{"id":19321,"date":"2023-09-04T08:00:00","date_gmt":"2023-09-04T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19321"},"modified":"2023-09-06T07:40:17","modified_gmt":"2023-09-06T10:40:17","slug":"assim-se-joga-xadrez-a-politica-latino-americana-para-alem-das-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/assim-se-joga-xadrez-a-politica-latino-americana-para-alem-das-fronteiras\/","title":{"rendered":"Assim se joga xadrez: a pol\u00edtica latino-americana para al\u00e9m das fronteiras"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma das v\u00e1rias consequ\u00eancias da chamada crise do petr\u00f3leo em 1973 \u00e9 que esse foi o momento geralmente escolhido como um divisor de \u00e1guas e a partir do qual a internacionaliza\u00e7\u00e3o, a interdepend\u00eancia, a globaliza\u00e7\u00e3o, ou como quisermos cham\u00e1-la, aparece como um elemento inevit\u00e1vel para as an\u00e1lises econ\u00f4micas e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Robert Keohane e Joseph Nye definiram em <em>Transnational Relations and World Politics: An Introduction<\/em>, esse modelo de a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o in\u00e9dito, como transnacional. O \u00e2mbito internacional n\u00e3o pertencia mais exclusivamente ao mundo estatal ou governamental, e outros atores come\u00e7aram a se tornar protagonistas com reconhecida legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A economia foi a que mais rapidamente se adaptou a esse &#8220;novo mundo&#8221; e, naqueles anos da d\u00e9cada de 1970, ela foi incorporada \u00e0s chamadas<em> empresas transnacionais<\/em>. \u00c9 interessante notar que o transnacionalismo tamb\u00e9m foi uma pr\u00e1tica habitual entre os grupos da esquerda radical e armada. Estas utilizavam habilmente as redes informais como forma de levar a cabo seus planos revolucion\u00e1rios. Sem bases geogr\u00e1ficas fixas, conseguiram estabelecer v\u00ednculos entre grupos e lugares diferentes em um mapa intercontinental cujos n\u00f3s, entre outros, eram a Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o Palestina de Yasser Arafat, a L\u00edbia de Kadafi e a ditadura castrista em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Redes e atores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A atividade transnacional foi se expandindo para al\u00e9m da esquerda. Ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, essa foi a tend\u00eancia dominante na pol\u00edtica globalizada. O <em>efeito bumerangu<\/em>e, t\u00e3o bem definido por Margaret Keck e Katherine Sikkink no livro <em>Ativistas sem Fronteiras<\/em>, simbolizava a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso dos atores nacionais \u00e0 arena internacional. Assim, n\u00e3o importava qu\u00e3o pequenos, isolados ou destitu\u00eddos de poder eles fossem. Qualquer grupo poderia apelar ao mundo para obter recursos ou impor limites aos Estados nacionais que os perseguiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as mudan\u00e7as tamb\u00e9m foram observadas na sociedade, n\u00e3o apenas nas transforma\u00e7\u00f5es que alguns setores sofreram, por exemplo, na redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de funcion\u00e1rios tradicionais e no aumento do n\u00famero de trabalhadores ligados ao setor de servi\u00e7os. Isso tamb\u00e9m foi observado na fragmenta\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica que estava come\u00e7ando a mostrar a diversifica\u00e7\u00e3o das demandas sociais. Essas inclu\u00edam o ambiente, o feminismo, o antinuclear ou as demandas por mais liberdades frente ao avan\u00e7o dos pesados e burocratizados Estados europeus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As redes transfronteiri\u00e7as deram nova vida ao mundo associativo. Grupos e atores n\u00e3o estatais ou paraestatais tamb\u00e9m encontraram um lugar confort\u00e1vel nesse novo terreno: o crime organizado, as redes financeiras, os meios de comunica\u00e7\u00e3o. Outros fen\u00f4menos que logo se tornaram recorrentes e que tamb\u00e9m n\u00e3o respeitavam fronteiras nacionais foram as migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, as pandemias e os desastres clim\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno da globaliza\u00e7\u00e3o tomou corpo como uma crise dos Estados nacionais, que come\u00e7aram a ver sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o de um mercado que n\u00e3o era mais exclusivamente nacional e estava adquirindo outra magnitude em sua escala log\u00edstica, organizacional e de gest\u00e3o de recursos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O nacional se torna internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Simplificando, a f\u00f3rmula do \u00eaxito que havia sido constru\u00eddo desde a Segunda Guerra Mundial, o Estado de bem-estar social, estava come\u00e7ando a ter s\u00e9rios problemas para continuar sendo sustent\u00e1vel e sua legitimidade pol\u00edtica e intelectual estava sofrendo com isso. Outras demandas estavam crescendo nas sociedades que as obsoletas social-democracias europeias n\u00e3o conseguiam sequer caracterizar adequadamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso enquadrou a conhecida crise de representa\u00e7\u00e3o (que, corrigida e aumentada, continua at\u00e9 hoje) que refletia o crescente descontentamento social com um sistema pol\u00edtico nacionalizado que n\u00e3o podia mais fornecer respostas aos problemas e desafios que tinham car\u00e1ter global.