{"id":19008,"date":"2023-08-16T08:00:00","date_gmt":"2023-08-16T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19008"},"modified":"2023-08-16T13:01:19","modified_gmt":"2023-08-16T16:01:19","slug":"equador-o-pais-no-qual-cresci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/equador-o-pais-no-qual-cresci\/","title":{"rendered":"Equador, o pa\u00eds no qual cresci"},"content":{"rendered":"\n<p>O Equador, at\u00e9 pouco mais de 15 anos atr\u00e1s, <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2023\/07\/12\/espanol\/narcotrafico-violencia-ecuador.html\">era uma &#8220;ilha de paz&#8221;<\/a>. Na d\u00e9cada de 1980, o narcotr\u00e1fico, o narcoterrorismo, o crime organizado e o paramilitarismo esgotaram seus vizinhos Col\u00f4mbia e Peru. Por esse motivo, muitos afirmaram que esse era um caso in\u00e9dito, e alguns se perguntaram por que um pa\u00eds pequeno, economicamente vulner\u00e1vel, com um Estado dependente de mat\u00e9rias-primas, um conflito fronteiri\u00e7o n\u00e3o resolvido e uma democracia incipiente poderia escapar da viol\u00eancia. Esse pa\u00eds que, como Alexander von Humboldt bem disse entre 1799 e 1804, vivia pobremente em meio a in\u00fameras riquezas, dormia em meio a vulc\u00f5es estrondosos e se alegrava com m\u00fasicas tristes. Era apenas mais um pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul, talvez irrelevante no cen\u00e1rio internacional, mas pac\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Equador sempre defendeu a resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de controv\u00e9rsias e, pelo menos no \u00e2mbito internacional, apelou para o n\u00edvel institucional. \u00c9 um pa\u00eds que, em meio a seus problemas, sempre tentou desenvolver uma democracia que, embora debilitada, imperfeita e seduzida pelo caudilhismo, estava tentando se firmar entre seus pares latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A democracia equatoriana sobreviveu \u00e0 morte de um ex-presidente no cargo, a duas guerras, ao sequestro de um presidente em uma base militar, a dois fen\u00f4menos El Ni\u00f1o, a duas crises de d\u00edvida, ao colapso de seu sistema financeiro e \u00e0 dolariza\u00e7\u00e3o. Era um pa\u00eds no qual, embora fosse necess\u00e1rio tomar precau\u00e7\u00f5es (como em qualquer pa\u00eds latino-americano), n\u00e3o se falava em carros-bomba, cad\u00e1veres pendurados em pontes, extors\u00e3o de pequenas e m\u00e9dias empresas, assassinatos de candidatos a qualquer cargo eletivo ou de pessoas sendo despeda\u00e7adas nas pris\u00f5es e, menos ainda, de pol\u00edticos tirando fotos com traficantes de drogas ou nomeando ex-membros de gangues criminosas (como os Latin Kings) para a Assembleia Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O Equador era um Estado com altos e baixos, mas que mantinha o controle do monop\u00f3lio leg\u00edtimo da viol\u00eancia. As institui\u00e7\u00f5es encarregadas da seguran\u00e7a tinham fortes n\u00edveis de credibilidade e confian\u00e7a p\u00fablica e, apesar das car\u00eancias e necessidades da popula\u00e7\u00e3o, ainda havia um tecido social com atividades de bairro, onde os vizinhos se reuniam em festivais da cidade ou para exigir aten\u00e7\u00e3o de seus mandat\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds em que cresci n\u00e3o era de forma alguma perfeito, continuava sendo injusto com aqueles que tinham menos e, no final da d\u00e9cada de 1990, muitos compatriotas tiveram que emigrar para a Espanha, Estados Unidos ou It\u00e1lia em busca de oportunidades, mas com a esperan\u00e7a de voltar, comprar uma casa e montar um neg\u00f3cio que lhes permitisse passar o resto de seus dias em seu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia problemas pol\u00edticos nesse pa\u00eds, como em qualquer outro da regi\u00e3o, mas n\u00e3o havia candidatos amea\u00e7ados ou autoridades assassinadas. O \u00faltimo assassinato de um candidato \u00e0 presid\u00eancia ocorreu em 1978, quando os inimigos da democracia na \u00e9poca queriam impedi-lo de retornar ao pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, esses inimigos se instalaram no Equador, e o <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-assassinato-do-candidato-villavicencio-e-as-eleicoes-presidenciais-de-2023-no-equador\/\">recente assassinato do candidato presidencial<\/a> marcou um antes e um depois. Fernando Villavicencio havia <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2023\/08\/candidato-morto-no-equador-denunciou-casos-de-corrupcao-como-jornalista-e-deputado.shtml\">denunciado as amea\u00e7as do c\u00e2ncer do crime organizado<\/a> e foi morto a tiros \u00e0s 17h30 da tarde no centro norte da capital, em condi\u00e7\u00f5es que levantam suspeitas pela falta de previs\u00e3o de sua equipe de seguran\u00e7a, composta por policiais e profissionais privados.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele pa\u00eds j\u00e1 n\u00e3o existe mais e muitos querem deixar o que restou dele. Ningu\u00e9m quer viver na ansiedade de n\u00e3o saber se voltar\u00e1 para casa em seguran\u00e7a, se uma bala perdida matar\u00e1 um ente querido ou se ter\u00e1 de escolher entre pagar uma extors\u00e3o ou continuar vivendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cresci em um pa\u00eds pac\u00edfico, onde n\u00e3o havia medo de ir \u00e0s urnas, onde fazer pol\u00edtica talvez n\u00e3o fosse a melhor decis\u00e3o, mas n\u00e3o custava a vida. Agora, sobrevivo em meio a uma viol\u00eancia que tenta impor sua paz com fogo, l\u00e1grimas, dor e em meio a uma democracia moribunda, a qual, quem sabe, logo receber\u00e1 os \u00faltimos ritos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cresci em um pa\u00eds pac\u00edfico, onde n\u00e3o havia medo de ir \u00e0s urnas, onde fazer pol\u00edtica talvez n\u00e3o fosse a melhor decis\u00e3o, mas n\u00e3o lhe custaria a vida.<\/p>\n","protected":false},"author":130,"featured_media":19000,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16736,17021,16715,16715,16736,17021,14374,14409,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19008","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-crimen-organizado-pt-br","8":"category-violencia-politica-pt-br","9":"category-ecuador-pt-br","13":"category-crime-organizado","14":"category-equador","15":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19008","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/130"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19008"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19008\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19008"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19008"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19008"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19008"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}