fornecedora de mat\u00e9rias-primas, recursos minerais, energ\u00e9ticos de seguran\u00e7a alimentar; a sustenta\u00e7\u00e3o da institucionalidade democr\u00e1ticas; a conten\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o da China sobre governos e l\u00edderes sociais; a recupera\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de influ\u00eancia cedidos por &#8220;distra\u00e7\u00e3o ou desinteresse&#8221; a pessoas e \u00f3rg\u00e3os governamentais e n\u00e3o governamentais; e a reafirma\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da ALC na luta contra o aquecimento global e a deteriora\u00e7\u00e3o ambiental s\u00e3o fatores que est\u00e3o vinculados \u00e0 mudan\u00e7a de perspectiva europeia sobre a regi\u00e3o. Um indicador da &#8220;redescoberta europeia&#8221;&nbsp; \u00e9 sua ambi\u00e7\u00e3o de assinar um Acordo de Livre Com\u00e9rcio (ALC) entre a UE e o Mercosul.<\/p>\n\n\n\n<p>As aspira\u00e7\u00f5es m\u00fatuas de uma interdepend\u00eancia mais profunda entre a UE e a ALC permanecem v\u00e1lidas hoje em dia, no entanto, esta n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da manuten\u00e7\u00e3o de uma reiterada narrativa europeia (mantra) sobre o desenvolvimento, a democracia, os valores humanos e os la\u00e7os hist\u00f3ricos, conceitos que hoje em dia n\u00e3o seduzem os decisores pol\u00edticos e os agentes econ\u00f4micos latino-americanos. O reconhecimento da diversidade dos interesses latino-americanos \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para que a UE recupere espa\u00e7os perdidos de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos olhos dos latino-americanos, a China surge como um parceiro mais &#8220;eficiente&#8221; e pragm\u00e1tico, na medida em que avan\u00e7a com projectos de infra-estruturas, investimentos em setores industriais, acordos de telecomunica\u00e7\u00f5es e planos de a\u00e7\u00e3o conjuntos para a coopera\u00e7\u00e3o em \u00e1reas fundamentais. Al\u00e9m disso, a China assinou v\u00e1rios tratados de livre com\u00e9rcio (TLC) na regi\u00e3o, o mais recente com o Equador.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 tempo?<\/p>\n\n\n\n<p>A Europa pode recuperar os espa\u00e7os perdidos aplicando uma vis\u00e3o pragm\u00e1tica, adaptando uma ideia com a ALC que n\u00e3o esteja centrada em &#8220;valores e simbolismos&#8221; passados e difusos, mas sim baseada em fundamentos reais que contemplem objetivos conjuntos multin\u00edveis e multidimensionais (e n\u00e3o paternalistas como no passado) sobre desenvolvimento partilhado, promo\u00e7\u00e3o industrial, alian\u00e7as tecnol\u00f3gicas, abertura de mercados, educa\u00e7\u00e3o digital, <em>know-how, joint ventures<\/em> e interc\u00e2mbio universit\u00e1rio, entre outros pontos.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de a\u00e7\u00f5es concretas e mantidas no tempo, que exigir\u00e3o um trabalho &#8220;de base&#8221; mais proativo e inclusivo com as pessoas e entes subnacionais e n\u00e3o governamentais. Numa regi\u00e3o complexa, onde a democracia n\u00e3o se tem revelado eficaz em termos de melhoria da qualidade de vida das popula\u00e7\u00f5es, o mero discurso axiol\u00f3gico pode soar a vazio. Em suma, a UE do s\u00e9culo XXI ser\u00e1 bem-vinda na regi\u00e3o atrav\u00e9s do di\u00e1logo, da a\u00e7\u00e3o concertada para enfrentar os desafios comuns, da promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento e da forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos; muitos de n\u00f3s teriam gostado de um despertar, de um efeito eureca mais cedo, mas&#8230; mais vale tarde do que nunca.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>* Este texto foi publicado originalmente na p\u00e1gina de<\/sub><\/em><a href=\"http:\/\/chinayamericalatina.com\/\"><sub><em> REDCAEM<\/em><\/sub><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Europa e nos Estados Unidos, houve um efeito eureca, que evidenciou que o poder da China n\u00e3o \u00e9 neutro em escala pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica e amea\u00e7a seus interesses.<\/p>\n","protected":false},"author":289,"featured_media":18676,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16832,16832,16761,16762,16761,16762,14507,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-18684","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-union-europea-es-pt-br","9":"category-china-es-pt-br","10":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","13":"category-relacoes-internacionais","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/289"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18684\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18676"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18684"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=18684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}