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os pol\u00edticos, ativistas e todos aqueles que entendiam a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica al\u00e9m da reflex\u00e3o te\u00f3rica, isso tamb\u00e9m se traduziu em um desafio que exigia respostas inovadoras que transcendiam as fronteiras nacionais, mas das quais havia precedentes. E isso desafiava o mundo pol\u00edtico, independentemente de os protagonistas ocuparem posi\u00e7\u00f5es centrais em Estados e governos ou fazerem parte de pequenos partidos ou organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias ou n\u00e3o governamentais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No artigo <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/documentos\/dp-enfoque\/el-mundo-no-es-suficiente\/\"><em>O mundo n\u00e3o \u00e9 suficiente. Redes de Pol\u00edticos e Lutas pela Democracia na Am\u00e9rica Latina<\/em><\/a>, publicado pelo Di\u00e1logo Pol\u00edtico e pela Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenauer, apresentei um trabalho de pesquisa que tenta ordenar e dar sentido estrat\u00e9gico ao mundo atual do ativismo pol\u00edtico transnacional.Ao fazer isso, enfatizei tr\u00eas tipos de estrat\u00e9gia: redes governamentais internacionais, as pol\u00edticas informais e as pol\u00edticas transnacionais. Estas \u00faltimas, por sua vez, foram divididas em redes de ativismo transnacional e redes pol\u00edticas partid\u00e1rias al\u00e9m das fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho mencionado tamb\u00e9m partiu de uma hip\u00f3tese transversal que dava sentido ao mapa tenso e conflituoso da pol\u00edtica latino-americana. O transnacionalismo pol\u00edtico atual foi traduzido com um novo sentido por l\u00edderes e movimentos, especialmente aqueles pertencentes \u00e0 chamada mar\u00e9 rosa, esquerda do s\u00e9culo XXI, nova esquerda latino-americana ou esquerda populista, e seus sucessores. E esse sentido se tornou dominante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Al\u00e9m das fronteiras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa onda de ativismo e pol\u00edtica transnacional foi bem aproveitada por aqueles que aderiram a projetos autorit\u00e1rios, iliberais e at\u00e9 antidemocr\u00e1ticos. Ela esvaziou o movimento internacionalista de sua influ\u00eancia liberal tradicional baseada em ideias de cosmopolitismo ou internacionaliza\u00e7\u00e3o da democracia. O Foro de S\u00e3o Paulo, a Clacso e os levantes organizados para deslegitimar governos que n\u00e3o s\u00e3o de esquerda na Argentina, no Chile, na Col\u00f4mbia, no Equador e no Peru s\u00e3o apenas alguns exemplos de uma equa\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito mais coordenada do que parece.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse novo fen\u00f4meno transnacional \u00e9 sustentado por um discurso <em>catch all<\/em>, enunciado hegemonicamente pelo mundo pol\u00edtico, acad\u00eamico e cultural, que combina elementos contempor\u00e2neos e do s\u00e9culo XX com a tradi\u00e7\u00e3o patriarcal, amplamente presente na hist\u00f3ria pol\u00edtica da regi\u00e3o. A isso se somam elementos provenientes do cl\u00e1ssico discurso socialista propagado por um dos n\u00f3s mais importantes e tradicionais da rede, Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modelo de nacionalismo regional como base para um renovado ativismo pol\u00edtico nacional retoma algumas quest\u00f5es cl\u00e1ssicas desse tipo de movimento: uma vis\u00e3o agonal da pol\u00edtica, ideias antiliberais e uma narrativa anti-imperialista, mas ao mesmo tempo conservadora. No entanto, a pesquisa tamb\u00e9m mostra uma renovada atividade transnacional dos partidos pol\u00edticos, em uma gama que vai muito al\u00e9m do universo da esquerda.Possivelmente, o resultado mais importante (e otimista) do texto publicado pelo Di\u00e1logo Pol\u00edtico \u00e9 que as organiza\u00e7\u00f5es transnacionais de partidos (OPTs), embora n\u00e3o sejam popularmente reconhecidas, cresceram significativamente. Elas podem se tornar uma ferramenta muito \u00fatil tanto para atender \u00e0s demandas das <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/como-recuperar-el-sentido-de-la-politica\/\">sociedades insatisfeitas com a pol\u00edtica nacional<\/a> quanto como uma esperan\u00e7a para confrontar os discursos autorit\u00e1rios de esquerdas e direitas que est\u00e3o se fortalecendo atualmente na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Este texto foi publicado originalmente no Di\u00e1logo Pol\u00edtico.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias transnacionais, embora n\u00e3o sejam reconhecidas popularmente, cresceram e podem se tornar uma esperan\u00e7a para fazer frente aos discursos autorit\u00e1rios da esquerda e da direita.<\/p>\n","protected":false},"author":365,"featured_media":19317,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16777,16777,16762,16762,16750,16750,14424,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19321","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-globalizacion-pt-br","9":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","11":"category-economia-pt-br","13":"category-globalizacao","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/365"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19321"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19321\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19317"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19321"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}